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Os desafios e o valor dos cientistas no mercado de trabalho

Pandemia e avanços em prol da saúde populacional destacam a importância de profissionais da área; mas os investimentos no Brasil são poucos, como mostra a bióloga Ana Lúcia Tourinho em entrevista

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de março de 2021

Walkiria Vieira - Grupo Folha
AUTOR autor do artigo

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Formada em Biologia, a cientista brasileira Ana Lúcia Tourinho é mestre em Zoologia, especialista em aracnídeos e  taxonomia. Doutora há 12 anos, realizou o seu pós- doutorado em Harvard - quando já era uma pesquisadora respeitada. No Brasil, trabalhou no Instituto de Pesquisas da Amazônia (INPA) e hoje dá aulas na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Ana Lúcia Tourinho em trabalho de campo: para a bióloga, os desafios para os jovens que querem ser cientistas no Brasil continuam sendo a falta de investimentos
Ana Lúcia Tourinho em trabalho de campo: para a bióloga, os desafios para os jovens que querem ser cientistas no Brasil continuam sendo a falta de investimentos |  Foto: Arquivo pessoal
 

Em entrevista à FOLHA, num momento em que a ciência, mais do que nunca , é vista como um canal de esperança por conta da pandemia do novo coronavírus, ela fala como passou das brincadeiras com os  tubos de ensaio na infância à profissional respeitada em sua área. Também explica aos jovens que querem fazer carreira como cientistas que é preciso ter insistência e muita dedicação para alcançar este objetivo.  

Quais os desafios para seguir a carreira de bióloga e pesquisadora, como você fez?

Temos um problema estruturado na nossa sociedade que não estimula, não viabiliza, não demonstra e não permite  às meninas seguir a carreira científica - nem que a curiosidade, a viabilidade e habilidade sejam parte das aptidões e do caminho das que possam seguir  isso no futuro. A aspiração nunca esteve presente durante toda a minha infância, durante toda minha adolescência. Quando eu era criança, víamos ser demonstrado por estudos que as meninas são desestimuladas a pensar cientificamente, a pensar de forma coerente. Ao passo que os meninos são estimulados, às meninas não é dito  que elas possam ter um pensamento crítico para perceber a natureza e ter a sutileza para concatenar e juntar as coisas,  comigo não foi diferente.

Nunca pensei que minhas características me levariam a ser uma cientista. Já o meu irmão, que é o artista da casa, sempre foi estimulado, tinha dúvidas, fazia perguntas e  meu tio deu a ele um Atlas de Anatomia., e um outro lhe deu um kit com tubos de ensaio. Quem seguiu brincando com os kits de laboratório fui eu, como eu consumia muito os "brinquedos" dele isso acabou me alimentando. 

O que a inspirou a seguir uma carreira científica e a escolha pela Biologia?

Quando cheguei no Ensino Médio, decidi prestar Belas Artes, eu só gostava de desenhar e achava a  Biologia até dessincronizada, sem um fio  condutor. Mas eu devorava os livros, os documentários sobre  animais, chorava vendo os animais serem mortos e isso mexia profundamente comigo. Obviamente, eu já era a ambientalista e cientista que sou hoje. Faltava descobrir porque eu achava que aquilo ali não era para mim. E aí , quando sofri um acidente ao fim do Ensino Médio e não pude fazer a prova de habilidades específicas em Artes, comecei a repensar tudo e comecei do zero no ano seguinte no cursinho do pré-vestibular e, por meio dos professores e do método de ensino, comecei a ter um outro olhar para a área de biológicas.  Meu pai e minha mãe não estudaram, não sou de uma família de posses. Pensei em Medicina porque na minha época Biologia não era nem conhecida, meus tios nem sabiam o que um biólogo fazia. 

Mas entrei na faculdade para fazer Biologia e desde o primeiro minuto já sabia que queria Zoologia porque sempre gostei muito de estudar os animais, sua morfologia, suas interações, estudar a vida, a natureza, os ecossistemas, embora gostasse das plantas também. Logo passei a frequentar os laboratórios e fui sendo encaminhada. Foi muito difícil, não havia bolsas, recursos, nem posses, não tinha dinheiro para comprar o lanche, pagar o ônibus. Foi difícil e o processo seletivo deixa a desejar, mas insisti. Minha família é negra tem todo esse contexto, mas fiz mestrado, minha tese foi brilhante e a partir daí passei a ter reconhecimento e minha carreira explodiu dentro da minha área, comecei a ser convidada a realizar  trabalhos por conta de meus conhecimentos. Sempre executei meu trabalho com primor e estive nos postos de liderança e isso me faz acreditar que tive um indicativo por onde seguir,   apesar de tudo isso o sistema vai continuar não sendo muito gentil. Mas tudo isso foi me dando mais gana, fui me empurrando para mostrar a que vim. 

