Seja por escolha ou por acidente de percurso, muitos profissionais se tornam freelancers em algum momento da carreira. A ideia de ser seu próprio chefe, ter flexibilidade para trabalhar a hora que quiser e até ganhar melhor acumulando mais clientes, no entanto, nem sempre dá certo. Para ser um "frila" de sucesso, é preciso organização e comprometimento, como em qualquer outro modelo de carreira.

Prova disso é que o primeiro passo, para o freelancer, também é se planejar. Conforme explica Andréa Gauté, diretora da ABRH-PR (Associação Brasileira de Recursos Humanos) e sócia da Gauté RH, este planejamento vai desde a definição do produto ou serviço que será oferecido até o lugar onde o profissional vai trabalhar. É preciso ter clareza sobre qual é o foco, o público-alvo e o diferencial competitivo, e também sobre os clientes com que se vai trabalhar, para haver alguma previsibilidade. "Todos são fatores importantes quando estamos falando de gestão de carreira", diz Andréa.

Espaço

Definir o espaço de trabalho também é um passo inicial da maior importância. Quando se viu nessa etapa, há 15 anos, o publicitário curitibano André Brik optou por começar trabalhando em casa - pelo menos enquanto ainda tinha poucos clientes após deixar uma agência em 2003. "Quando comecei a ter mais clientes, percebi que não importava onde estava trabalhando. O que importa é a entrega", conta.

Brik queria aperfeiçoar a rotina profissional em casa e começou a pesquisar por conta própria, comprando livros sobre o assunto e conversando com profissionais de recursos humanos. Na ausência de publicações sobre o tema no Brasil, ele acabou se tornando uma referência em home office, o "escritório em casa" - seus materiais e cursos estão disponíveis no site Go Home (gohome.com.br). Junto com a esposa, a jornalista Marina Sell Brik, ele hoje presta consultoria para companhias que querem implementar o trabalho remoto - arranjo diferente do freelancer, que não tem vínculo com uma empresa específica. As dicas, no entanto, também valem para quem está começando a oferecer seus serviços e pensa em fazer isso em casa.

Para começar, é preciso ter um espaço organizado, saudável e livre de interrupções, além de uma estrutura que não vá deixar o profissional na mão no meio do trabalho. Brik recomenda até que a pessoa busque conhecimentos básicos de informática para poder resolver por conta própria alguns problemas mais simples. Também pode ser importante conversar com a família para deixar claro que, durante o período de trabalho, o profissional "não está". Caso contrário, o próximo "job" pode acabar sendo dar um pulo no supermercado, levar o gato no pet ou pendurar as roupas.

Método

Fora do ambiente corporativo, pode ser ainda mais fácil perder o foco e a produtividade. Há métodos para combater isso. Brik, por exemplo, recomenda trabalhar em "blocos de trabalho focado", em que se desliga de tudo - telefone, redes sociais e serviços de mensagem instantânea. No caso dele e de Marina, uma ou duas horas já são suficientes para turbinar a produtividade. "A gente percebeu que o que realmente acaba atrapalhando muito o trabalho são as interrupções", diz. "O legal de quem trabalha em casa é que, no escritório, não é possível controlar totalmente as interrupções - pode haver uma reunião, chegar um colega. Em casa, por mais que possa até haver crianças e familiares, você consegue combinar com elas de não ser interrompido", explica.

Andréa Gauté recomenda listar as tarefas e seguir uma a uma, passando para a seguinte só depois que a atual tiver sido concluída. "Quando o profissional tenta fazer tudo ao mesmo tempo, gasta muito mais energia e tempo do que o necessário e passa o dia apagando incêndios", diz. " Se não souber trabalhar administrando o tempo, vai estar sempre se afogando nas suas próprias demandas."

Esta organização é importante, inclusive, para não estender o horário de trabalho indefinidamente. "Quem trabalha em casa também deve saber a hora de parar", diz Brik.

A rotina pode ser aperfeiçoada com períodos de planejamento diários e balanços sobre como o trabalho funcionou ao longo da semana, por exemplo. "Não haverá ninguém dando feedback. É preciso ter uma auto-motivação muito grande, organização e foco em melhoria contínua", explica Andréa.

Por falar em postura, tirar o pijama também faz diferença. "Parece bobagem, mas acaba influenciando", diz Brik. "O trabalho tem de ser levado com a mesma seriedade. Não é preciso colocar um terno para fazer o job em casa, mas trabalhar de pijama acaba influenciando a atitude que se tem no trabalho", defende.

Novos ares

Sair de casa, por outro lado, também pode ser uma boa ideia, diz Andressa Schneider, co-fundadora da 99jobs (plataforma voltada para profissionais e seleção de talentos para empresas). Ela lembra que, hoje, há espaços de coworking de baixo custo e com boa estrutura, o que pode ser uma boa alternativa ao home office para quem não tem recursos para alugar uma sala própria. "As pessoas se encontram nesses espaços, o que é bom para fazer networking", diz. "E você também consegue se inserir dentro de uma rotina. É uma boa, especialmente para quem está no começo."

Para Andressa, ir a algum lugar para trabalhar também tem um efeito psicológico positivo. "Talvez dê uma sensação maior de que você rendeu. Estamos tão acostumados à nossa casa como espaço de lazer e descanso que às vezes é difícil virar a chave", diz.

Prospecção

Todos esses desafios práticos precisam ser retirados do caminho, mas tudo perde o sentido se o freelancer não conseguir fazer a prospecção. Andressa Schneider cita, além de plataformas como a 99jobs, comunidades no Facebook como canais úteis para se encontrar trabalho - há uma variedade delas para diversas áreas e segmentos.

"Outra coisa importante é ter um bom portfólio, para mostrar as coisas que já fez", diz, sugerindo ferramentas como o Behance e o Linkedin.

André Brik diz que é preciso disciplina e persistência para prospectar. "A porcentagem de jobs que se consegue em relação à prospecção é baixa. A cada oito você fecha um", diz. "A prospecção deve ser ativa. Não pode ser reativa", orienta.

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