Comércio exterior em alta: os desafios para Londrina crescer no ranking da exportação
Bom desempenho nas exportações de matérias primas e desafios da indústria de transformação para se globalizar foram destaques do Encontros Folha
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de novembro de 2024
Bom desempenho nas exportações de matérias primas e desafios da indústria de transformação para se globalizar foram destaques do Encontros Folha
Aline Machado Parodi e Lúcio Flávio Moura/ Especial para a Folha de Londrina 

A região de Londrina destacou-se pelo crescimento de 142% na movimentação de commodities agrícolas como o açúcar, milho, soja e farelo entre 2020 e 2023 nos portos do Paraná.
Os produtores da região movimentaram 12,3 milhões de toneladas de granéis sólidos entre 2020 e 2024. Londrina representa 35,7% do market share regional, seguido de Sertanópolis (24,9%), Rolândia (22,8%), Florestópolis (8%) e Ibiporã (1,8%).
Os excelentes resultados das empresas da região nos últimos anos nas vendas externas biparam o radar do setor produtivo e colocaram o interesse pela internacionalização num patamar inédito.
Esta sensação marcou o ambiente da 22ª edição dos Encontros Folha - Conteúdo com Relevância , realizada na última terça-feira no Centro de Eventos do Aurora Shopping, em Londrina, com o mote “Exportações Brasileiras em Alta - Como Identificar Oportunidades, Impulsionar os Negócios e Aproveitar a Boa Fase de Recordes Históricos”.
O evento foi aberto pelo CEO do Grupo Folha, Nicolás Mejía, presidente do Fórum Desenvolve Londrina. “Ainda há muitos mercados que podemos começar a explorar ou expandir. A região de Londrina é um exemplo de um ambiente favorável à inovação e ao empreendedorismo. Há um trabalho com muita determinação neste sentido. Como sempre fazemos no Encontros Folha, queremos detectar oportunidades de crescimento econômico, o que necessariamente passa pelo fortalecimento das empresas e o comércio exterior é parte importante disso”, disse. “Queremos que nossas marcas sejam cada vez mais reconhecidas fora das fronteiras nacionais”.
No mesmo tom, Rubens Negrão, gerente da Regional Norte do Sebrae Paraná - correalizador do evento - lembrou o compromisso da instituição com o setor. “A internacionalização das pequenas e médias empresas é um debate permanente dentro da rotina de trabalho do Sebrae”, afirmou. “Temos que preparar e sensibilizar o mercado para a atuação global, que é um mundo de oportunidades”.
Apesar da alta demanda no setor das commodities, os especialistas convidados concordaram que é preciso um incremento efetivo e constante das vendas de produtos manufaturados ao exterior, uma maneira de impulsionar a indústria, sonho antigo dos londrinenses.
“O comércio exterior da região está muito concentrado em commodities, com pouca participação da manufatura. Temos poucas empresas que exportam produtos de alto valor agregado”, defendeu a painelista Danubia Milani Brouco, consultora de projetos do Sebrae.
A alavancagem pode surgir com uma nova geração de empresas que já nasçam com o DNA globalizado. “As empresas brasileiras devem nascer já pensando no mercado internacional. Muitas vezes, o empresário pensa em expansão primeiro para outras regiões do Estado, depois para estados vizinhos, depois para outras regiões do País e acaba negligenciando o projeto de internacionalização. É preciso desenvolver produtos e serviços que sejam competitivos no mercado global já na própria concepção”, aconselha.
O porto de 70 milhões de toneladas
O diagnóstico e o prognóstico da infraestrutura portuária do Paraná marcaram a fala do diretor de Operações Portuárias da Portos do Paraná, Gabriel Perdonsini Vieira, primeiro palestrante da noite.