Em que momento decidiu estudar no exterior e quais as oportunidades que encontrou para isso?

Meu orientador sempre me incentivou a fazer o doutorado no exterior, pois acreditava no meu potencial. Mas as seleções são elitizadas, com viés de gênero, de raça, cheguei onde cheguei com muita dedicação e talento porque tenho muita força para persistir.  Não consegui doutorado no exterior, embora muitas pessoas pensem que fiz fora. Minha ida para o exterior foi mais tarde, quando eu já era uma profissional bem colocada e vários laboratórios queriam trabalhar comigo, fui convidada pelo Jeffrey Schutz em Maryland  (EUA) como colaboradora para  pesquisas sobre aracnídeos,  com isso as oportunidades vieram atrás de mim. Ganhei cotas para ir para o exterior por meio do Instituto Nacional de Pesquisas da  Amazônia (INPA), competi internamente e ganhei a bolsa de pós-doutorado em Harvard  e também levei uma aluna minha, lá eu passei três anos. 

Quais as oportunidades, a médio e longo prazo no Brasil, para um futuro biólogo?     

 Os desafios dessa área no Brasil são imensos. A biologia sempre foi uma área complexa, de grandes desafios e isso vem se acirrando e se tornando mais complicado, mais difícil com o passar do tempo. Sempre fomos vistos como vilões, vivemos um cenário de uma política assassina, mas não podemos esquecer que o próprio presidente Lula nos chamou de ecochatos e nos ridicularizou por sermos tecnicamente contra a abertura da BR 319, na Amazônia, e sua pavimentação. Se for para fazer é de outra forma. Ao mesmo tempo, nós cientistas somos  vistos pelas crianças e muitas pessoas como símbolos de esperança porque temos uma profissão bonita e lutamos pelo bem-estar. Isso até me emociona, porque para muitos, nós, ecólogos, somos os que lutam para salvar o planeta, a vida de outras pessoas.  

Hoje, com a pandemia do novo coronavírus, muito se fala da relação do surgimento dos novos vírus com a devastação das florestas. Você pode nos dar uma explicação sobre isso?

 Quando o ecossistema começa a ficar doente, os animais ficam doentes, as pessoas  ficam doentes,isso é um ciclo e  faz parte de como o planeta está estruturado. do passado até os dias atuais, os números aumentaram 400 mil vezes, é nesta velocidade que estamos aumentando o número de doenças . Com a destruição da florestas, temos perda de habitat e  essa relação já é conhecida. Inclusive se sabe que as doenças causadas por mosquito (dengue, zika vírus, febre chikungunya, malária e leishmaniose, por exemplo) têm uma relação intrínseca com o desmatamento. Quando se desmata mais, surgem os vírus. A fauna silvestre fica exposta e esses microrganismos se aproximam da gente.

Em que medida considera que o trabalho e o  papel da ciência e dos cientistas estão sendo valorizados no momento?

A valorização da ciência hoje não existe de fato. O que vemos é a sociedade se levantar, em todas as esferas - um exemplo é o MC Fiote que criou  o funk  "Bumbum  Tam Tam" - vemos vozes da sociedade defendendo a ciência, pois sabem que defendendo a ciência estarão defendendo a vida. Mas é só. 

Como você vislumbra  o futuro da ciência brasileira?

Os desafios para jovens continuam sendo os recursos financeiros. É muito difícil a vida de pesquisador no Brasil, um bolsista ganha pouco,  não tem férias, não tem plano de saúde, é vulnerável e isso provoca evasão. Infelizmente, não temos no Brasil um cenário positivo, as ofertas de emprego são baixas, há um volume de profissionais extremamente qualificados nos últimos 15 anos, mas a mão de obra científica recebeu incentivos e investimentos só até 2005. Desde então houve muita desistência e muitos cientistas procuraram uma outra profissão, como a de fotógrafo. As perspectivas não são positivas, infelizmente, principalmente pelo fato de ser uma carreira em que se investe muito para alcançar um grau de conhecimento, e quando se chega lá, não há vagas e há muitos profissionais em busca de uma oportunidade. Embora vejamos na atualidade os governos reconhecendo a importância dos cientistas, de nosso trabalho para se descobrir uma vacina como a que imuniza contra o Covid-19, precisamos que os políticos olhem com seriedade para o que está acontecendo porque na hora de uma pandemia percebem que precisam desse pessoal: dos cientistas, dos laboratórios e da mão de obra dessas pessoas. 

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