Pela segunda vez em menos de 17 horas, a avenida Champs-Elysées, em Paris, foi tomada por uma multidão. Ontem à tarde, de 800 mil a 1 milhão de torcedores - um terço da população de Paris - comemoraram a conquista da Copa do Mundo com os jogadores da Seleção Francesa.
A equipe dos ‘‘bleus’’ (azuis) foi saudada com o entusiasmo próprio aos heróis nacionais. A derrota que impôs ao Brasil por 3 a 0 já havia levado àquela avenida, durante a madrugada, uma massa de torcedores inédita por sua dimensão. Poucas vezes Paris viu tanta gente reunida. Em maio de 1981, o eleitorado de esquerda comemorou ruidosamente a eleição à presidência de François Mitterrand.
Em 1968, outra multidão apoiou o então presidente De Gaulle contra o movimento estudantil, que em maio havia paralisado o país. Mas o único precedente de ampla unanimidade é o de 1944, quando os parisienses festejaram a batida em retirada das tropas alemãs de ocupação.
‘‘Ganhamos! Somos os melhores!’’, diziam Jean-Claude e sua mulher Catherine, acompanhados de um cachorrinho que trazia na coleira três pequenas bexigas com as cores da bandeira francesa.
O azul, o branco e o vermelho também estavam na camiseta e na pintura do rosto de Evelyne, que gritava ‘‘Allez les bleus’’ (avante azuis) com três colegas, como ela garçonetes de um restaurante de subúrbio. ‘‘On est champions’’ (somos campeões), cantavam em outra ocasião. Em meio à repetição dessas cores, contrastavam duas camisetas verdes e amarelas. Uma delas pertencia a Jairo Gabriel Oriente, e a outra, a Daniel Gustavo Mascaro, ambos de São Paulo. ‘‘É uma pena que perdemos a Copa. Mas os franceses estão sendo muito simpáticos com a gente.’’
‘‘Zizou, Zizou’’, gritavam todos em ondas que subiam da praça da Concórdia em direção ao Arco do Triunfo. É o apelido de Zidane, o artilheiro da final. Uma dezena de grandes bandeiras da França se agitava ao vento. Uma bandeira do Brasil se juntou a elas quando o cortejo alcançou a esquina da avenida George 5. Por vezes, uma ‘‘ola’’, como as dos estádios, divertia os que se comprimiam nas calçadas.
O desfile de ontem estava previsto desde sábado. Ocorreria mesmo se a França perdesse. Três mudanças foram introduzidas no plano original, idealizado em protocolo da Presidência da República. Em vez de descer a avenida, os jogadores a subiram. Em lugar de veículo militar ou de bombeiros, usaram o deck superior de um ônibus de dois andares. Por fim, o cortejo foi adiado das 11 horas para as 16 horas. Com isso, em lugar da chuva fria que caiu pela manhã, os jogadores e a imensa torcida se encontraram numa tarde de sol.
Vestidos de camiseta branca, que trazia a taça Fifa estampada à altura do peito, os jogadores avançaram lentamente por mais de duas horas num trajeto inferior a dois quilômetros.
Hoje é a festa nacional francesa, o 14 de Julho, que comemora a Queda da Bastilha, em 1789. Com a segunda-feira entre o feriado e o domingo, os bancos não abriram, e muitas empresas deram folga a seus funcionários. Foi o que permitiu a tantos franceses comparecerem à ‘‘avenida mais bonita do mundo’’, conforme eles a qualificam.
A Frente Nacional, partido de extrema direita comandado por Jean-Marie Le Pen, felicitou, ontem, o filho de argelinos Zinedine Zidane, autor de dois gols na final da Copa do Mundo, vencida pela França. ‘‘Queremos expressar nossas felicitações a toda a equipe e ao principal jogador da conquista final, Zinedine Zidane, um menino da Argélia francesa’’, disse o comunicado divulgado pela Frente Nacional.
Foi desta maneira que o partido de Le Pen, famoso por querer proibir a entrada de estrangeiros em território francês, quis enaltecer a contribuição de ‘‘outras etnias’’ na conquista do Mundial. Há dois anos, Le Pen atacou com dureza os jogadores da Seleção Francesa porque não conheciam - ou não cantavam - o hino nacional.

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