20 anos sem Ayrton Senna
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quarta-feira, 30 de abril de 2014
Rafael Souza<br>Reportagem Local 
Hoje completam-se 20 anos que os domingos de manhã perderam seu grande herói. Há duas décadas, aquele gesto que ficou tão famoso com a bandeira em punho para fora do carro, que tanto orgulhava o povo brasileiro, não acontece mais. A batida a 210 Km/h na curva Tamburello, naquele fatídico 1º de maio de 1994, encerrou precocemente a história de Ayrton Senna, do mito Ayrton Senna do Brasil, e deixou somente as lembranças de quem conviveu com um dos maiores ícones do esporte nacional em todos os tempos.
E quem as têm para contar não cansa jamais de lembrar os feitos e trejeitos daquele que ficou marcado na história como o maior de todos os tempos. Waldemir de Oliveira, ou Neno Oliveira, é um destes privilegiados. Ele foi piloto do jatinho de Senna entre 1989 e 1991 e guarda inúmeras recordações de momentos vividos ao lado do tricampeão mundial de Fórmula 1. São mais de 700 fotos, arquivadas em seis álbuns, que lhe ajudam a recordar tudo o que viveu nos três anos mais fantásticos de sua vida.
Algumas são verdadeiras raridades, como a que ele aparece ao lado de Senna e do narrador esportivo Galvão Bueno, em 1990, em uma lancha, em Angra dos Reis-RJ, onde o ex-piloto costumava passar os momentos de lazer com a família. "Nessa época, eu tinha uma escola de mergulho e ele queria aprender a mergulhar. Estava em São Paulo, peguei o carro e fui para Angra, mas quando cheguei lá ele estava fazendo esqui na água, levou um tombo e perfurou o tímpano. Teve que ir para o hospital e já avisei que as aulas estavam canceladas, mas ele me convidou a ficar e passei duas semanas com eles lá. Foi aí que pude conhecer um pouco mais o lado pessoal do Senna, um cara muito carinhoso com todos, brincalhão...", conta.
Uma de suas preferidas foi tirada exatamente no litoral carioca. Nela, o tricampeão mundial "caça" carrapatos em um cachorro à beira do mar, o que para Oliveira é o registro de um momento que mostrava exatamente como era Senna longe dos holofotes: um cara tranquilo e humilde.
ROTINA
Nestes três anos que conviveu com Senna, Oliveira acompanhou de perto vários momentos com os quais os milhares de fãs do piloto sonharam um dia. O ex-comandante participou ativamente da rotina profissional do ídolo, dormia no mesmo hotel e possuía credenciais para assistir dos boxes a todas as corridas. E tudo isso ele fez questão de registrar. Ele tem fotos de Senna nos boxes da McLaren, ao lado do grande rival Alain Prost, e de dirigentes da época. Uma destas, inclusive, é bastante emblemática. O campeão mundial de 1991 está em seu carro, concentrado, minutos antes de partir para mais uma volta, no circuito de Hungaroring, na Hungria. "Essa é uma das que mais gosto. Até me emociono quando lembro", revela.
A coleção reserva ainda alguns pôsteres e fotos com direito a dedicatórias do ídolo, um acervo capaz até de causar inveja em qualquer apaixonado por automobilismo. Tanto que por pouco, ele não perdeu alguns destes retratos. "Uma vez levei no autódromo aqui em Londrina para mostrar para o pessoal e percebi que um amigo estava levando algumas, mas sorte que consegui recuperar", recorda-se. Não há o que possa lhe fazer pensar em desfazer-se de alguma destas recordações. "Isso é único, são fotos únicas que eu tirei e só eu tenho".
NA PISTA
Mas nem só de fotos é feita a memória do ex-comandante. Oliveira não perdia uma chance de ver o ex-patrão no melhor de sua performance, fazendo o que mais gostava: pilotando. Tem até um momento que não foi registrado em foto, mas que de tão marcante ficará guardado para sempre. "Uma vez lembro em Monza (na Itália), terminou a corrida, passei para levá-lo para o hotel, eu estava com o carro, lembro até hoje, era um Escort XR3, e ele pediu para levar. De repente, estávamos no autódromo, o guarda não queria deixar entrar, mas depois que viu que era o Ayrton, nós entramos e ele foi me cantando a pista inteirinha, a 100 quilômetros por hora. Aí chegou uma hora, ele desceu e perguntei: o que foi? Ele me mostrou um buraquinho na pista e falou: o ano passado não tinha aquele buraco. Isso mostra o quanto ele era meticuloso e ligado no negócio. Igual a ele não tinha, ele era perfeito", descreve, como se estivesse fora de si por um momento. "Eu queria que não acabasse tão cedo. Imagina: em Monza, o santuário do automobilismo, com o meu ídolo e ele pilotando. Não vou esquecer jamais", jura.
É por essas e outras que Oliveira se sente um privilegiado. "Realmente só tenho a agradecer por ter conhecido um cara fantástico, que é meu ídolo, ganhei dinheiro com isso, conheci o mundo e participei da vida do maior ás que o automobilismo brasileiro já teve. Ele faz muita falta", admite.
A participação de Senna em sua vida foi tão inspiradora que depois de se aposentar, em 2005, Oliveira resolveu dar vida ao sonho de ser piloto e começou a participar de corridas de carro. Atualmente, Oliveira é bicampeão metropolitano de Speed Fusca.



