A coragem de falar sobre problemas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de março de 2015
RAFAEL VALESI<br>[email protected] 
No Brasil, seja em qual esfera for, parece ser proibido falar e discutir sobre os problemas do país. Quando alguém levanta a voz sobre algo que precisa ser melhorado, às vezes é tachado de polêmico ou de alguma pessoa que quer aparecer. Assim, a reclamação em si acaba ficando em segundo plano e levada para debaixo do tapete.
No esporte isso é marcante e histórico. São raros os atletas que colocam a boca no trombone. E quando o fazem, viram os "chatos". Há como se".contornar" isso. Basta oferecer alguns privilégios e ofertas obscuras nos bastidores e aquela reclamação some em questão de dias. A relação entre competidores e dirigentes acaba sendo baseada na cordialidade e na amizade. Quer protestar? Fique à vontade, mas aguarde por represálias. Obedeça e você não será prejudicado.
É por essas e outras que as fortes declarações do velejador Bruno Prada, em sua coluna no LANCE! na última quarta-feira, chocaram: "Na nossa coluna de hoje, gostaria de falar um pouco das condições da Baía de Guanabara, um dos cartões-postais mais bonitos do mundo. Ainda bem que cartão-postal não tem cheiro! A situação está crítica, e os governantes vão empurrando com a barriga, como de costume", disparou o medalhista olímpico e tricampeão mundial.
Não é de hoje que velejadores brasileiros (e até estrangeiros) reclamam da poluição da Baía, palco das regatas da vela na Olimpíada Rio-2016. Campeã mundial na classe 49erFX, Martine Grael é uma das mais atuantes. É de se elogiar a postura destes nomes, enquanto outros setores dentro da própria vela silenciam-se diante da questão.
Não se pode achar que o esporte brasileiro está às mil maravilhas (para não ser injusto, o jornalismo também capenga, e a insatisfação dos profissionais da categoria é generalizada). Muito pelo contrário. Apesar dos incentivos públicos e privados, ainda há casos de atletas que reclamam da falta de apoio. Os desmandos dos dirigentes, então, nem se fala. É só relembrar as den úncias recentes de má gestão na CBV (vôlei) e CBTKD (taekwondo), para não citar outras entidades.
Quando o silêncio impera, conclui-se que tudo está bem. Reclamar não é atacar o outro, mas sim defender os próprios interesses.


