Recorde de afastamentos por saúde mental não é crise pontual
Mais de meio milhão de trabalhadores foram afastados por transtornos mentais em 2025, psicóloga analisa fatores que explicam explosão de casos
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domingo, 22 de fevereiro de 2026
Mais de meio milhão de trabalhadores foram afastados por transtornos mentais em 2025, psicóloga analisa fatores que explicam explosão de casos

Os números mais recentes do Ministério da Previdência Social confirmam o alerta que especialistas vêm fazendo há anos: o Brasil vive um agravamento consistente na relação entre trabalho e saúde mental. Em 2025, mais de 500 mil licenças médicas foram concedidas por transtornos mentais. No total, o País registrou cerca de 4 milhões de afastamentos no período.
De acordo com o levantamento, os transtornos de ansiedade lideram as concessões, com 166.489 afastamentos, seguidos pelos episódios depressivos, que somaram 126.608 licenças. Juntos, cresceram 15% em relação ao ano anterior e já representam o segundo maior motivo de afastamento do trabalho no Brasil, atrás apenas das doenças da coluna. A lista inclui ainda transtorno bipolar, dependência química, estresse grave, esquizofrenia e alcoolismo.
Para a psicóloga Sarah Figueiredo, especialista em carreiras e negócios, os dados não indicam uma crise passageira. “Não se trata de um problema recente ou de causa única. O que vemos é o efeito acumulado de décadas de desalinhamentos entre indivíduo, trabalho e contexto social”, afirma.
Segundo ela, responsabilizar apenas o trabalhador ou exclusivamente as empresas empobrece o debate. “Indivíduo e ambiente se influenciam continuamente. Explicar o adoecimento como fragilidade emocional individual ou como falha apenas estrutural ignora a complexidade do fenômeno.”
A especialista aponta que mudanças tecnológicas aceleradas, transformações sociais e a consolidação das redes sociais alteraram a forma como as pessoas constroem identidade e expectativas. “O discurso de que é possível fazer tudo, ser tudo e ter tudo criou uma promessa sedutora, porém irrealista. O não cumprimento dessa promessa gera frustração crônica, apatia e sensação de inadequação.”
CUSTO EMOCIONAL
Historicamente, afirma Sarah, as pessoas organizavam suas trajetórias a partir de roteiros mais previsíveis, que ofereciam algo essencial ao funcionamento psíquico: Perspectiva e alinhamento de expectativa. “Hoje vivemos o oposto: múltiplas possibilidades, poucas referências estáveis e um excesso de escolhas que o cérebro humano não consegue sustentar sem custo emocional.”
No ambiente corporativo, isso se manifesta como ansiedade, burnout e afastamentos recorrentes. O impacto também é econômico: estima-se que os afastamentos relacionados à saúde mental já representem custo próximo de R$ 3,5 bilhões ao INSS.
A entrada em vigor da NR-1, que amplia a responsabilidade das empresas na gestão dos riscos psicossociais, é vista por Sarah como um avanço importante, mas não suficiente isoladamente. “Normas obrigam o olhar para o tema. Mas saúde mental no trabalho depende de cultura organizacional madura, liderança preparada e expectativas alinhadas.”

GESTÃO PREVENTIVA
Na prática, o aumento dos afastamentos está sendo percebido dentro das empresas. Vander Fogaça, Engenheiro de Segurança do Trabalho, à frente da empresa Evolua Engenharia de Segurança, confirma que os fatores de riscos psicossociais tiveram crescimento significativo, especialmente no período pós-pandemia.
“Esse cenário é real. Temos observado aumento nas demandas relacionadas a estresse ocupacional e questões organizacionais. Algumas empresas já entenderam a importância da prevenção, outras ainda demonstram resistência”, diz o especialista.
Sobre riscos e prevenção, Fogaça explica que a NR-1 não vai analisar a vida pessoal do trabalhador, mas os fatores presentes no ambiente de trabalho que podem contribuir para o adoecimento. E dentro da sua área de atuação, pontua que o primeiro passo para entender quais medidas aplicar é levantar os dados da empresa, a partir de ferramentas reconhecidas no Brasil, e classificar o nível de risco a que os trabalhadores estão sujeitos, que pode variar de baixo a grave.
“A partir disso, definimos um plano de ação com prazos e prioridades. Medidas que podem ser aplicadas ao longo de semanas e meses e algumas de forma imediata”, observa. Entre as orientações sugeridas para as empresas que atende, estão treinamentos de liderança, revisão de metas e ações de melhoria nas condições organizacionais. Mas a conscientização, de empresas e trabalhadores, segue sendo o primeiro passo para prevenir ou reduzir problemas e afastamentos no trabalho por questões de saúde mental.
* Com assessoria.


Da Redação
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