Sucesso e amor: há um equilíbrio?
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domingo, 05 de julho de 2009
Giuliana Reginatto<br>Agência Estado 
São Paulo - Pessoas ocupadas de verdade não têm tempo nem para atender o celular. É difícil encontrar um buraco na agenda delas onde caiba uma entrevista. Imagine como seria complicado, portanto, se precisassem administrar dezenas de ligações românticas por dia - feitas por alguém que só ligou para ouvir a voz do outro, ou apenas para dizer o quanto está apaixonado. Nessa hora, a razão tem falado mais alto do que a emoção para muitas brasileiras. Duas pesquisas demonstram que os investimentos afetivos perderam espaço para o aprimoramento profissional na vida delas.
A inversão de prioridades no mundo feminino surpreendeu o especialista em gestão do tempo Christian Barbosa. Após consultar 5.362 mulheres, ele descobriu que 78% delas não tinham tempo suficiente para relacionamentos e sexo.
''Casamento não é mais uma das metas principais. Primeiro elas querem um cargo melhor, querem comprar a casa própria. Focadas na carreira, as mulheres agora deixam para pensar no coração quando estão estabilizadas'', diz o profissional.
Mais da metade das entrevistadas (52%) chegam a trabalhar dez horas por dia. Muitas, como Fernanda Camilo, 25 anos, ainda somam o estudo à jornada no escritório. Trainee de uma empresa importante, ela se divide entre o trabalho, as aulas de inglês, um segundo curso universitário, academia e visitas mensais aos pais, que vivem em Minas Gerais.
''Namorado não é minha prioridade agora, procuro focar nos estudos'', opina. Ela conta que seu romance mais recente terminou justamente por falta de tempo. Formada em Moda, Fernanda cursa agora Administração - campo profissional que pode atrapalhar ainda mais sua relação com o relógio.
A psicóloga Betania Tanure descobriu que mulheres com cargos importantes enfrentam dificuldades para manter um relacionamento estável. Ela avaliou mais de 1.200 executivos, entre homens e mulheres, recrutados em 344 empresas do País.
''Só 20% das executivas de primeiro nível, que estão na presidência ou vice-presidência, conseguem manter um relacionamento estável. Entre os homens que ocupam esses cargos o índice chega a 80%'', compara Betânia. Segundo ela, estabelecer o equilíbrio entre as demandas profissionais e domésticas é um desafio. ''O homem tem fascínio pela mulher bem-sucedida, mas morre de medo da sua independência. Se o salário dela é maior fica mais difícil ainda porque ele se julga ameaçado no seu papel de provedor.''
Sucesso profissional e sorte no amor seriam, então, inconciliáveis? ''Conseguir tudo, ao mesmo tempo, com a mesma intensidade, não dá. Achar que você, em uma carreira ascendente, pode chegar às 9h e sair às 17h do trabalho é como acreditar em Papai Noel. Não existe isso nesse mundo competitivo'', diz Betania. ''É possível, porém, chegar a um razoável equilíbrio quando se aprende a escolher. Pergunte-se: 'estou disposta a abrir mão de quê neste momento?' Achar essa resposta passa pelo processo de autoconhecimento.''
Betania acredita que a devoção feminina à carreira pode gerar interpretações equivocadas sobre o fenômeno. ''Há um mito a ser desfeito aí: estar focada no trabalho não significa que isso satisfaz a mulher plenamente ou que ela não se importe mais com os relacionamentos. A executiva também quer alguém que mande flores e abra a porta do carro, os homens é que estão inseguros diante desse tipo de mulher e fogem.''
Em seu estudo, Betânia constatou que mães de crianças menores de 10 anos são as principais vítimas do tempo. Quando precisam brigar com o calendário, ganham horas dormindo menos. ''Essas mulheres carregam um sentimento de culpa enorme'', diz.
Na avaliação da psicanalista Ana Lucília Rodrigues, mestre em psicologia, manter o clima de romance na relação é mais uma tarefa do amplo leque de atribuições femininas.
''Socialmente, o que se exige é uma mulher ideal. E o ideal é algo que nunca se alcança. É difícil se desembaraçar disso porque a própria mulher se exige muito, não consegue viver suas limitações. No fundo, ela tenta dar conta de tudo o que esperam dela porque teme não ser amada''.


