Muitas conquistas estão acontecendo porque a população LGBTI não está mais invisível. Ela está começando a aparecer, mostrando suas necessidades e principalmente, conhecendo cada vez mais seus direitos. Porém, se tratarmos apenas dos transgêneros, os obstáculos são bem maiores.
"Os travestis vivem à margem da margem. A gente os vê em salões de beleza porque é o que sobra. E aquelas que não têm essa vocação? A falta de oportunidades as jogam como profissionais do sexo", comenta a advogada Rosângela da Silveira T. Novaes.
No final do ano passado, o coordenador residente do Sistema Nações Unidas no Brasil, Jorge Chediek, afirmou que mulheres e homens transexuais estão em situação de grande vulnerabilidade no mercado de trabalho. De acordo com ele, a dificuldade de acesso e permanência no emprego ocorre pela discriminação e preconceito.
Durante o lançamento do manual da Organização das Nações Unidas (ONU) "Promoção dos Direitos Humanos de Pessoas LGBT no Mundo do Trabalho", no Rio de Janeiro, Chediek ressaltou ainda que "a exclusão que (transexuais) sofrem desde a infância e a adolescência impede que tenham muitas vezes, educação de qualidade, formação profissional e/ou oportunidade de inserção no mercado. Por outro lado, mesmo quando têm qualificação adequada, sofrem discriminação e têm seus direitos limitados."
Hoje, aos 34 anos, Nick Barros se considera uma guerreira. Ela que é transexual e proprietária de um salão de beleza, relembra todas as dificuldades até conquistar um reconhecimento profissional. Em um primeiro momento, Nick não esperava trabalhar com estética. Ela se inscreveu no ProUni com a intenção de cursar nutrição ou enfermagem.
"Consegui uma vaga apenas para o curso de estética que era minha última opção. Como eu já tinha experiência com isso, enxerguei como uma oportunidade", diz ela que havia abandonado os estudos no ensino médio devido ao preconceito e discriminação.
A primeira experiência de Nick em um salão de beleza foi aos 17 anos, ao sair da escola. "Aprendi a fazer cabelos e unhas, mas sofri muitos traumas. Escutei coisas horríveis de clientes homens e só fui conseguir cortar um cabelo masculino durante a faculdade. Fiquei anos com esse trauma. Cheguei até a pensar em desistir de trabalhar formalmente", desabafa.
Nesse período, Nick conheceu o marido com quem é casada há 10 anos. Ela conta que o incentivo dele foi primordial. "Fiquei um ano procurando emprego, inclusive em salões de beleza onde se tem uma maior aceitação, mas não consegui. Depois de muito tempo, abri o salão em sociedade, mas agora o assumo sozinha", diz.
Para Nick, tão importante quanto preparar as corporações e empresas para lidar com direitos e a aceitação dos LGBTIs é o acolhimento e capacitação para o mercado de trabalho. Ela afirma que se por um lado as empresas não estão preparadas para lidar com esse público, por outro, muitos não estão capacitados para preencher as vagas.
"O preconceito vem cedo, dentro de casa e a partir do momento que essas meninas escolhem as ruas, elas perdem a oportunidade de conhecer melhor seus direitos, porque é se expondo que elas aprenderam a se comportar. Quem é tratado como bicho, aprende a se defender como um. Muitas delas, ao invés de ser humilhada e implorar por um emprego, acabam vivendo na noite. Eu sempre quis crescer, mas também já pensei em desistir", desabafa. (M.O.)

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