Na bola o Brasil teve um momento socializado, até mesmo nas prisões do regime militar, com a conquista do tricampeonato no México. Já no bolo, a despeito da preocupação de Médici com a Felicidade Nacional Bruta em lugar do Produto Interno Bruto, a distribuição permaneceu perversa: prometia-se que ele precisava crescer para que fosse melhor repartido. E até hoje esperamos essa partilha. Em compensação, trinta anos depois, o Brasil adere ao pastelão que fez a glória do Gordo e o Magro e dos Três Patetas (nada a ver com o Palácio do Governo), lançando tortas na cara de figurões. Quando o bolo não está pronto, lança-se ovos.
No cárcere intelectualizados de esquerda achavam que se o Brasil ganhasse o povo ficaria ‘‘alienado’’. No fundo, porém, torciam pelo time canarinho. A argumentação era aquela de que Mussolini se valera da Copa de 38 e Hitler dos Jogos Olímpicos (o negro americano Jesse Owens atrapalhou, como depois se daria com Joe Louis derrubando o germânico Max Schemelling no box), cerebrações que devem ser olhadas no seu relativismo. Médici foi um ‘‘duro’’ no regime, o que pegou a sequência da guerrilha e do terror, todavia era um amante verdeiro dos esportes, flamenguista e gremista.
O Paraná, que exportava gente para o Ministério (Flávio Lacerda, Ney Braga, Ivo Arzua), ia bem na continuidade dos programas do maior governante que teve com o ataque à infra-estrutura econômica. O bolo aqui também crescia e a bola, idem. Tanto que em 1973 o Coritiba ganharia um título talvez mais importante que o nacional de 85: campeão do Torneio do Povo, competição dos times de maior torcida do Brasil como Flamengo, Inter, Atlético Mineiro, Bahia e, é claro, o Coringão da Fiel. Leon Perez ficaria pouco tempo no poder para dar lugar a Parigot de Souza que pouparia e planejaria para um novo arranque a consolidar-se com Jaime Canet Júnior. Lerner surgiria para a política no IPPUC e depois na escolha para prefeito. Em 70 o Atlético foi campeão, esta ‘‘Folha’’, secretariada em Curitiba por Hélio Teixeira, venderia mais de 7 mil exemplares na Capital com o feito rubro-negro, que interrompia o tri dos coxas, que havia vencido em 69 e voltaria a mandar na década e a brilhar no campeonato nacional.
A bola continua nos dando compensações, o coxa foi o terceiro na fase de classificação do nacional de 98, o Atlético abafou em 99. Porém o bolo, que voltou a crescer com o novo perfil industrial do Paraná, não dá nem glacê para a maioria do público. E pior: multionacionalizados, desparanizamos.

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