Há dois anos no cargo, mas com larga experiência no setor de logística, Vieira mostrou que, desde 2019, a Portos Paraná teve uma quebra de paradigmas na prestação de serviços públicos com a adoção de novos processos, regularização de contratos e novos investimentos públicos. “A gestão pública se profissionalizou”, afirmou o diretor.
Além de investimentos em infraestrutura, o porto está aportando recursos em tecnologia de gestão. Implantou o sistema ERP de gestão administrativa financeira e está destinando em torno de R$70 milhões para modernização da gestão operacional.
Segundo Vieira, a movimentação de cargas vem batendo recordes a cada ano, puxada principalmente pelos graneis sólidos, que representam 60% da movimentação.
A expectativa é que este ano a Portos do Paraná feche com uma movimentação na casa das 70 milhões de toneladas.
“Em 2019 movimentamos 53 milhões de toneladas. Tivemos uma alavancagem de crescimento de 23% nos últimos anos. No último ano, movimentamos 65 milhões de toneladas, só da carga conteinerizada - isso representa 15 milhões de toneladas. A nossa perspectiva para esse ano é quase alcançar 70 milhões de toneladas, algo que estava previsto no nosso plano nacional de logística para 2040”, afirmou o diretor operacional.
O diretor enfatizou que a Portos do Paraná está com agenda constante de visitas às principais cooperativas, produtores, do agronegócio e da indústria para identificação das principais demandas e as soluções que o porto possa oferecer.
Em sua explanação, ele apresentou os principais produtos e destinos exportados e importados via Paranaguá e Antonina, dando ênfase de que um quarto dos fertilizantes que entram no Brasil chegam pelos portos do Estado. Além dos bens acabados, indústria automotiva, derivados de petróleo no segmento de líquidos.
Os números das exportações e importações até setembro de 2024 teve um crescimento de 2%, alavancados principalmente pela proteína animal e o açúcar. A movimentação de contêineres também apresentou crescimento de 34%. “Atingimos quase 1,2 milhões TEUs até setembro. Em outubro, a gente vai superar essa marca com a possibilidade de atingir até 1 milhão TEUs. Isso significa cerca de 750 mil contêineres movimentados em 2024”, disse Vieira.
O crescimento é resultado de uma série de fatores como o incremento da movimentação significativa da proteína animal. Paranaguá é o maior corredor de exportação de frango congelado do mundo, deficiência dos portos vizinhos, um incremento na importação via Paranaguá, que alavancou significativamente a movimentação do terminal.
“A gente sabe que muitos clientes e segmentos tiveram desafios significativos em relação a exportação e janelas de embarque ao longo do ano, apesar de sermos administração do Porto, estamos em contato frequente, construindo um planejamento estratégico junto ao TCP (Terminal de Contêineres de Paranaguá) – o terminal é privado - para atender a demanda que teve um crescimento expressivo esse ano e com o alinhamento e com uma construção junto a todos os segmentos”, enfatizou Vieira.
Reexportação, Índia e Oriente Médio
Higor de Menezes, gerente de Relações Internacionais na Fiep (Federação das Indústrias do Paraná), também painelista do Encontros Folha, explicou como a instituição contribui para o esforço de internacionalização das médias e pequenas indústrias. Além do trabalho em eventos e missões internacionais e da representação do setor em discussões técnicas do comércio exterior, a Fiep realiza certificações de origem, capacitação, estudos de mercado e rodadas de negócio para manter a mentalidade de atuação global sempre presente nos círculos da indústria de transformação. “Para as médias e grandes, fazemos um esforço para qualificar produtos e reexportá-los para mercados parceiros da América Latina e também a atração de investidores para joint venture, onde novas empresas surgem a partir de parcerias de grupos consolidados”.

O processo gradual de ocidentalização da Índia, fenômeno já experimentado por Japão, Coreia do Sul e China, vem acelerando a aproximação dos dois mercados e a aposta da Fiep é que o país mais populoso do mundo deverá ser um parceiro importante para empresas que não querem depender tecnologicamente apenas dos parceiros chineses.
Ele lembrou também do trabalho de intercâmbio com o Oeste da Ásia, região que concentra investidores de grande porte - em especial as famílias reais como as da Arábia Saudita - que farejam bons negócios no mundo inteiro, com a vantagem de ter uma abordagem menos impositiva para as parcerias.
Potencial exportador de Londrina ainda está subaproveitado
A consultora de projetos do Sebrae, Danubia Milani Brouco, painelista do 22º Encontros Folha, avalia que há um espaço de crescimento importante na economia londrinense para a internacionalização das vendas.
Apesar de ter o quarto maior PIB (atrás de Curitiba, São José dos Pinhais e Araucária) e a segunda maior população, Londrina é apenas o sexto município paranaense em receita com exportações. “Assim como se constata em todo o País, a exportação em Londrina é, na maioria das vezes, uma consequência. Precisamos ser mais intencionais em relação ao comércio exterior, com empresas criadas com esta finalidade desde o início”.

