Nova York, 19 (AE) - Dois graus abaixo de zero, no último dia do inverno americano, na semana passada. No Central Park, as Diabas de Westchester e as Coisinhas Selvagens do Harlem disputaram um jogo-treino para o campeonato nova-iorquino juvenil que começa neste domingo. Algumas garotas jogaram de pernas de fora, como se fosse uma pelada de praia. É essa disposição que faz dos Estados Unidos o País do futebol - no feminino. Hoje, as mulheres representam 40% dos 18 milhões de jogadores americanos, proporção bem maior do que a encontrada nos demais países. Sua seleção teve 7,25 milhões para peneirar. Campeãs mundiais de 91 e na última Olimpíada, elas são as favoritas da próxima Copa.
O jogo-treino do Central Park parecia pelada, mas faz parte de um evento de organização impecável. Os dois times têm treinadores profissionais - o das Diabas é o ex-jogador brasileiro Wilson Egídio, concunhado do genro de Pelé. Seu time é o atual campeão da liga local.
As estrelas das Diabas são a centroavante Shannon e a volante Julia Jordan. No momento, Júlia está com o joelho dodói.
Ela tem o mesmo problema de Ronaldinho - mas o treinador a trata com aspirina e confia que ela vai se recuperar. "Só posso jogar meio tempo", resmunga. No sistema americano, há várias ligas regionais e campeonatos escolares, por idade, interligados. Muitas tevês locais transmitem seus jogos ao vivo. A temporada sempre coincide com o calendário escolar e com os seis meses de primavera e verão, para fugir do frio extremo do inverno.
O sistema é amador, mas movimenta uma fortuna. A Associação das Indústrias de Material Esportivo calcula em US$ 3 bilhões as vendas anuais para o mercado feminino.
Nos EUA, apesar do espírito peladeiro das garotas, nenhuma joga descalça. É tudo com chuteira ou tênis de marca.
E até o time mais chinelão tem camisetas com o nome de cada jogadora bordado nas costas.
Favoritismo - A supremacia da mulher americana no futebol pode ter uma explicação no feminismo - foram elas que criaram o movimento internacional que dá todo poder ao sexo frágil. Do campo das idéias ao de futebol foi uma transição rápida, consolidada na década de 90.
Susan Rosenthal, gerente do Manhattan Soccer Club, orgulhosa mãe de uma zagueira central, tem uma tese para a paixão das garotas americanas pelo futebol: Eu acho que é porque os homens dominam no basquete e no basebol mundiais, elas querem superá-los onde eles ainda são mais fracos".
As "soccer moms" (mamães do futebol), que incentivam suas filhas a competir no esporte dos homens, têm hoje status político.
Elas pesaram na eleição de Bill Clinton - parecia óbvio, mas ele foi o único a sacar que atrás de cada garota existia o voto da mamãe.
O esporte cresce rápido no país. É praticado em todas as escolas, garantindo um suprimento inesgotável de atletas. Segundo a US Soccer (a federação americana) há 250 mil garotas iniciando cedo, desde os 5 anos.
Um exemplo é Kim, de 6, filha da publicitária Sharon, de Connecticut. "Eu queria que ela estudasse balé. Estávamos numa loja escolhendo sapatilhas, quando a menina pegou uma chuteira. Pronto. Nunca mais consegui fazê-la dançar", conta a soccer mom, resignada.

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