Startups precisam aprender a sobreviver
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
A ideia é essa: levar alimentos de qualidade, direto do produtor para as residências, em uma espécie de assinatura online. Esse tem sido o projeto no qual o empresário Luiz Vicente M. Rando Junior tem investido tempo e suor.
Ele é formado em Relações Públicas e Jornalismo, mas enxergou no modelo das startups, uma oportunidade para ter o próprio negócio. O projeto, segundo ele, surgiu em conjunto com uma equipe de profissionais, durante o evento "Startup Weekend Londrina", realizado no ano passado.
O projeto passou por algumas mudanças e, agora, Junior está montando uma sociedade com uma nutricionista. "A intenção é dar início logo nesse primeiro semestre. Para isso, estou buscando mentorias e informações junto ao Sebrae em relação às estratégias e legalização da startup", diz.
Junior tem tido muita dificuldade em obter recursos, mas principalmente, de buscar informações de referência e, por isso, tem dedicado muitas horas em pesquisas. Todo esse preparo, de acordo com ele, é uma forma de garantir o mínimo de sucesso posteriormente.
Toda essa preocupação é natural, uma vez que as startups, empresas que trazem alguma inovação tecnológica e que têm alto potencial de crescimento, também permeiam um ambiente de muitas incertezas.
O estudo "Causas da mortalidade de startups brasileiras" retrata bem essa realidade. Publicado nem 2014 e realizado pela Fundação Dom Cabral (FDC), o levantamento mostra que 25% das startups "morrem" antes do primeiro ano de vida e a metade delas, em menos de quatro anos.
Os dados têm como base as respostas de fundadores de 221 startups, sendo 130 em operação e 91 descontinuadas. O professor Carlos Arruda, coordenador do estudo e do Núcleo de Inovação e Empreendedorismo da FDC, explica que neste modelo de empresa há dois graus de risco, isto é, um a mais que as empresas tradicionais.
De acordo com ele, toda empresa nascente tem um risco mercadológico, onde o produto ou serviço pode ou não ser aceito pelo mercado. "Já em uma startup há uma segunda dimensão de risco, que é o tecnológico, ou seja, se aquilo que está sendo apresentado vai funcionar de fato", afirma.
FATORES
Sob este entendimento, a pesquisa aponta três fatores que podem justificar a alta taxa de descontinuidade das empresas. O primeiro deles está relacionado ao número de sócios.
Os dados mostram que "a cada sócio a mais que trabalha em tempo integral na empresa, a chance de descontinuidade da startup aumenta em 1,24 vez." Arruda explica isso, afirmando que neste ambiente de alta incerteza, há sempre uma situação de conflito entre os pares.
Ele diz, por exemplo, ser bastante comum os sócios começarem a ser pressionados pelo mercado, pela própria insegurança tecnológica, e essas diferentes pressões tendem a resultar em divergências entre eles.
"Lidar com as características pessoais é um fator fundamental para a sobrevivência de uma empresa. Se em um modelo de negócio tradicional, chamamos isso de governança, em uma startup podemos dizer que é praticamente discutir a relação", diz em tom bem humorado.
O segundo fator envolve as questões de investimento. E nesse ponto é até paradoxal, como diz o próprio especialista. Arruda diz que se por um lado, dispor de pouco capital é crítico para a sobrevivência, ter muito dinheiro investido também é.
"Se a empresa recebe um montante de recursos, ela entra em uma zona de conforto. Uma startup tem que ir para o mercado e se adaptar a sua oferta e às reações que o mercado dão a ela. Portanto, essa tensão criativa é fundamental, mas quando ela entra em uma zona de conforto, esse processo é adiado", comenta.
Ainda de acordo com ele, geralmente os investidores-anjo ou fundo de investimento liberam os recursos à medida que os empreendedores vão gerando resultados.
"Quando o recurso é público, é liberado de uma só vez e isso não é saudável para as startups. Elas deveriam estabelecer a realização de determinadas etapas com os investidores, semestralmente, por exemplo, visando manter os empreendedores em uma tensão criativa", aponta.
Por último, é preciso considerar o local de instalação. Arruda destaca que esse fator foi surpreendente, uma vez que o ambiente se mostrou importante para orientar a estratégia de startup.
"Quando uma startup está isolada, não se cria um contexto que favorece a sobrevida. E eu explicaria isso pelo fator relacionamento, isto é, em ambientes como incubadoras, por exemplo, onde há interação e networking, ela exporta de maneira formal ou informal, padrões de gestão", cita.