Brouco também sugere que as empresas não pensem exclusivamente nos mercados mais robustos como Ásia, Europa e América do Norte, mas também coloquem no radar os países vizinhos. “O Paraguai, por exemplo, é um mercado muito próximo e muito promissor”
A especialista aconselha que os empresários fiquem atentos às negociações internacionais que podem gerar acordos bilaterais de livre mercado, com redução mútua de tarifas. “Estes acordos facilitam o intercâmbio comercial e abrem novas oportunidades”.
Outro aspecto importante no planejamento de uma operação internacional é a preparação para um diálogo direto com o potencial parceiro, momento no qual o domínio de idiomas como o inglês e o espanhol, especialmente dos líderes dos negócios, pode fazer toda diferença.
EXPORTAÇÕES DE SERVIÇOS
Quando se pensa em exportação pouca gente lembra do setor de serviços, que registra forte expansão. O setor classificado como “serviços de negócio, inclusive arquitetura e engenharia” faturou US$ 19,5 bilhões (alta de 8%) em 2023, enquanto os serviços de telecomunicação, computação e informações apresentaram crescimento de receita de 24,6% ao somarem US$ 5,8 bilhões.
Os números do Relatório Anual do Comércio Exterior Brasileiro de Serviços, publicação anual da Secex (Secretaria de Comércio Exterior) do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), mostram que o mundo digital criou uma clientela global que não pode ser desprezada em nenhuma cidade com recursos humanos qualificados. “Existem oportunidades em marketing digital, engenharia e suporte de tecnologia”, frisou a consultora de projetos do Sebrae, Danubia Milani Brouco.
A painelista do Encontros Folha lembra que a diversificação e a internacionalização dão mais estabilidade ao negócio, na medida em que você pode adaptar a operação, em um cenário de crise interna, para atender clientes estrangeiros, mantendo o caixa no azul.
Outra vantagem é o ganho de imagem que a marca incorpora quando atua também fora do Brasil. Encontrar um serviço ou produto em outro país acaba funcionando como um selo de qualidade. “Normalmente as pessoas acreditam que a boa recepção daquele produto ou serviço por um estrangeiro é um bom indicador. A exportação gera credibilidade e também melhora o desempenho no mercado interno”.
Diferenciais como elementos inovadores e certificações de origem também são fundamentais para o produto ter sucesso em mercados mais competitivos. Brouco lembra ainda que quem exporta regularmente aumenta a receita, com ingresso de moeda forte no caixa, dólar ou euro.
MUNDO MAIS PROTECIONISTA
Higor de Menezes, responsável pelo setor de Relações Internacionais da Fiep, acredita que o empresariado deve se preparar para uma realidade internacional menos amigável para trocas de produtos e serviços. “Nos próximos anos, as expectativas apontam para um mundo mais fechado. Mas ainda haverá muito interesse do mercado em comprar algo que seja realmente novo. Temos que continuar defendendo que o mercado internacional não é algo distante, que é possível conseguir compradores nos países vizinhos, por exemplo”, pondera. “Também acreditamos que ações de mercado, como rodadas de negócios, onde os interessados têm um contato direto, dão resultados efetivos mesmo neste cenário”.

Outro argumento para a empresa se internacionalizar é que o produto ou serviço ganha qualidade, prestígio e competitividade também na operação doméstica.
Os marketplaces internacionais como Amazon, AliExpress e Mercado Livre também estão gerando novas possibilidades para a indústria para atingir consumidores em outros países. “Eles encurtaram as distâncias, mas ainda é preciso investir em infraestrutura e logística para que a entrega seja feita num prazo competitivo. Nosso papel é cobrar estas melhorias do poder público. Quanto mais exportarmos, mais investimentos públicos para simplificar e agilizar o escoamento da produção serão necessários”, prevê
DESAFIOS LOGÍSTICOS
Desde o final do ano passado, o Porto de Paranaguá vem enfrentando um desafio logístico no que tange a carga conteinerizada. Com o fechamento do Porto de Itajaí, a intervenção em um dos berços do Porto de Santos e obras no Porto de Navegantes, Paranaguá precisou absorver um volume significativo de cargas.
“Isso resultou em um incremento de demanda não previsto, principalmente na importação e de contêineres vazios, que resultou, quase que, não vou chamar de colapso, mas no atingimento do limite da capacidade do terminal”, disse Gabriel Perdonsini Vieira, diretor de Operações Portuárias da Portos do Paraná.
Ele enfatizou, que apesar de ter ocorrido atrasos no recebimentos dos contêineres, o TCP (Terminal de Contêineres de Paranaguá) não fechou janela para exportação. Além do colapso em Santa Catarina e a redução da capacidade do Porto de Santos, outro fator impactou no congestionamento em Paranaguá: o clima.
Em julho e agosto, a barra ficou fechada para navegação devido a nevoeiros. “Não havia a possibilidade de navegar com os navios entrando ou saindo do Porto, independentemente do sistema que existisse no mundo. E por conta da baixa visibilidade na navegação. Isso gerou, de fato, um congestionamento na recepção dos navios, na operação e na eficiência dessas operações”, explicou o diretor de operações. “Somado a isso, ainda teve a prática dos armadores não cumprirem as escalas”.
Para regularizar o recebimentos e o escoamento dos contêineres, o porto adotou algumas medidas como, por exemplo, desde setembro, o contêiner só entra no terminal a partir da semana que o navio vai atracar. Antes, o contêiner podia ingressar no terminal com 20 ou 30 dias antes do embarque. “Isso gerou resultado a partir da quarta, quinta semana e já está regularizando o recebimento dos contêineres”, afirmou Vieira.
CUSTOS E GARGALOS
O economista Marcos Rambalducci, professor associado nas cadeiras de Economia da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) e colunista da Folha de Londrina, foi o moderador do debate do 22º Encontros Folha e fez questionamentos aos painelistas referente a relevância do Paraná no cenário de exportações, os pontos fortes e os gargalos logísticos.

