É triste fazer as malas. Mas hoje a Argentina não tem outra opção.
Pense bem: se Dida não caísse naquele canto, o Brasil poderia estar juntando as tralhas agora. Portanto, não custa colaborar. Cadê a solidariedade do Mercosul? Depois de uma tarde em que a Tríplice Fronteira foi levada ao Estádio Tres de Febrero, vale a pena ajudar os argentinos a voltar bem para casa. Afinal, arrumar as malas é difícil. Eis algumas dicas:
- Deixar lugar para faixas, camisas, cornetas e o indefectível papel picado. Amarrar tudo com aquela fita de cabelo. Tem outra Copa América em dois anos.
- Encontrar espaço para o número igual de vitórias entre as duas seleções.
- Aproveitar a lacuna deixada no bagageiro pelos sete titulares que não vieram.
- Guardar o grito na lata apropriada (à prova de som).
- Forrar o fundo da bolsa com uma edição do Clarin da semana passada.
- Dispensar aquela prancheta com anotações interrompidas durante o treino do Brasil.
- Conferir se aquele autógrafo do Mario Kempes, com data de 1978, está em boas condições na carteira.
- Apagar da memória aquele quarteto de pênaltis perdidos em dó maior.
- Acondicionar a fita de vídeo com o Maradona de 1986.
Quanto às sugestões de música para a viagem de retorno, não seria conveniente concordar com Manuel Bandeira (‘‘A única coisa a fazer é tocar um tango argentino’’). Quem sabe fosse melhor aquele samba triste de Nélson Cavaquinho: ‘‘Tire seu sorriso do caminho / Que eu quero passar com a minha dor’’.
Não convém rir da Argentina. Poderia ser o Brasil, como foi tantas vezes. E a bagagem da Seleção Brasileira - acredite - não seria menos problemática.

A vitória de ontem à noite sobre a Argentina pode ajudar o brasileiro a remoer de uma maneira, digamos, mais suave um fato trágico ocorrido há exatamente um ano: faz seu primeiro aniversário, hoje, a fracassada participação do Brasil - então sob o comando do técnico Zagallo - na final do Mundial da França. Ainda estão vivos na memória do torcedor a péssima atuação da equipe e os misteriosos problemas de saúde do atacante Ronaldo pouco antes da partida.
Durante a tarde, argentinos desfilavam confiantes por Foz do Iguaçu - principalmente nas imediações dos muitos hotéis da cidade. À noite, os brasileiros - e alguns paraguaios - ocuparam bares e ruas centrais. Buzinaço e muitos foguetes anunciavam que a noite seria longa...
Além da classificação para as semifinais da Copa América, a vitória de ontem à noite em Ciudad del Este trouxe outra satisfação para o torcedor brasileiro: agora, o retrospecto Brasil x Argentina está empatado. Em 85 anos de confrontos, são 30 vitórias para cada lado - e 22 empates.
O apresentador de TV Carlos Roberto Massa, o Ratinho, assistiu ao jogo de ontem na sala VIP do Estádio Tres de Febrero. Ele não perdeu oportunidade de estar no centro das atenções: saiu da sala VIP por duas vezes e foi ovacionado por parte da multidão. Cercado de fãs, o apresentador distribuiu autógrafos. Nas numeradas, muita gente nem percebeu que a Seleção Brasileira voltava para o segundo tempo. Um grupo mais exaltado até ensaiou o coro: ‘‘Ratinho! Ratinho!’’
Um grupo de brasileiros comemorou em dobro ontem. Vestidos com a camisa do clube, torcedores do Coritiba ainda festejavam, durante o jogo entre Brasil e Argentina, o título de campeão paranaense, conquistado anteontem, contra o Paraná Clube. ‘‘Comemoramos até as 4 horas de hoje (ontem) no hotel e agora vamos repetir a dose’’, disse o representante comercial curitibano Fulvio Bevilacqua, o mais animado do grupo.
O técnico Wanderley Luxemburgo resolve hoje um problema provocado pelo carregado calendário do futebol: às 11 horas, o treinador anuncia a lista dos 20 convocados para a disputa da Copa das Confederações, que será disputada no México a partir do dia 24 (nesta data, o Brasil estréia contra a Alemanha). Luxemburgo define assim quais jogadores terão descanso, depois de uma longa temporada. Alguns jogadores não escondem seu desejo de não viajar para o México. ‘‘Gostaria de descansar um pouco antes da reapresentação à Inter’’, disse o atacante Ronaldo.

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