Quando o jogo se torna ofício
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domingo, 04 de março de 2018
Magaléa Mazziotti<br>Reportagem Local 

Ao observar o entusiasmo de seus filhos com a diversão eletrônica, nem todos os pais vislumbram um futuro profissional no segmento. Mas, segundo especialistas, é possível confirmar se existe vocação para trabalhar na área por meio de diversos aplicativos. Desta forma, as pessoas saem da posição de usuários e se põem do outro lado do balcão, podendo entender as nuances que envolvem a produção de jogos.
O produtor de jogos Rafael Lopes Lagos, da Produtora de Soluções Digitais da Universidade Positivo (UP) e professor de pós-graduação, explica que a parte da criação intelectual dos games e aplicativos envolve pelo menos três grandes cargos, que exigem competências e atividades de três tipos de profissionais capazes de exercer as funções de game designer (cuida de todo o planejamento da interface), programador (que escreverá os códigos-fontes das funções) e artista/modelador 2D e 3D + músicos (responsáveis pela parte visual e sonora dos jogos).
A partir destas funções, quanto mais complexo e arrojado é um jogo, maior será a capilaridade e nível de especialização de cada uma dessas funções. "O cargo de produtor, por exemplo, já é um passo a mais em uma estrutura mais enxuta. Enveredei para a modelagem 3D que me fascina e, ao evoluir na carreira aqui na produtora virei o produtor, que serve como uma espécie de maestro de cada projeto regendo toda a equipe de modo a entregar o jogo planejado, tal qual o maestro que leva os músicos a executarem uma sinfonia", esclarece Lagos.
Ele conta que muito embora os profissionais brasileiros sejam bem quistos pelo mercado internacional, o mercado interno oferece poucas oportunidades em vagas tradicionais. "É um campo promissor assim como tudo que está conectado, pois embora gere incertezas em várias atividades profissionais tradicionais, apresenta uma série de oportunidades para tudo que estiver ligado à rede mundial de computadores", afirma.
No Brasil, são poucas as agências e produtoras, por isso que as oportunidades de trabalho ainda engatinham, porém, há de se considerar que o endereço postal dos profissionais não é determinante para integrar qualquer projeto de qualquer lugar no globo terrestre. Trabalhos freelancer em outros países são comuns, dada a facilidade de se montar equipes remotas, a fim de suprir as especificidades dos desafios de cada game a ser confeccionado.
Esse, inclusive, é o objetivo do modelador 3D, Saulo Bonatto, especializado em Jogos Digitais, que enveredou para a produção de jogos somente após se graduar em Engenharia Mecatrônica. "Escolhemos a profissão muito cedo. O que mais me atraía na Mecatrônica era a ideia de construir robôs e, logo no primeiro dia, o coordenador do curso tratou de esclarecer que essa era a menor parte. Na modelagem 3D, na qual eu venho me aperfeiçoando dia após dia, descobri a minha realização com a modelagem de personagens e pensando em galgar uma oportunidade no exterior, seja de forma remota ou presencial, nos países que são referência na produção de jogos AAA (classificação triple A)", revela.
Bonatto conta que o destino colaborou para as mudanças no rumo profissional. "Estava procurando emprego quando encontrei a especialização em jogos. Embora eu gostasse de games, nunca fui aquele aficionado, os jogos sempre foram uma parte da minha vida", recorda. Já a paixão pelos bonecos e pela arte de ser o "criador das criaturas" digitais é o principal combustível do jovem modelador de 27 anos, que debruça horas por dia a estudar para lapidar seu trabalho e aprimorar o portfólio.
"Apesar de raro, tive sorte de ter emprego fixo em produtora e consegui usar até meus conhecimentos em engenharia para otimizar processos", diz Bonatto. Segundo ele, a regra de ouro dessa profissão é estudar e buscar superar os pontos fracos o tempo todo. Estudo esse que envolve uma ampla capacidade de saber buscar conhecimento na rede. "Paixão é necessária, mas profissionalismo e dedicação são indispensáveis para conseguir oferecer o que o mercado precisa. As pessoas de fora nem imaginam o quão trabalhoso é tornar realista o desenho do cabelo dos bonecos, por isso que quem não estuda permanentemente não vai para frente. E é um estudo de coisas bastante específicas. No meu caso, entender de anatomia é crucial para a qualidade dos meus bonecos e os usuários dos jogos percebem a qualidade disso", defende.
Percebem e remuneram. Enquanto um profissional no início de carreira no Brasil consegue um ganho médio de R$ 800 como estagiário e R$ 2 mil para jornadas de 40 horas semanais, o mercado triple AAA oferece oportunidades melhores. "Em linhas gerais, desconsiderando os milhões do AAA, enquanto o profissional que atua no Brasil com um portfólio razoável tem um ganho na base de R$ 2,4 mil a R$ 4 mil para 44 horas semanais, para o mesmo artista, mercados como o norte-americano remuneram entre US$ 65 mil e US$ 70 mil ao ano", observa Bonatto.
Mercado de jogos voltados para EAD

Para trabalhar com jogos, a opção de montar a própria empresa é recorrente e pode se converter em um verdadeiro mapa da mina. Seja para celulares ou para computadores, criar um jogo que caia no gosto dos consumidores pode render uma fortuna em downloads, anúncios e produtos vendidos dentro dos jogos (in-app purchases). "Existe ainda a venda de produtos durante a fase de jogos para quem quer empreender neste mercado", explica o produtor Rafael Lopes Lagos, que admite trabalhar por um case de sucesso dessa dimensão.
Outra área de atuação são os games de treinamentos. A Beenoculus Realidade Virtual, Aumentada e Vídeo 360º, em Curitiba, desenvolve jogos para treinamentos. "Além do entretenimento, há um campo bastante interessante de atuação dos profissionais de jogos voltados para EAD (Educação a Distância) e o treinamento de equipes, pois a realidade virtual propicia um nível de inserção maior do que a forma tradicional de repassar conhecimentos", explica o artista/modelador 3D, Roberth Rodrigues de Araújo.
Com apenas 23 anos de idade, ele encara de forma madura a carreira. "Internamente, os profissionais de jogos precisam ser mais generalistas, no exterior se valoriza os especializados, já que há um mercado mais estruturado. Somos valorizados pela nossa versatilidade lá fora e quem detém um portfólio surpreendente tem emprego garantido, porém, nem sempre se chega ao topo. Por isso é preciso gostar muito como em qualquer profissão, para seguir se aprimorando e trilhando o próprio caminho no mercado", orienta.(M.M.)


