A Copa da Esperança (Na Grande Area - Armando Nogueira)
Nem bem se completa a primeira semana, e a Copa já tem tanta coisa para contar. Algumas boas, outras, nem tanto. Houve tempo em que se dizia: quem viu, viu; quem não viu, visse. Hoje, quem não viu verá no teipe. Por sinal que a transmissão francesa está abusando no replay. Daqui a pouco, não se verá mais futebol em tempo real.
Um jogo de futebol é uma peça de teatro. Tem dramaturgia própria. Interrompê-la, a três por dois, como estão fazendo, é mais do que desfigurar a peça. O telespectador, coitado, fica sem pai, nem mãe. Fura-se o balão do suspense. Troca-se a saudável angústia do mistério pelo medo do desconhecido. O replay só tem cabimento nos tempos mortos da partida.
Enfim, não era bem disso que eu pretendia falar. A Copa tem nos dado momentos certamente inesquecíveis. A começar do gol do nigeriano Oliseh, o terceiro contra a Espanha: um míssil fumegante, pleno de potência e precisão. Não menos notável foi um certo passe de Baggio, no jogo com o Chile. Uma obra de arte que acabaria em nada, mas que perdura, até hoje, nos meus olhos, como uma centelha de magia. É o craque inventando espaço e tempo com um simples triscar de bola.
Lembrarei, também, duas defesas magistrais de Chilavert, no zero-a-zero de Paraguai e Bulgária. Deve ser bem mais feliz que os outros goleiros alguém, como Chilavert, que, depois de evitar que entre em gol, nas suas próprias redes, é capaz de marcar outro, no adversário, cobrando, sempre, com perfeição, um tiro livre direto. Faz muito bem a FIFA quando o elege o melhor goleiro da atualidade.
E que dizer da sucessão de dribles com que Ronaldinho saiu da ponta-direita e chegou à pequena área escocesa? Maravilhosa aceleração em que o craque combina inteligência medular e explosão muscular. Beckenbauer escreveu, no jornal alemão Bild, que, no segundo drible de Ronaldinho, ele não se conteve: levantou da cadeira e aplaudio, extasiado.
Confesso que desde o mundial de 94, vinha perdendo o entusiasmo. Noventa e 94 foram duas Copas sem um pingo de originalidade. De repente, me vejo, de novo, tomado de esperanças. Aqui, tenho visto bons jogos, sem os dissabores de um futebol viciado. Sem a irritante retenção de bola dos goleiros. Sem excesso de faltas. O mundial de 90 passou à história como a quintessência do antijogo.
Não te parece a redenção, leitor, que em três cartões vermelhos, dois tenham sido em cima de carrinho? Um, de um búlgaro, dado pela frente, mas perigosamente; o outro, por trás, dado por um coreano, igualmente, ameaçador?
Se o futebol sair dessa Copa livre do flagelo do carrinho, já valeu a pena ter feito o sacrifício de passar 30 dias, vivendo nesse paraíso que é Paris.
É a Europa que se curva...
Parece até coisa combinada: os principais jornais ingleses, franceses, e italianos comentam a soberba exibição da Nigéria contra a Espanha. Todas dão vivas ao continente negro. E perguntam se essa Copa do Mundo não será a Copa do Terceiro Mundo?
Admito que ainda não chegou a hora dos africanos. Mas tenho fundadas impressões de que o futuro do futebol está nos pés da raça fresca, seja da Nigéria, seja da África do Sul, seja de Marrocos.
O que se viu, contra a Espanha, foi uma equipe cheia de entusiasmo, com sobras de imaginação, driblando bonito, passando com precisão e arrematando com excelente técnica.
O técnico da Nigéria, o cigano Bora Milutinovic, avisa a quem interessar possa: o futebol africano não é apenas a Nigéria. A seleção marroquina é muito forte. O Brasil que ponha suas barbas de molho. Terça-feira, é dia de africanos.
É bom não esquecer uma coisa importante: se é verdade que Deus é brasileiro, não é menos verdade que Alá é africano, de coração.
Em nome do futebol...
Torcer na Copa é um ato religioso. Tem sua liturgia. Principalmente, quando o cavalheiro vai ver o jogo na televisão. Daí que o jornal Il Messaggero sugere o seguinte ritual ao torcedor italiano: chame os amigos, abasteça a dispensa, bebidinhas, salgadinhos, arranje meia-dúzia de bandeirolas pro caso de vitória da Itália, mande sua mulher ir ao cinema - e seja feliz. Mas, cuidado porque ninguém sabe o que é capaz de fazer, à tardinha, à sombra da Copa do Mundo uma mulher que detesta futebol...
Rápidas e rasteiras





