e nós também mudamos com ele."Por Julio Cruz Neto Bamako, 07 (AE) - Jackie Ickx, Philippe Alliot, Henri Pescarolo e Jean-Louis Schlesser são nomes conhecidos de quem acompanha o automobilismo desde os anos 70 ou tem boa memória. Ex-pilotos de Fórmula 1, todos trocaram circuitos famosos como Silverstone e Monaco pelas trilhas empoeiradas e dunas do deserto africano. E neste domingo enfrentarão mais 608 quilômetros, válidos pela quarta etapa do rali Dacar-Cairo, entre as cidades de Bamako (Mali) e Bobo Dioulasso (Burkina Faso). Com exceção de Schlesser, que se encaixa perfeitamente ao estereótipo arrogante dos pilotos da Fórmula 1 e não gosta de dar entrevista, todos os outros se empolgam e até se emocionam na hora de comparar a vida dentro dos bugues e dos monopostos. "Isso aqui é uma experiência fantástica", diz Alliot, resumindo bem o sentimento dos demais: "Quando você tem uma vida de rei, esquece o que é a vida real. Por vida de rei, entenda-se o glamour, o luxo e a mordomia da F1. Por vida real, com o perdão do trocadilho, entenda-se "conhecer países, pessoas e vistas incríveis, chegar em lugares em que só dá para chegar com o rali". Palavras do simpático Alliot, francês de 46 anos que disputava o Dacar pela sexta vez, até o motor de seu carro quebrar sexta-feira: "Na F1, você tem hotel, tudo o que quer. Aqui, às vezes é fantástico ter só uma garrafa dágua para se lavar ou dormir no chão." Antes de continuar relatando essa mistura de antropologia, masoquismo e impulso beatnik e essas críticas à F1, vale a pena fazer a ressalva de que foram raros os bons resultados conquistados por esses aventureiros na categoria máxima do automobilismo. Mas se o retorno financeiro que se tem com o Dacar é realmente insignificante, como dizem eles, resta crer que realmente há algo fascinante em passar 17 dias longe da família e dos amigos, dormindo em barraca, comendo em bandejão, convivendo com espinhos e insetos... "E sem o bom vinho", completa Alliot. "Quando você pára de fazer o que ama, quer um desafio maior, algo muito forte para não ficar deprimido", explica o francês, que largou a F1 em 94, aos 40 anos, três GPs após o acidente fatal de Ayrton Senna: "Quando o Senna morreu, vi que a F1 ainda era perigosa." Logo depois, disputou seu primeiro Dacar, de moto, e teve de abandonar com o perônio fraturado. Depois disso, foram cinco vezes de carro. E ao final de cada Dacar, a sensação predominante não é de alívio: "Quando você volta para a vida normal, é sem sal, sem sabor." Alliot comenta também a diferença no relacionamento entre os competidores: "Na F1, você respeita os outros, mas não tem amigos, de tão grande que é a concorrência." Mas Henri Pescarolo, outro dos inúmeros franceses que vieram para o Dacar 2000, guarda uma boa lembrança dos tempos de F1, do ano em que foi companheiro de equipe de José Carlos Pace na Williams: "Ele era quieto e tímido como eu, mas gostava muito de estar com ele." Aos 57 anos, Pescarolo disputa seu 11º Dacar. O primeiro foi em 79, na segunda edição da prova, três anos depois de abandonar a F1. Mas ele já havia disputado vários ralis: "Naquela época, até os campeões, como Jim Clark, faziam ralis junto com a F1." E por que não fazem mais? "Não sei se esses pilotos que ganham muito dinheiro na F1 podem acampar e comer onde comemos", afirma ele com uma ponta de orgulho, apontando ao redor. Pescarolo tem uma boa história sobre o Dacar, do final dos anos 80, quando corria de Peugeot numa equipe de três carros: "Certa manhã, acordamos e havia só dois carros. Podia ter ganho naquele ano." O assalto ocorreu em Bamako. O belga Jackie Ickx, que disputa o Dacar-Cairo com sua filha Vanina, de 24 anos, como navegadora, põe mais uma pitada de filosofia nessa história: "Isso aqui é um mundo que sempre muda