O ambiente de trabalho no Brasil vive uma crise silenciosa: o afastamento por transtornos mentais cresceu 67% em apenas um ano e R$ 62,5 bilhões foram perdidos com absenteísmo, segundo o relatório Gupy Insights. Além disso, 82% das lideranças já relatam sintomas de burnout e 72% dos profissionais afirmam viver sob altos níveis de estresse.

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Para a psicóloga Sarah Figueiredo, especialista em carreiras e negócios, esses números mostram que o problema vai muito além da produtividade e revelam um cenário de esgotamento emocional que ameaça não só os trabalhadores, mas também a saúde financeira das organizações. “Gerenciar emoções não é terapia de empresa, é competência estratégica. Se as empresas não olharem para a saúde mental de forma estruturada, o impacto será devastador: mais afastamentos, mais rotatividade e menos resultados. Não existe estratégia de crescimento que sobreviva ao esgotamento silencioso das pessoas”, afirma.

Sarah Figueiredo, psicóloga: “Gerenciar emoções não é terapia de empresa, é competência estratégica"
Sarah Figueiredo, psicóloga: “Gerenciar emoções não é terapia de empresa, é competência estratégica" | Foto: Bruna Damasseno/ Divulgação

O PREÇO DA ALTA PERFORMANE

O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking mundial de burnout, atrás apenas do Japão, de acordo com a International Stress Management Association (ISMA-BR). Para Sarah, isso acontece porque muitas empresas ainda confundem desempenho com sobrecarga. “O que mais vejo são metas agressivas, jornadas longas e ambientes pouco acolhedores. Isso gera um ciclo de adoecimento emocional que vai do chão de fábrica à liderança”, explica.

Segundo a especialista, 44% dos líderes e 45% dos colaboradores já deixaram de produzir ou se engajar por problemas emocionais, conforme um estudo de Inteligência Emocional e Saúde Mental. “Esse não é só um tema de Recursos Humanos é sobre sustentabilidade do negócio. Empresas que ignoram isso estão assumindo um risco que pode custar caro”, reforça Sarah.

GERENCIAMENTO EMOCIONAL

Sarah defende que o gerenciamento emocional deve ser visto como uma competência essencial para líderes e equipes. Trata-se da capacidade de reconhecer, compreender e administrar as próprias emoções e as do ambiente. “Não é sobre trabalhar menos, mas sobre trabalhar com inteligência emocional. Quando líderes e liderados sabem regular o estresse, comunicar com clareza e organizar prioridades, a produtividade aumenta e os índices de adoecimento caem”, explica.

Em ambientes de alta pressão, a especialista recomenda práticas simples e eficazes: Pausas curtas e exercícios de respiração para regular o estresse; Check-ins emocionais para nomear e entender sentimentos; Organização de prioridades para reduzir sobrecarga; Comunicação clara e empática para evitar conflitos; Reconhecimento de conquistas diárias para reforçar autoestima; Busca por apoio estratégico externo sempre que necessário.

O PAPEL DAS EMPRESAS

Para a especialista, falar de saúde mental não basta, é preciso criar estratégias estruturadas. Ela destaca três pilares essenciais para que empresas protejam colaboradores e, ao mesmo tempo, seus resultados:

- Treinar líderes para gestão emocional: capacitação contínua sobre feedback, comunicação e tomada de decisão sob pressão.

- Criar protocolos claros de prevenção: regras para lidar com estresse, sobrecarga e sintomas emocionais antes que se tornem passivos trabalhistas.

- Oferecer canais de acolhimento e suporte: espaços seguros onde colaboradores e gestores possam compartilhar dificuldades sem medo de julgamento.

SETEMBRO AMARELO

A campanha Setembro Amarelo é um convite à reflexão sobre saúde mental, mas, para Sarah, a prevenção vai muito além: “Antes que o colaborador chegue ao limite, há sinais que podem ser identificados e cuidados que podem ser tomados, como investir em autoconhecimento”. Segundo ela, o desafio é conciliar alta performance com qualidade de vida: “Não adianta crescer e gerar renda se as pessoas não têm saúde física e mental para aproveitar o que conquistaram. Cuidar de gente e cuidar do negócio são coisas que caminham juntas.”

Cuidar dentro para transformar fora

Enquanto muitas empresas ainda discutem como lidar com os desafios da saúde mental no ambiente corporativo, a Advance Garantidora, uma empresa com sede em Londrina, transformou o cuidado com as pessoas em parte de sua estratégia. Em janeiro de 2024, a empresa lançou o programa “Avançar com Equilíbrio”, conduzido pelo psicólogo Flavio Galhardi, com o objetivo de criar um ambiente de trabalho mais saudável, humano e produtivo.

O projeto oferece atendimentos individuais, rodas de conversa, palestras e workshops sobre temas como estresse, ansiedade, autoconfiança e equilíbrio emocional. As ações acontecem mensalmente, mas os colaboradores podem agendar sessões individuais com o profissional sempre que necessário. “Acreditamos que primeiro precisamos cuidar dos que estão dentro para depois cuidar dos que estão fora. O programa nasceu para promover bem-estar, prevenir o adoecimento psicológico e criar um espaço seguro de acolhimento”, afirma Mayhara Magley Ferreira, CEO da Advance.

Desde a implantação do programa, segundo ela, os impactos são visíveis: aumento do engajamento, redução de conflitos internos, maior união da equipe e melhoria no clima organizacional. Colaboradores relatam sentir-se mais valorizados, ouvidos e acolhidos, o que se reflete diretamente na produtividade e no ambiente de trabalho.

Atendimentos individuais, em grupo, palestras e workshops já são adotados nas empresas como formas de prevenção
Atendimentos individuais, em grupo, palestras e workshops já são adotados nas empresas como formas de prevenção | Foto: Delmaine Donson/ Getty Images

Vale destacar que o programa não surgiu isolado. Mayhara conta que antes mesmo dessa ideia, a Advance já carregava no seu DNA iniciativas voltadas para o bem-estar, como o reembolso de academia, viagens de incentivo, ginástica laboral, ações de integração, reconhecimento de talentos, espaços de convivência acolhedores e celebrações internas que fortalecem os laços entre a equipe. O “Avançar com Equilíbrio”, acrescenta ela, veio para potencializar essa cultura de cuidado integral e consolidar uma gestão que valoriza pessoas acima de tudo.

“Quando cuidamos verdadeiramente de quem trabalha com a gente, construímos um ambiente mais humano, fortalecemos a equipe e geramos impacto positivo para toda a organização”, observa Mayhara. Ela completa que no mês de setembro o tema saúde mental ganha mais destaque por conta da campanha Setembro Amarelo, mas para a empresa esse cuidado é parte da rotina o ano todo. “Sempre acreditei que uma empresa só cresce de forma sustentável quando olha com carinho para as pessoas que fazem parte dela.”

* Com assessoria.

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