Sesc Londrina Centro criou o curso de formação para youtubers, orientando os alunos desde a produção até a divulgação
Sesc Londrina Centro criou o curso de formação para youtubers, orientando os alunos desde a produção até a divulgação | Foto: Marcos Zanutto - Grupo Folha



Todo mundo é uma celebridade em potencial quando se trata do YouTube, mas deixando o glamour de lado, a plataforma pode ser vista como oportunidade. Além da forma mais conhecida de se ganhar dinheiro na rede, com a monetização do conteúdo a partir da inserção de anúncios, também é possível aproveitar a visibilidade dos vídeos para construir parcerias com marcas ou transformar a audiência em clientes para o próprio negócio.

“Ainda vale a pena apostar, muitas pessoas estão falando que já está saturado, mas as coisas se renovam muito e, além disso, é importante destacar que cada um têm um brilho e isso vai tornar o canal especial. Uma pessoa bacana, sendo autêntica, sempre consegue espaço”, defende Fernanda Vicentini, professora do MBA em Gestão de Mídias Digitais, da ESPM.

Mas encontrar seu espaço exige disciplina. Além da qualidade do conteúdo, a pessoa que deseja fazer disso sua fonte de renda precisa entender que se trata de um trabalho, cheio de compromissos e responsabilidades como qualquer outro. “A diferença do hobby para a profissionalização é a constância, a frequência com que você produz conteúdo e ter um planejamento. Quando fala no profissional, dá para entender que ele se planejou, entendeu sobre o que quer falar, como vai falar, cada youtuber tem um jeito de conversar com as pessoas”, afirma Vicentini.

Percebendo o interesse na criação de vídeos com qualidade, o Sesc Londrina Centro criou o curso de formação para youtubers, orientando os alunos desde a produção até a divulgação. “O youtuber é multiprofissional. É diretor, apresentador, editor de vídeo, ele tem que vender o negócio dele. Muitos chegam aqui interessados na plataforma como um hobby, mas acabam percebendo que não é o que eles querem, porque exige muito trabalho”, conta Caroline Guimarães de Araújo, orientadora de atividades da unidade. O curso é novo, mas tem tido procura. Atualmente, são duas turmas cheias, com 20 alunos cada, todos interessados em divulgar sua mensagem para o mundo.

Caroline Guimarães de Araújo, orientadora de atividades do Sesc Londrina Centro
Caroline Guimarães de Araújo, orientadora de atividades do Sesc Londrina Centro | Foto: Marcos Zanutto - Grupo Folha

COMO RENTABILIZAR?

O que Araújo não esperava era que muitas pessoas que chegaram às aulas por diversão acabariam vendo a atividade com olhar profissional, mas ela é bastante sincera com seus alunos. “Pelo Youtube você não ganha muita coisa. Na verdade, você vai ganhar com parcerias, propagandas de marcas que vão te patrocinar. Claro, se você tiver milhões de visualizações vai trazer retorno, mas nunca é certo, vai ter mês que você pode ter e outro mês que não”, afirma.

De acordo com a plataforma, os criadores podem rentabilizar seus vídeos com anúncios e assinantes do YouTube Premium, mas antes disso, todos devem seguir os passos: publicar com consistência, seguir as diretrizes da comunidade, inscrever-se no Programa de Parcerias do YouTube, atingir quatro mil horas de exibição nos últimos 12 meses e ter pelo menos mil inscritos. Só depois do primeiro ano, e seguindo essas regras, é que o produtor será analisado pela plataforma e, se aprovado, pode passar a receber pela publicação.

Ainda assim, o valor não é fixo. A plataforma analisa métricas para estimar a receita que cada vídeo constrói. As estatísticas envolvem o CPM (custo que o anunciante paga por mil impressões de anúncio), que é bastante variável conforme a demanda do mercado, período, geografia dos visitantes e tipo de distribuição; número de visualizações do vídeo; impressões de anúncios (número de vezes que os anúncios individuais foram vistos no vídeo); e reproduções rentabilizadas estimadas (número de vezes que o vídeo foi visto com anúncios). Tudo isso tem influência no cálculo da receita de de cada vídeo.

RENDAS ALTERNATIVAS

Mas como a professora disse, é possível gerar rendas alternativas através de um canal. “Tive alguns alunos empreendedores que vieram aprender para ficar mais próximos dos clientes. É um recurso gratuito, você pode divulgar sua empresa, colocar dicas e mostrar seu produto ou serviço”, afirma Araújo.

Essa estratégia é utilizada por grandes empresas. “Elas usam para construir marca e ficar mais presente na vida dos consumidores, se tornando mais relevantes e criando conexão”, explica a professora da ESPM. “Os profissionais liberais e pequenos empreendedores podem utilizar a mesma técnica. Uma empresa de contabilidade, por exemplo, tirando dúvidas, respondendo questões, se apresentando e dizendo ‘se você curtiu e quer saber mais, meu e-mail é esse, meu WhatsApp é tal’. Eu vejo muitos pintores mostrando antes e depois do seu trabalho, deixando os contatos deles”, acrescenta Vicentini, mostrando a plataforma como ferramenta de marketing.

