No mercado de trabalho, a expressão "o dinheiro fala mais alto" é quase uma unanimidade. Na maioria das vezes, a oferta salarial é o que vale na hora de encarar um novo desafio. Mas pelo menos entre os estagiários, essa realidade tem mudado nos últimos anos. Claro que a maioria, até por uma questão de necessidade, tenta conciliar aprendizado e remuneração, mas quando isso não é possível a opção pelo conhecimento tem ganhado valor entre os estudantes.
Ao menos é o que aponta uma pesquisa realizada pela Companhia de Estágios, de São Paulo, agência responsável pelo processo seletivo dos programas de estágio em grandes empresas no País. O levantamento revelou que, especialmente entre os jovens que têm pouca ou nenhuma experiência, conseguir uma boa colocação vai muito além de ganhar um bom salário: é preciso conseguir uma vaga que garanta aprendizado profissional. De acordo com a pesquisa, que ouviu mais de 1,7 mil entrevistados em todas as regiões do País, 62,8% dos candidatos a vagas de estágio têm como maior expectativa o aprendizado profissional.
É o caso de Ana Paula Durante Armando, de 28 anos. Estudante do quinto e último do curso de Psicologia, na Unopar, em Londrina, ela recebe uma ajuda de custo pelo estágio em uma clínica de psicologia. Mas isso está em segundo plano na sua ordem de valores. O maior ganho, a essa altura, segundo a própria estudante, é a bagagem que está adquirindo. "Não é um estágio obrigatório. Escolhi fazer porque quero aprender, buscar novos conhecimentos, saber como funciona, participar das rotinas. O dinheiro não está em jogo agora", conta.
Prestes a se formar, Ana Paula já definiu que quer trabalhar na área clínica, atendendo pacientes. E por isso acredita que está no lugar certo para encarar o mercado de trabalho com mais segurança a partir do ano que vem. "Acho que essa [atitude] pode fazer toda a diferença no futuro. A partir do momento que entrei na clínica, conheci novos profissionais, fiz contatos no meio em que quero trabalhar, pude enxergar coisas na prática. Isso me fez crescer muito e me faz olhar a psicologia clínica de uma forma diferente. Vou me formar e não vou chegar numa clínica sem saber nada. Me faz mais preparada e segura", destaca a estagiária.
Analista em Recursos Humanos da Companhia de Estágios, Greta Munhoz diz que os dados refletem uma mudança de comportamento dos estagiários nos últimos anos. "Anteriormente, a gente percebia que eles buscavam o estágio como uma oportunidade de emprego da vida, e nesse quesito o salário era o grande ponto-chave para fazer a decisão. Nesse momento a gente percebe que o salário deixa de ser um ponto essencial da busca, e o entendimento do jovem está mais amplo. Ele entende que, mais que buscar um emprego, [o estágio] é a oportunidade de ampliar o conhecimento, treinar a capacidade e pôr na prática o que aprende na faculdade", analisa. "É bem a questão de compreender que o estágio é uma porta de entrada para o mercado de trabalho para esses jovens. Para a maioria deles, seria a porta de entrada para um primeiro conhecimento do que eles aprendem na teoria", acrescenta a analista.
Ela diz que até as empresas compreendem melhor hoje a maneira como o estudante enxerga a oportunidade de realizar o treinamento, o que reforça a ideia do estagiário. "Em contrapartida, as empresas têm compreendido melhor que o estágio é um período em que ele [estagiário] precisa experimentar, então pode ter um desconto, pode errar, ser tutoriado, e isso dá um ganho, deixa eles mais bem preparados."
Para esses jovens, a realização profissional está muito mais ligada a fazer algo relevante e inovador do que simplesmente trabalhar e receber um bom salário. A maioria deles afirmou que não mudaria de área mesmo se tivesse recursos suficientes, e 34,9% dos entrevistados topariam até mesmo ganhar menos, se o aprendizado fosse intenso e constante. "No futuro, a pessoa que fez essa escolha pode sair na frente", reforça a analista de RH.
"Com o aprendizado, tenho uma perspectiva de futuro, e que pode ser alcançada. Posso me formar e continuar trabalhando na clínica. O dinheiro a gente pode pensar como consequência. Depois de formada, se eu fizer um bom trabalho, vou ganhar dinheiro", diz Ana Paula.
O que acontece com Ana Paula, por exemplo, que escolheu o estágio com o intuito de ganhar afinidade com a área da psicologia em que pretende atuar, a analista de RH explica que pode ser uma visão de futuro importante para os estudantes. "Entendendo a oportunidade, o estagiário visa já focar nas áreas em que acha que tem interesse ou inclinação. Vai buscar formas de entrar em empresas que combinem com seus valores. O pensar no futuro é muito presente", aponta Greta. Por outro lado, de acordo com a pesquisa, um universo de apenas apenas 3,2% deles aponta a remuneração e o ganho de recursos para manutenção do curso/faculdade como principal objetivo no programa de estágio.

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