A COPA VISTA DO BANCO DE RESERVAS
Paulo Briguet
Enviado da Folha
É fácil conversar com eles. Nos horários reservados às entrevistas, os reservas da Seleção formam um grupo à parte. Como são pouco procurados pela imprensa, sentam-se lado a lado e ficam batendo papo entre si. Os jornalistas que se aproximam podem manter longos diálogos com César, Marcos, Evanílson, Marcos Paulo, Serginho, Christian, Beto. É a turma da tranquilidade na delegação brasileira.
Pelos corredores do Hotel Bourbon, os reservas convivem com os hóspedes, transitam em relativa paz, dão autógrafos (embora não na escala industrial das estrelas do time). Na hora das entrevistas, algo muito diferente ocorre com superastros como Ronaldo, Rivaldo, Roberto Carlos, Amoroso e, agora, Dida: para onde eles se voltam, surgem câmeras, perguntas, luzes, gravadores e bloquinhos de anotação. O preço da fama, no caso, é ter cada palavra registrada.
Há também um grupo intermediário de reservas que se destacaram e podem entrar em campo a qualquer momento, sem surpresa e frequentemente após pedidos da torcida: dessa categoria fazem parte Alex e Ronaldinho. São bastante assediados. Todos - titulares e reservas - garantem que não há diferenças internas e ressaltam que o bom convívio do grupo está acima das disputas por vagas no time titular.
Entre os jogadores convocados por Wanderley Luxemburgo para a Copa América, apenas três ainda não entraram em campo durante a competição: o goleiro Marcos, o zagueiro César e o meio-campista Marcos Paulo. Eles dizem que a condição de reservas não abala o ânimo nem provoca ansiedade. Na Seleção Brasileira, quem espera no banco pode alcançar o gramado. Trata-se de uma questão de paciência e persistência.
A reserva não é novidade para Marcos. Desde 1994, ele esteve no banco do Palmeiras. Foi suplente de Velloso, Sérgio, Gato Fernández e César, sempre aguardando uma chance de entrar em campo. Nos cinco longos anos de espera, foi terceiro e até quarto goleiro do elenco palmeirense.
- Aprendi muito com esses grandes profissionais que defenderam o Palmeiras. Mas chegou uma hora em que me desmotivei - lembra o goleiro.
A certa altura, Marcos não suportava mais ser o eterno reserva palmeirense. Nessa fase de desânimo, ele havia atuado em um domingo, contra o União Barbarense, pelo Campeonato Paulista de Aspirantes. Três dias depois, veio a chance que ele tanto esperou: Marcos estava defendendo o Palmeiras na Taça Libertadores da América.
Não foi à toa que especialistas como Valdir de Morais já haviam apostado no potencial de Marcos. O goleiro sairia da Libertadores como campeão, herói da torcida alviverde e melhor jogador do torneio. Aos 25 anos, foi convocado para a Copa América, em substituição ao goleiro vascaíno Carlos Germano, cortado por contusão.
Mas, se depender da grande fase que Dida atravessa, Marcos ainda terá que esperar bastante para mostrar serviço na Seleção Brasileira. O goleiro palmeirense é o primeiro a admitir:
- Hoje, o momento é do Dida e a gente tem mais é que dar força para ele. Além do mais, goleiro não ganha posição em treino. Sei por experiência própria.
Na opinião de Marcos, os méritos do colega de posição não se mostraram somente nas defesas de pênaltis contra o Chile e a Argentina. O titular teria conquistado o dom mais precioso para quem joga sob as traves: a confiança da torcida. Marcos e o Palmeiras sabem muito bem o que isso significa.
Os goleiros são, certamente, os atletas que mais dão duro na Seleção. Treinam a toda hora, até mesmo nos gramados do Hotel Bourbon, sempre acompanhados pelo preparador Paulo César e pelo consultor técnico Valdir de Morais. Os dois goleiros se conhecem desde a Seleção de Juniores em 93, dividem o mesmo quarto e conversam muito durante a maratona de treinos. Marcos afirma:
- Espero ter minha oportunidade, mas o Dida sabe que nunca será traído. Há lealdade entre nós.
Dos quatro zagueiros da Seleção, César é o único que ainda não teve chance de jogar durante a Copa América. A reserva não parece abalá-lo:
- Já passou o período de ansiedade. O importante agora é trabalhar sério pelo grupo.
