Possibilidades de carreira se ampliam no setor de games
Com mercado de jogos aquecido, crescem as oportunidades de emprego para quem tem afinidade com a área
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 27 de maio de 2019
Com mercado de jogos aquecido, crescem as oportunidades de emprego para quem tem afinidade com a área
Mie Francine Chiba - Grupo Folha 
À medida que o mercado de games cresce, mais oportunidades de emprego surgem para quem tem afinidade com essa área. Segundo levantamento da Newzoo, o número de jogadores no Brasil passou de 75,7 milhões em 2018. O faturamento da indústria foi de US$1,5 bilhão em 2018, 15% a mais que no ano anterior. O número de desenvolvedores de jogos cresceu 164% de 2014 a 2018, conforme o 2º Censo da Indústria de Jogos Digitais, do MinC (Ministério da Cultura) e da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

Ser jogador profissional de videogames é o sonho de muitos que João Giordano, de 21 anos, conquistou. Ele estava estudando Direito quando comprou seu primeiro PC gamer. Depois, pegou gosto pelos games e resolveu abandonar a faculdade para se dedicar somente à carreira de jogador profissional. Os pais, claro, não entenderam, mas hoje ele faz parte de um time profissional e ganha a vida com isso. “Você sobrevive bem e se dedica a treinar. A tendência é cada vez ter mais e mais (jogadores) no Brasil.”
Giordano foi contratado por um time de Rainbow Six Siege (jogo de tiro) depois de se destacar em uma competição. A game house (casa) e o game office (escritório) do time ficam em São Paulo. Como Giordano é da cidade, ele não mora com os outros cinco jogadores na game house. Mas a rotina dos jogadores começa às 15h e vai até meia-noite com treinos individuais, atividades psicológicas, preparação para o próximo jogo com o coach e o analista, treino com equipes, etc. O objetivo do jogador é ganhar uma competição mundial. Depois disso, há a opção de se tornar coach ou analista, por exemplo.

Marcelo Costa é jornalista e começou sua trajetória ainda no Brasil. Quando se formou, achou que iria trabalhar escrevendo sobre música, mas acabou indo parar em uma profissão que não imaginava: tester de tradução de games. Por causa dessa profissão, atualmente ele está em Madri, traduzindo jogos para a EA.
Todos os jogos são traduzidos do inglês, e a EA contrata em seu estúdio na Espanha uma equipe de falantes nativos de outras línguas para se assegurar que a tradução dos games games está correta. “Vem gente do mundo inteiro para testar o jogo”, conta Costa. Em 2015, ele trabalhou na tradução do Fifa. O tester conta que recebe o jogo antes de ser lançado. “A gente recebe jogos e testa do começo ao final desde a tradução da tela inicial, gameplay, até a mensagem que aparece quando você desconecta o controle.”

Em Curitiba, Felipe Oliveira largou o curso de Comércio Exterior para trabalhar no setor de games com um colega, em 2009, em uma importadora de jogos. Depois, teve a oportunidade de trabalhar para empresas famosas do setor, como Dell e Razer. Hoje, aos 28 anos e formado em Marketing, está à frente da 2.A.M., marca de computadores de alta performance, que é uma unidade autônoma da Positivo Tecnologia, e já soma 10 anos de experiência nesse mercado.
“Acabei chegando por acaso no mercado de games, por gostar muito de jogar. Sempre fui um exímio jogador, gastava muitas horas livres jogando.” Como a 2.A.M. é uma empresa que quer facilitar a vida do consumidor, gostar de games ajuda Oliveira a entender melhor as necessidades dos jogadores.
FALTAM PROFISSIONAIS ESPECIALIZADOS NA ÁREA
O mercado de games expande suas fronteiras independentemente da economia do País, diz Igor La Luz, gerente acadêmico nacional da SAGA, rede de escolas de games, arte digital, design gráfico e efeitos visuais. À medida que isso acontece, crescem também as oportunidades de emprego nas áreas que se relacionam com o setor, como o jurídico, de marketing e o de atendimento, por exemplo.
Segundo La Luz, o mercado de games brasileiro sofre com a falta de profissionais qualificados. “Estamos falando de um mercado que movimenta R$ 1,5 bilhão, é 13º no ranking global e o primeiro no mercado da América Latina, tem 75 milhões de gamers. Para isso precisa de mão de obra especializada.”
A Hoplon, estúdio brasileiro de games que lançou o jogo Heavy Metal Machines em 83 países, conta hoje com 55 desenvolvedores. Eles se subdividem em testers (que testam os jogos), arte (3D, 2D, técnica e efeitos visuais), game design – que cria as regras dos jogos, a história, como os personagens interagem entre si, etc, e programação (do jogo, dos servidores e dos efeitos visuais).

Hoje que as universidades já oferecem cursos de games, a empresa contrata profissionais formados nessa área. Porém, também já contratou engenheiros da computação, designers industriais e, com a chegada do Big Data e do BI (Business Intelligence), matemáticos e físicos, por exemplo. “Depende do projeto”, conta Eros Carvalho, gerente de desenvolvimento da Hoplon.
Como a demanda por profissionais especializados na área é alta e a oferta pequena, a empresa passou a oferecer um programa de estágio para ensinar estudantes, mesmo que de outros cursos, relacionados a games. “Temos várias vagas abertas, sempre temos, porque temos dificuldade de encontrar pessoas para atuar. Tanto que criamos o programa de estágio. Mais de 80% (dos funcionários) entra pelo estágio, fica um ano e é promovida para outra área.” Internamente, o estúdio também oferece programas para evolução da carreira.
GOSTAR DE GAMES NÃO É SUFICIENTE
Para Felipe Oliveira, da 2.A.M., só gostar de games não vai fazer de alguém um bom profissional do setor, mas é um começo. “Gostar é o principal. Precisa conhecer o mercado, os jogos, os consoles e os jogadores.” Além de gostar de games, o candidato a trabalhar na 2.A.M. precisa ser proativo e extrovertido, diz Oliveira. Expressar-se bem e tem bom relacionamento também contam, diz. Saber inglês é um requisito básico, ainda mais em um mercado global quanto o de games.
Para trabalhar na Hoplon, criatividade, autonomia e trabalho em equipe são as qualidades que o candidato deve ter, diz Eros Carvalho, gerente de desenvolvimento. Ele também precisa ter coragem para executar projetos. “Trabalhar com jogos é diferente de trabalhar com software. Você precisa estar sempre na crista da onda. Tudo precisa ser bem-feito, pois o cliente é muito exigente.” Além é claro, de conhecer 3D, escultura, ter ideia de proporção, iluminação, animação e ser bom em matemática, física, e todas aquelas matérias que na escola as pessoas pensavam que nunca usariam.
Mas no final, as recompensas são boas. Por ser um mercado global, é comum receber elogios vindos de outros países. “Uma das vantagens é conseguir atingir sucesso global, levar produto para fora. Não tem fronteiras para isso. O produto sai do Brasil e você recebe comentários da China, Coreia”, lembra Carvalho. E os salários são tão bons quanto ou maiores que o de um programador. Segundo o gerente da Hoplon, um programador do mercado de games pode ganhar de R$ 5 mil a R$ 10 mil.


