Auxiliar na resolução dos problemas financeiros do colaborador não só é contrapartida social como pode diminuir os impactos na empresa
Auxiliar na resolução dos problemas financeiros do colaborador não só é contrapartida social como pode diminuir os impactos na empresa | Foto: Shutterstock



Inadimplente? Eis uma condição que quase metade da população adulta no Brasil se enquadra (41%, ou R$ 62,2 milhões de pessoas). Ou seja, esse contingente inclui parte da ala dos assalariados com diversas faixas de remuneração. Os dados são do último acompanhamento divulgado pelo SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito), referente ao mês de abril, realizado pela CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) e que precederam as altas nos preços básicos após a greve dos caminhoneiros. Na avaliação de profissionais das áreas de Economia, Contabilidade e Recursos Humanos, isso transcende o contexto de crise, diz muito sobre a forma como a população conduz o próprio orçamento e que desemboca no universo do trabalho.
O especialista em finanças e contador Jorge Luis Prado é categórico em reconhecer que "ninguém ganha com essa situação", inclusive para a empresa na qual essa pessoa inadimplente trabalha, uma vez que afeta a produtividade. "Ninguém mantém o mesmo desempenho frente a essa situação. A falta de dinheiro, junto aos problemas de saúde, tiram o sono do brasileiro, há quem veja como saída forçar um desligamento do emprego para usar o dinheiro do FGTS para pagar suas dívidas, o que faz a empresa perder um bom profissional e esse ter o risco de ficar por mais tempo sem fonte de renda", aponta. Na visão de Prado, as organizações que dispensam atenção sobre isso têm muito a ganhar. Ele lembra que assim como programas corporativos que lidam com dependência de álcool e química, diante de uma situação em que "das 100 milhões de pessoas economicamente ativas, 62 milhões não conseguem honrar com todos os seus compromissos financeiros", lidar com isso não só é contrapartida social, quanto um problema que afeta os resultados de toda e qualquer empresa.
A coordenadora de partilha da Leroy Merlin Brasil, Ana Claudia Cassanti, explica que essa realidade motivou a implementação de um programa de desenvolvimento de consciência financeira nos colaboradores, que aos poucos vem sendo expandido pela rede de lojas no país. "Trabalhar essa consciência financeira representa desenvolver isso tanto na vida pessoal deles, quanto para ampliar as próprias conquistas pessoais e dentro da família, e que isso possa extrapolar para os nossos negócios também. A partir do momento que eles entendem e aplicam, isso é incorporado como cultura, eles se apropriam, podem falar e usar no dia a dia do trabalho, melhorando os resultados da empresa também", acredita.
A Associação Franciscana de Ensino Senhor Bom Jesus, em Curitiba, há um ano vem incrementando o programa "Viver FAE", que oferece assessoria financeira, jurídica e psicológica para alunos e colaboradores, a fim de contribuir para a qualidade de vida. "No aspecto financeiro, sabemos que é fundamental para qualquer ser humano se sentir capaz de criar condições de um futuro com qualidade e saber investir, poupar e controlar os gastos é fundamental em uma realidade em que a situação previdenciária é incerta", alerta a coordenadora do programa e do curso de Economia da FAE Centro Universitário, Solídia Santos. Responsável pela assessoria financeira do programa, Solídia informa que os ralos invisíveis motivados por uma política agressiva de incentivo ao consumo do mercado interno, desde 2010, vem gerando muitos endividados por conta de "consumo compulsivo". "Nos atendimentos mostramos situações simples. Quem tem por hábito consumir todo dia um café e pão de queijo na rua, pode ter certeza que no mês gastou o equivalente a uma compra semanal de supermercado", aponta. Entender isso, na visão de Solídia, e ter o controle do próprio orçamento, com organização e disciplina, segundo ela traz resultados para toda a vida. "Admitir e reconhecer o problema é o primeiro passo, depois colocar na ponta do lápis todas as despesas, para identificar as invisíveis e buscar negociar as dívidas trocando por parcelamentos mais baratos. Fazendo isso por seis meses, o trabalhador já percebe a mudança tanto na melhora do desempenho profissional, já que está tendo controle sobre seus problemas, como no entendimento de que essa mudança o permite resolver o problema", atesta. Mantendo essa disciplina por um ano, segundo Solídia, já altera a perspectiva e, a partir do segundo ano, há quem já consiga planejar meios de fazer o próprio salário render melhor por meio de investimentos.

INADIMPLENTE X CALOTEIRO

O especialista Jorge Prado sugere quatro tópicos indispensáveis para sair dessa condição. "Primeiro é não fugir dos credores. Mostre que você não é caloteiro. É um inadimplente. A conversa é sempre a melhor solução". Segundo, tentar um parcelamento cuidando da taxa de juros cobradas. "Cartão de crédito com taxa de rotativo a 15% ao mês, mesmo com a situação revista pelo Banco Central, desde abril do ano passado, ainda oferece uma taxa inviável, pois parcelamento de 8% ainda é muito caro. Não aceite isso, pegue um crédito pessoal consignado, pesquise um juro mais barato, o ideal é uma taxa de 1,5% a 2%", orienta. Ele pondera que dívidas muito recentes talvez não contam com isso. "Se não houver negociação, espere a dívida vencer, pois em um determinado momento vão fazer uma oferta com descontos. Tive uma cliente que quase vendeu a casa para saldar uma dívida. Com orientação e organização ela simplesmente não pagou e esperou. Eis que após alguns anos e muitas ligações, o banco ofereceu 95% de desconto e ela liquidou com R$ 2,5 mil", explica. Outra dica importante, é que por meio judicial é possível desvincular até mesmo empréstimos consignados da renda. Contudo, a principal recomendação é evitar tudo isso poupando de 5% a 10% da renda. "Somente 11% dos brasileiros fazem reserva para o futuro. Quem ganha R$ 1 mil, gasta R$ 1 mil, quem ganha R$10 mil, gasta R$ 10 mil, assim vira refém do sistema financeiro por 10, 20, ou 40 anos, o que é muito triste", avalia. Nesse aspecto, quem não consegue se organizar sozinho deve recorrer a um especialista ou alguém de confiança para assessorar. "Vamos poupar, poupar e poupar! Vamos ter uma reserva para o futuro", ressalta.

Como negociar um reajuste salarial

Na visão do bacharel em psicologia e diretor da Trend Recruitment, Marcelo Olivieri, para quem considera que é chegada a hora de conseguir um reajuste salarial, o caminho passa por solicitar uma reunião com o líder e com algum representante de recursos humanos, apresentar os resultados que vem entregando e sugerir que a empresa verifique a possibilidade de um aumento por mérito ou uma promoção. "Apresentar argumentos, trazer números e resultados sempre é mais efetivo do que simplesmente pedir um aumento". Ele também destaca que o colaborador deve mostrar quais são as motivações dele que estão por trás de conseguir aquele aumento ou aquela promoção, principalmente se elencar cursos como uma pós-graduação, um curso de extensão, fazer aula de idiomas, entre outros. "Isso aumenta as chances desse profissional de conseguir um reconhecimento ou, se a situação da empresa estiver desafiadora, pelo menos uma ajuda de custo com esses projetos que beneficiarão tanto o profissional, quanto a empresa. Para aqueles que também estão a um passo de se tornar gestores, minha dica é tentar deixar claras as suas motivações para seguir a carreira de gestão, em vez de carreiras mais especialistas, ou seja, ressalte que gosta muito de desenvolver pessoas e que se sentiria ainda mais motivado na empresa se lhe fosse confiado outros colaboradores ou mesmo uma equipe".

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