O companheiro de zaga Odvan, que começou titular, não gostou nada de ter sido trocado por João Carlos. Mas o episódio - garante César - já foi superado:
- Toda saída da equipe é um pouco perturbadora, mas o Odvan já assimilou tudo. Conversei com ele e está tudo bem.
A entrada de João Carlos na equipe, segundo César, é a prova de que a chance pode chegar para qualquer um dentro da Seleção.
- Quando cheguei à Ponte Preta e à Portuguesa, também fiquei um período no banco. Mas é preciso saber que as boas oportunidades aparecem no futebol.
Aos 23 anos, César diz aprender muito com a atuação de Antônio Carlos, um de seus ídolos na zaga, juntamente com Oscar e Juninho (ambos da Seleção da Copa de 82). Para César, zagueiro ideal é aquele que concilia técnica com vigor.
- Aqui na Seleção, o Antônio Carlos veio a confirmar tudo que eu admirava nele. Ele alia alta técnica com força. É habilidoso, mas sabe dividir e dar um chutão na hora certa.
O meio-campista Marcos Paulo, do Cruzeiro, também não entrou em campo na Copa América. Mas a convocação, por si só, já foi uma surpresa mais do que agradável. Ele foi chamado para substituir César Sampaio, cortado por contusão. Relativamente inesperada, a convocação de Marcos Paulo gerou clima de festa na casa do meio-campista em Belo Horizonte, onde ele vive com a mãe e a avó.
- É a minha primeira competição com a Seleção e só o fato de estar aqui me deixa muito contente.
Ele confessa, no entanto, que pensou na possibilidade de jogar após a saída de Vampeta, que deslocou o ombro e saiu da competição.
A oportunidade para Marcos Paulo (e também para César e Marcos) pode estar na Copa das Confederações, que será disputada no México logo após a Copa América. Os três reservas estão na lista do novo torneio. Aos 22 anos, Marcos Paulo diz que o grupo está coeso:
- Aqui, não tem essa de titular ou reserva. Todo mundo se trata do mesmo jeito.
Depois de uma tranquila sessão de entrevistas, César confirma as palavras do companheiro de reserva Marcos Paulo. Diante das câmeras, o zagueiro deixa a marca dos pés no cimento fresco da Calçada da Fama, no Hotel Bourbon. Com tempo e paciência - César sabe - o cinza da reserva pode dar lugar ao verde do campo. Os reservas estão a um passo do gramado.
Albari RosaLONGA ESPERA
Marcos Paulo durante uma das muitas entrevistas em que todo o grupo da Seleção fica à disposição dos jornalistas: É minha primeira competição pelo Brasil, e só o fato de estar aqui me deixa muito contente. Convocado de surpresa, em lugar do contundido César Sampaio, o volante do Cruzeiro diz que, apesar da diferença de assédio, o grupo está coeso: Aqui não tem essa de titular ou reserva; todo mundo se trata do mesmo jeito.
PERFIL
Nome: MARCOS PAULO Alves
Data de nascimento: 11.5.77
Local de nascimento: Douresópolis (MG)
Clube: Cruzeiro
Convocações: 5
Jogos pela Seleção: 1
Gols: nenhum
Albari RosaAQUELE ABRAÇO
Marcos abraça Dida durante treino da Seleção em Foz do Iguaçu: Hoje o momento é dele e a gente tem mais é que dar força; sei, por experiência própria, que goleiro não ganha posição em treino. Reserva no Palmeiras durante cinco anos, Marcos virou herói da torcida em pouco tempo
PERFIL
Nome: MARCOS Roberto Silveira Reis
Data de nascimento: 4.8.73
Local de nascimento: Oriente (SP)
Clube: Palmeiras
Convocações: 2
Jogos pela Seleção: nenhum
Albari RosaPÉS NO CHÃO
César na calçada da fama, criada pelo Hotel Bourbon, onde a Seleção se concentrou durante toda a Copa América: O período de ansiedade já passou; o importante, agora, é trabalhar sério pelo grupo. Ele é o único dos quatro zagueiros que ainda não atuou na competição
PERFIL
Nome: CÉSAR Augusto Michelon
Data de nascimento: 16.11.75
Local de nascimento: Bebedouro (SP)
Clube: Portuguesa de Desportos
Convocações: 13
Jogos pela Seleção: 7
Gols: nenhum