“Temos uma preponderância no setor agropecuário, o que é absolutamente relevante e deve ser investindo, mas precisamos ter incentivos para outros tipos de processos, como por exemplo, a industrialização, a industrialização de base tecnológica, que traga valor agregado, não só para a produção, mas para colocarmos nossos produtos no mercado internacional”, ressaltou o economista. Segundo ele, precisa-se olhar para outros mercados internacionais, não apenas China, Estados Unidos e Argentina.
Mas para os produtos paranaenses chegarem ao mercado internacional, a indústria precisa de produção e de mão de obra para essa produção. Um dos questionamentos levantados por Rambalducci é como a Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná) pode auxiliar no processo de reindustrialização de Londrina, uma vez que apenas 12,6% dos empregos com carteira assinada de Londrina estão na indústria.

Rubens Negrão, gerente da Regional Norte do Sebrae-PR
A internacionalização é uma pauta pouco explorada principalmente pelas micro e pequenas empresas. A maioria delas não utiliza essa estratégia para o seu modelo de negócio. Muitas vezes, ficam insistindo no modelo tradicional, altamente competitivo, e esquecem que aqui do lado temos outros países que também podem ser consumidores desses produtos e serviços. É uma pauta extremamente relevante porque também a internacionalização atrai divisas para a cidade e a região e, consequentemente, para o Estado e para o país. Divisas que são recursos adicionais dentro da economia porque, além do PIB, soma-se também o balanço comercial internacional. É um assunto extremamente relevante para a gente sempre trazer à tona em um processo de sensibilização.

Fabian Bordon Trelha, empresário
Quando a gente fala de exportação, a gente poderia atingir, a partir do nosso mercado, outros mercados. A exportação desenvolve a região que exporta abundantemente, com a mão de obra de transformação e geração de riqueza. Londrina já é um grande exportador hoje, um dos maiores do Paraná na área de commodity, mas precisa agregar valor e transformar a cadeia produtiva. Um evento como esse pode trazer novos olhares de valor agregado e de enriquecimento para a cidade e a região. Londrina tem o potencial, com mão de obra qualificada, a infraestrutura que está se construindo e localização privilegiada. A cidade está muito pronta. Falta um pouco de investimento. Uma iniciativa como essa, talvez desperte o mercado para esse potencial que Londrina oferece.

Ary Sudan, empresário
Este é um tema bem atual. O Brasil tem uma condição muito grande de deslanchar nas exportações. Nós, aqui na região, estamos deslanchando bem. Mas muita gente ainda vê o comércio exterior como um bicho de sete cabeças. A nossa região ainda é muito focada em commodity, precisamos diversificar para sairmos dessa dependência muito grande da China. Esses encontros mexem com as pessoas. A vantagem (da internacionalização) é que você abre espaço maior para trabalhar. Tem empresas aqui em Londrina que exportam para 54 países. E quando abre esse caminho, abre a cabeça das pessoas dentro da empresa, melhora o nível das pessoas, melhora as finanças da empresa. Hoje, quem exporta está dando risada porque o dólar está bom. A gente tem que aproveitar essas ondas.

João Santilli, presidente do Laboratório Oswaldo Cruz e da Salus
O tema do comércio exterior é bastante importante. A gente tem um desenvolvimento dessa indústria da saúde aqui em Londrina muito grande, tanto em importação quanto em exportação. Temos empresas locais que exportam para 20, 30 países e são uma referência nesse assunto. É um tema de bastante interesse e muita gente não tem a percepção do quanto isso é importante para o mercado local e com relevância até mesmo fora daqui. O grupo Salus, no planejamento estratégico do polo de saúde, fez, lá atrás, em 2017, a Associação Londrinense das Indústrias da Saúde. A associação nasceu primeiro como regulação para ter a documentação necessária para poder exportar. Hoje, a gente tem várias empresas exportando e algumas são referência.


