Thiago Gracioso já morou na Índia e agora está no Canadá: não pensa em voltar a morar no Brasil
Thiago Gracioso já morou na Índia e agora está no Canadá: não pensa em voltar a morar no Brasil | Foto: Arquivo pessoal



Empregadores internacionais estão cada vez mais dispostos a ter em seus quadros profissionais brasileiros interessados em ter uma experiência ou mudar definitivamente para outro país. Tais oportunidades se concentram nas áreas de TI (Tecnologia da Informação), as engenharias de modo geral e o campo científico com foco na pesquisa e desenvolvimento.
"Grandes potências como Estados Unidos, China, Canadá e países europeus, que investem muito em novas tecnologias, são países que vão demandar e demandam hoje, em alta escala, de profissionais gabaritados capazes de atender essas frentes e a mão de obra desses países contratantes não dá conta de suportar a demanda para iniciativas voltadas para isso", constata o diretor de operação da Yoctoo, Paulo Exel. Com mais de uma década de experiência em recrutamento especializado nas áreas de Tecnologia, Digital e Vendas, o diretor explica que ainda se dá "pontualmente" o contato de empresas no país sede buscando selecionar trabalhadores daqui para cargos importantes. "O que acontece são multinacionais já instaladas no Brasil, que estão expandindo suas operações em outros países e buscam a gente para diversificar o portfólio de profissionais para determinados cargos dentro de um short list de apresentação", informa.

Imagem ilustrativa da imagem Talentos tipo exportação



Na visão de Exel, quem tem esse objetivo de vida deve ter em mente três pontos cruciais: escolher um país que se tenha afinidade com a cultura e os hábitos, ter fluência na língua do destino almejado e, para se diferenciar na seleção, focar em um trunfo, conhecer profundamente algo específico da área em que atua. "Se você é especialista em uma área ou uma tecnologia, ferramenta ou algo do tipo, acredite, é isso que vai chamar atenção de uma organização global. Dominar plenamente um tipo de assunto muito específico dentro da sua área de atuação, pois isso desperta atenção de países ou organizações de fora para buscar um profissional daqui", afirma categoricamente.
Embora os números do Ministério da Fazenda mostrem que, em 2017, 21.717 profissionais brasileiros deixaram o Brasil com visto de trabalho fora - aumento de 165% na comparação com 2011 (8.170) -, em termos per capita a proporção é baixa na comparação com outros países. "Ainda é baixa a qualidade da formação no Brasil. Os profissionais requisitados são exceção. Um dos principais entraves ainda é a obtenção de visto para países desenvolvidos, EUA, Canadá ou países europeus. Outro fator é o lado cultural, entender a dinâmica do país, valores da empresa. Quem transpõe isso, tem vantagem genuinamente brasileira de alta capacidade de se adaptar a qualquer ambiente ou situação", resume Exel. O diretor ressalta que "não adianta nada excelente currículo, ótima performance, se você não dominar uma segunda língua (inglês, espanhol), esse ainda é um dos principais entraves para a carreira internacional".Tal problema também integra as deficiências da educação no Brasil.

Bem na foto
Natural de Assis-SP, Thiago Gracioso, profissional de TI, já trabalhou na Índia e, atualmente, está no Canadá. Formado em Química (bacharelado) pela UEL (Universidade Estadual de Londrina) e em Engenharia da Computação pela Unopar (Universidade Norte do Paraná), ele passou a nutrir a vontade de morar fora após começar a trabalhar no grupo HSBC Global Technology Brasil (HSBC GLTb), uma offshore do grupo, que garantiu a ele a primeira oportunidade de sair. "Foi entre 2010 e 2011, quando morei por seis meses na Índia. Nossa cultura nos ajuda muito nessa hora, pois somos um povo amigo, carismático e de fácil adaptação. A única coisa que eu considero fundamental é chegar no país de destino com um bom nível no idioma local", recomenda. Atualmente no Canadá, que é bilingue, Gracioso percebeu que falar inglês e francês "é fundamental". "Para mim, o principal entrave foi não dominar o francês. O sotaque e o regionalismo acabam dificultando um pouco quando estudamos o francês da França, porém é em poucos meses tudo se acomoda", explica.
Outra dica importante é conseguir mudar-se com um tempo para se adaptar ao novo país onde irá residir. "Os primeiros 90 dias foram fundamentais para entender como tudo funciona por aqui. Se você chega com pouco dinheiro e já tendo que correr atrás de emprego, com certeza as coisas ficam exponencialmente mais difíceis".

Por ora, Gracioso segue no plano de não retornar. "Vim para cá como residente permanente com a intenção de nunca mais voltar, salvo em datas específicas para visitar as belíssimas coisas que temos aí no Brasil como família, clima, paisagens, comidas", conta.
Na avaliação dele, os TIs brasileiros estão muito bem representados. "Somos muito bem vistos pela fácil adaptação, pela boa dicção do francês e o português ajuda muito nisso. Também somos reconhecidos por trabalhar duro, graças à cultura de trabalhar horas a fio no Brasil", revela.

Nos Estados Unidos, mais especificamente no estado de Michigan, o engenheiro elétrico e PHD em circuitos eletrônicos integrados, Rafael Navarenho de Souza, conseguiu uma vaga na GM em Detroit, pouco depois da GM em São Caetano do Sul propor a expatriação. "Acabei preferindo pedir demissão e me mudar", explica. "A engenharia do Brasil dá uma formação bastante abrangente. A cultura do Brasil de pensar fora da caixa, ter iniciativa, trazer solução, tudo isso ajuda a sermos valorizados", enumera. "No Brasil, já temos que desenvolver tirando leite de pedra. Um país escasso em termos de recursos tecnológicos. A facilidade aos nativos de países desenvolvidos cria alguns vícios para o povo daqui. Somos 'hard work' como eles definem aqui , trabalhamos bastante", conta. Quanto aos ganhos, os dois brasileiros se dizem satisfeitos e remunerados conforme os patamares pagos aos profissionais daqueles países, sem qualquer discriminação. "Acho que na área da saúde é mais complicado porque tem uma adequação curricular muito grande. Dentista tem uma adequação de dois anos, Medicina, quatro anos", orienta Souza.

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