Os números mais recentes do Ministério da Previdência Social confirmam o alerta que especialistas vêm fazendo há anos: o Brasil vive um agravamento consistente na relação entre trabalho e saúde mental. Em 2025, mais de 500 mil licenças médicas foram concedidas por transtornos mentais. No total, o País registrou cerca de 4 milhões de afastamentos no período.

De acordo com o levantamento, os transtornos de ansiedade lideram as concessões, com 166.489 afastamentos, seguidos pelos episódios depressivos, que somaram 126.608 licenças. Juntos, cresceram 15% em relação ao ano anterior e já representam o segundo maior motivo de afastamento do trabalho no Brasil, atrás apenas das doenças da coluna. A lista inclui ainda transtorno bipolar, dependência química, estresse grave, esquizofrenia e alcoolismo.

Para a psicóloga Sarah Figueiredo, especialista em carreiras e negócios, os dados não indicam uma crise passageira. “Não se trata de um problema recente ou de causa única. O que vemos é o efeito acumulado de décadas de desalinhamentos entre indivíduo, trabalho e contexto social”, afirma.

Segundo ela, responsabilizar apenas o trabalhador ou exclusivamente as empresas empobrece o debate. “Indivíduo e ambiente se influenciam continuamente. Explicar o adoecimento como fragilidade emocional individual ou como falha apenas estrutural ignora a complexidade do fenômeno.”

A especialista aponta que mudanças tecnológicas aceleradas, transformações sociais e a consolidação das redes sociais alteraram a forma como as pessoas constroem identidade e expectativas. “O discurso de que é possível fazer tudo, ser tudo e ter tudo criou uma promessa sedutora, porém irrealista. O não cumprimento dessa promessa gera frustração crônica, apatia e sensação de inadequação.”

CUSTO EMOCIONAL

Historicamente, afirma Sarah, as pessoas organizavam suas trajetórias a partir de roteiros mais previsíveis, que ofereciam algo essencial ao funcionamento psíquico: Perspectiva e alinhamento de expectativa. “Hoje vivemos o oposto: múltiplas possibilidades, poucas referências estáveis e um excesso de escolhas que o cérebro humano não consegue sustentar sem custo emocional.”

No ambiente corporativo, isso se manifesta como ansiedade, burnout e afastamentos recorrentes. O impacto também é econômico: estima-se que os afastamentos relacionados à saúde mental já representem custo próximo de R$ 3,5 bilhões ao INSS.

A entrada em vigor da NR-1, que amplia a responsabilidade das empresas na gestão dos riscos psicossociais, é vista por Sarah como um avanço importante, mas não suficiente isoladamente. “Normas obrigam o olhar para o tema. Mas saúde mental no trabalho depende de cultura organizacional madura, liderança preparada e expectativas alinhadas.”

Sarah Figueiredo, psicóloga: "Hoje, temos poucas referências estáveis e um excesso de escolhas que o cérebro humano não consegue sustentar”
Sarah Figueiredo, psicóloga: "Hoje, temos poucas referências estáveis e um excesso de escolhas que o cérebro humano não consegue sustentar” | Foto: Bruna Damasseno/ Divulgação

GESTÃO PREVENTIVA

Na prática, o aumento dos afastamentos está sendo percebido dentro das empresas. Vander Fogaça, Engenheiro de Segurança do Trabalho, à frente da empresa Evolua Engenharia de Segurança, confirma que os fatores de riscos psicossociais tiveram crescimento significativo, especialmente no período pós-pandemia.

“Esse cenário é real. Temos observado aumento nas demandas relacionadas a estresse ocupacional e questões organizacionais. Algumas empresas já entenderam a importância da prevenção, outras ainda demonstram resistência”, diz o especialista.

Sobre riscos e prevenção, Fogaça explica que a NR-1 não vai analisar a vida pessoal do trabalhador, mas os fatores presentes no ambiente de trabalho que podem contribuir para o adoecimento. E dentro da sua área de atuação, pontua que o primeiro passo para entender quais medidas aplicar é levantar os dados da empresa, a partir de ferramentas reconhecidas no Brasil, e classificar o nível de risco a que os trabalhadores estão sujeitos, que pode variar de baixo a grave.

“A partir disso, definimos um plano de ação com prazos e prioridades. Medidas que podem ser aplicadas ao longo de semanas e meses e algumas de forma imediata”, observa. Entre as orientações sugeridas para as empresas que atende, estão treinamentos de liderança, revisão de metas e ações de melhoria nas condições organizacionais. Mas a conscientização, de empresas e trabalhadores, segue sendo o primeiro passo para prevenir ou reduzir problemas e afastamentos no trabalho por questões de saúde mental.

* Com assessoria.

mockup