PATROCÍNIO

Outra forma é o criador de conteúdo receber patrocínio direto das marcas, seja por uma empresa regional ou até de grandes marcas internacionais. “Hoje a gente tem um mercado muito grande de influenciadores trabalhando com marcas, você pode ganhar dinheiro com post patrocinado. Outra forma, é fazer trabalhos de criação de conteúdos diretamente para essas marcas”, afirma Vicentini. O patrocínio também pode ser oriundo de plataformas de captação de recursos, como financiamento coletivo, ou até com venda de conteúdo exclusivo, muito comum para quem produz cursos online.

AFILIADOS

A técnica é muito utilizada em blogs, mas também pode ser feita no YouTube. Algumas empresas dão comissão nas vendas de produtos que foram divulgados no canal. Normalmente, o criador fala sobre o produto e disponibiliza um link de encaminhamento para a compra. As vendas realizadas a partir desse endereço geram uma porcentagem para o criador do conteúdo.

COMO COMEÇAR?

As duas especialistas afirmam que não é preciso comprar um ultra equipamento. “Você pode começar com seu celular, na sua casa, sem tratamento especial. As pessoas vão evoluindo com o tempo”, afirma Vicentini. Ela exemplifica com dois casos famosos no Brasil, o Whindersson Nunes, que fazia os vídeos do quarto dele e pouca produção, e da Kéfera, que começou pequena e foi evoluindo. “Era muito artesanal, aos poucos ela foi comprando equipamentos melhores, criando cenários. Isso (falta de equipamento) não pode ser um impeditivo para começar”, afirma.

Mas nada impede de aprender para melhorar a qualidade dos vídeos. “As pessoas podem procurar um curso de como se posicionar em frente à câmera, por exemplo. Conhecimento de técnica de fala e de voz, como melhorar a fala, saber colocar a entonação correta, as pausas, velocidade, postura corporal, aprender técnicas de iluminação, composição fotográfica, de áudio. O áudio é 50% do seu vídeo, se não for bom, você perde a audiência”, explica a professora do Sesc. Ela indica começar com smartphone, um tripé pequeno, utilizar iluminação natural e softwares de edição gratuitos. “No YouTube, quanto mais simples, melhor, porque ele precisa passar aquele ar de espontâneo”, acrescenta.

DE OLHO NA OPORTUNIDADE

Começar por um hobby e enxergar uma oportunidade. Foi o que ocorreu com uma das alunas do curso de formação para youtubers em Londrina. O canal de Sueli Portellinha, 62, tem 1,5 mil inscritos e teve início na união duas paixões: psicologia e música. “É uma realização pessoal, eu gosto muito de cantar e eu queria cantar e falar do dia a dia das pessoas, sobre relacionamento, emoções, então eu coloco as duas coisas no meu canal”, explica a professora de psicologia. O canal chama-se Sueli Portellinha – Cantando a Vida.

O primeiro vídeo foi publicado há um ano, desde então, Portellinha publica religiosamente duas vezes na semana. “Eu deixo programado para quarta-feira e sábado, às 10h. Eu pesquisei com meus próprios seguidores quando seria o melhor dia e horário. A partir daí, eu busco temas, a música relacionada ao tema, faço pesquisa”, afirma e diz que quando o vídeo atrasa, logo é cobrada pelos seguidores.

A psicóloga construiu nesse tempo um catálogo de vários vídeos que falam sobre emoções, relacionamentos, sentimentos e diz que, embora a intenção não fosse ganhar dinheiro, consegue ver um potencial no canal. “Eu quero monetizar, meu canal é mais visto por mulheres, eu penso que uma empresa que precise falar com esse público vá se interessar. Já estou falando com um amigo que tem produtos para mulheres”, conta. Além disso, Portellinha menciona que o canal acaba trazendo visibilidade para a sua carreira e que alguns seguidores buscaram seus serviços após terem visto o canal.

Para ela, tudo começou por uma diversão que é bastante incentivada por amigos e alunos, mas agora vê que pode se tornar um negócio. “Eu resolvi fazer o curso, porque a minha produção ainda é muito caseira e eu estou aqui aprendendo técnicas diferentes, ferramentas diferentes para me aperfeiçoar. Se vier dinheiro, ótimo”, afirma.

Nesse tempo, adquiriu experiências com a plataforma, conhece as diretrizes e o que é preciso para monetizar seus vídeos através de anúncios. É um aprendizado gradual, que também já possibilitou retorno da conexão com seus seguidores. “Esses dias eu estava no mercado, conversando com a minha neta, e um senhor perguntou se eu era a Sueli Portellinha”, ri da ocasião. Sem intenção de se tornar celebridade, Portellinha quer continuar cantando e se conectando com pessoas, mas não deixa de lado a possibilidade de ter um retorno financeiro disso. (L.T.)

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