Vale a pena ganhar mal só para se recolocar?
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domingo, 02 de setembro de 2018
Rafael Costa <BR> Reportagem Local 

Vagas que exigem vasta qualificação e oferecem baixos salários são uma queixa comum de quem está buscando uma recolocação no mercado. Pesquisas rápidas em sites de emprego e redes sociais revelam facilmente ofertas de trabalho com remunerações baixíssimas ou até mesmo não remuneradas, em troca de experiência para o currículo ou formação de portfólio.
A tendência, no entanto, não se limita a apenas alguns segmentos, dizem especialistas. Trata-se de um comportamento de mercado que tem tudo a ver com a crise econômica e o alto desemprego no Brasil - segundo a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) divulgada na última quinta-feira (30), são 12,9 milhões de pessoas sem emprego. O crescimento do Produto Interno Bruto do país (PIB), também divulgado na semana passada, ficou em 0,2% no segundo trimestre.
O cenário ruim na economia gera desequilíbrio entre as vagas disponíveis e o contingente de candidatos no mercado - conhecido no mundo da administração como a relação entre mercado de trabalho (MT) e mercado de recursos humanos (MRH). Quando o primeiro é maior, as empresas acabam se esforçando para atrair profissionais com salários e benefícios melhores, critérios de seleção mais flexíveis e até a possibilidade de investir no aperfeiçoamento dos selecionados para a função. Quando a relação se inverte, as ofertas de salário e benefícios diminuem e as empresas podem elevar os critérios de seleção.
"No momento, a situação está desfavorável para o trabalhador", explica a psicóloga Samantha de Toledo Martins Boehs, professora da UFPR. "Até cerca de quatro anos atrás, havia muita oferta de vagas, o que gerava um poder de negociação maior para o trabalhador. Quando há poucas vagas para um MRH muito amplo, a empresa não precisa mudar sua estrutura salarial para atrair gente qualificada", explica. "Não quer dizer que seja justo, mas vemos que é o que está acontecendo."
Mesmo com os salários mais baixos, os critérios sobem porque as empresas sabem que há gente muito especializada disponível. Logo, não é necessário flexibilizar os requisitos para investir em desenvolvimento, como acontece nos momentos em que há mais vagas do que profissionais altamente qualificados para preenchê-las. A ideia é já contratá-los "prontos".
"Mesmo que sejam requisitos muito difíceis de encontrar, esses profissionais estão no mercado", explica Deise Gomes, consultora de carreira e gerente executiva da Thomas Case & Associados em Curitiba.
Com menos vagas, a tendência é que os empregadores também contratarem apenas um profissional para desempenhar várias funções. "Neste cenário, em que as empresas não têm recursos para contratar uma pessoa para cada atividade - pelo contrário: estão demitindo -, o profissional tem de ser multitarefa", diz Deise.
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Quando vale a pena?
Para Samantha de Toledo, uma avaliação criteriosa da empresa que está oferecendo a vaga é fundamental antes de topar ganhar menos na esperança de que haverá oportunidades de crescimento.
"Primeiro, deve-se investigar do que se trata. Se é uma empresa bem estruturada, às vezes vale a pena entrar com um salário inicial baixo, porque existe a possibilidade de a companhia investir no profissional no futuro. Mas, se for visível que se trata de uma empresa quase em falência ou que está sofrendo processos trabalhistas, não vale a pena. Será apenas uma forma de exploração", opina. A psicóloga diz que, no entanto, pode ser mais fácil encontrar uma colocação melhor quando se está inserido de alguma forma no mercado, mesmo ganhando um salário menor.
A publicitária curitibana Thuany Correa da Silva, 27 anos, pensou assim ao aceitar uma vaga de estágio não remunerado em uma agência em que já trabalhava como recepcionista, durante o primeiro ano de faculdade. Na época, ela avaliou que a experiência seria uma oportunidade de crescimento. Na prática, no entanto, ela começou a passar dez horas por dia no trabalho com um único salário, abaixo de R$ 400. O emprego seguinte, também em uma agência de publicidade, também exigiu que ela desempenhasse duas funções totalmente distintas em uma.
As buscas seguintes sugeriram que este seria um padrão e Thuany acabou desistindo de trabalhar no segmento. Hoje, a publicitária faz free-lances na área, mas se dedica principalmente ao próprio negócio, um clube de assinatura de produtos e serviços para cães, o Mimo Clube Pet. "As empresas, às vezes, querem que um estagiário faça o serviço que uma agência inteira faz", conta. "Optei por sair."
Um plano B pode mesmo ser necessário, sobretudo para profissionais que já estão perto dos 55 anos - faixa etária que já se aproxima do limite para a aposentadoria em algumas empresas. Para os outros, a orientação é criar uma estratégia de transição, que deverá ser flexível do ponto de vista da remuneração.
"Se preciso considerar um downgrade, devo saber qual é o mínimo para aceitar e me doar à empresa", explica Deise Gomes.
As possibilidades dependerão, no entanto, do planejamento financeiro do profissional que está sem colocação. Se ele não tiver reservas, não terá como se manter enquanto busca uma recolocação planejada.
Depois de decepções constantes nas suas buscas por vagas, esta foi a escolha da designer de produto curitibana Valdineia Valente, de 37 anos. Ela optou por deixar passar as vagas mal remuneradas - segundo ela, muito comuns no mundo do design - para seguir tentando se recolocar em algo que valha mais a pena. "Como há pessoas que estão precisando muito, elas se sujeitam àquelas condições, porque têm de trabalhar", avalia. "Acaba virando um leilão de vagas."


