Passou? Então continue estudando
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de setembro de 2009
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Durante quatro anos, a bacharel em Direito Daiane Schwabe Minelli, 27 anos, dedicou-se a uma intensa rotina de estudos para enfrentar os concursos públicos. Mesmo depois de passar em um deles, continuou investindo nas concorridas provas como forma de garantir o futuro profissional. Só deixou de lado as apostilas quando foi nomeada para o cargo de tabeliã no Cartório de Protestos de Bandeirantes (Norte), em março deste ano. Determinada, Daiane fez a coisa certa: não se acomodou até conseguir, de fato, uma das funções almejadas.
O tempo de espera entre a aprovação e a nomeação costuma ser de grande expectativa, até porque não há garantia de que o candidato será convocado. A Constituição prevê que os concursos realizados no País tenham validade de até dois anos, prorrogáveis uma única vez e por igual período. Muitos não são homologados, aumentando o contingente de candidatos que, mesmo tendo comemorado o nome na lista dos aprovados, não consegue realizar o sonho de tornar-se funcionário público.
Por isso uma das principais dicas de quem entende do assunto é não criar expectativas e, se possível, continuar investindo em outros concursos. Para Bernt Entschev, presidente da De Bernt Entschev, empresa especializada em aconselhamento de carreira, o número crescente de interessados na estabilidade transformou os concursos, em muitos casos, em uma espécie de máquina de fazer dinheiro. ''São comuns as histórias de pessoas que não chegam a ser nomeadas, nos fazendo supor que as vagas não existem.''
Para Entschev, quem vive essa angústia deve ter a prudência como companheira. ''É preciso ter um pé no concurso público e outro na iniciativa privada'', recomenda. Ele lembra, inclusive, de casos em que a pessoa, enquanto aguarda a nomeação, consegue sair-se tão bem em outra atividade profissional que acaba desistindo do emprego público - uma modalidade de carreira que nem sempre oferece ótimos salários, mas que atrai pela estabilidade e possibilidade de promoções por tempo de serviço.
No caso de Daiane, o suporte financeiro para bancar as muitas viagens e taxas de inscrição vieram da família e das aulas que ministrou em uma faculdade, durante dois anos. Formada em 2004, a jovem dedicou um ano aos estudos para o concurso da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a uma pós-graduação. Nesse período também prestava concursos, para treinar. ''Concorri a vários cargos fora de Londrina, que eu sabia que não iria assumir.''
Quando soube do concurso para ingresso na carreira notorial e de registro, decidiu que era o que queria, mas o processo todo, desde o 1º edital à publicação da homolagação, durou quatro anos. ''Nesse meio tempo não parei, sabia que o ritmo de estudo tinha que ser mantido. Se a gente para, vai para o final da fila.'' E quem imagina que agora Daiane vai sossegar, engana-se: ''Vou continuar estudando para progredir na carreira''.
A mesma determinação está presente em Rudolf Minikowski Ziegler, 25 anos, que também experimentou o gosto amargo da incerteza. Aprovado em primeiro lugar para o cargo de técnico judiciário na Justiça Federal, no início de 2006, teve de aguardar quase seis meses para tomar posse. ''Fiquei angustiado, porque sei que não dá para ter certeza de nada até sair a nomeação. A gente enfrenta a cobrança da sociedade e também a cobrança interna. De repente, nos vemos em uma situação em que nada é certo, diferente da época de faculdade, em que tudo é previsível.''
Enquanto aguardava, Rudolf, que também é bacharel em Direito, prestou concursos para a Justiça Federal de São Paulo e Mato Grosso do Sul, onde os cargos são para nível superior. Na última quinta-feira foi nomeado para assumir o trabalho em São Paulo. ''O importante é continuar estudando, mesmo depois da aprovação. É melhor ter uma certa dose de pessimismo do que muita expectativa. Para quem tem condições, o melhor caminho é continuar persistindo até ser nomeado para o cargo.''


