Curitiba - O mercado de trabalho não está fácil, sobretudo para as pessoas com mais idade. Competir por uma vaga ao lado de candidados mais jovens é quase certeza de derrota. Não pela falta de capacidade, mas pelo preconceito de quem emprega. A psicóloga Jamila Jaime, da Prisma Gestão de Pessoas, diz que as empresas dificilmente procuram empregar pessoas já aposentadas. ''Conseguimos preencher algumas vagas, mas que exigiam escolaridade mais baixa'', conta. Ela explica que as ofertas existentes são, na maioria das vezes, para setores domésticos ou operacionais. ''Das vagas gerenciais, não há nenhuma opção para aposentados''. Nos últimos dois meses, sete pessoas com este perfil procuraram a agência, mas nenhuma delas conseguiu emprego.
A mesma opinião tem a psicóloga Anelise Mira, da Mariah Empregos e Serviços. Ela explica que as propostas ficam no discurso. Na hora de contratar, a vaga fica para o candidato mais jovem. ''Existe muito preconceito. É uma pena, pois existem pessoas bem preparadas para atuar em determinadas áreas mas, pela idade, são descartadas'', explica.
Recentemente, Anelise atendeu pessoas na faixa dos 50 anos interessadas em trabalhar em cargos como motorista, porteiro, digitação e copeira. Até agora ninguém conseguiu uma colocação. ''É muito importante que essas pessoas trabalhem para evitar períodos de depressão. Eles querem permanecer ativos mesmo depois de aposentados. Mas, infelizmente, não encontram uma oportunidade''.
A profissional sugere que os interessados procurem Ongs que possam auxiliar nesta busca. Outro ramo que costuma abrigar mão de obra de pessoas com mais idade são os supermercados. Foi assim que o aposentado Jorge Ângelo dos Santos, 73 anos, conseguiu uma chance. Ele começou a carreira profissional aos 12 anos, fazendo bicos. Mais tarde serviu o exército e, em seguida, montou um escritório de contabilidade. Entre uma atividade e outra participava de apresentações de música italiana. Em 1983 se aposentou e ficou apenas com o canto.
Porém, os planos de uma aposentadoria tranquila não deram certo. Ele contribuía com a Previdência Social e pensava que teria direito a um bom benefício para viver. Mas não foi o que ocorreu. ''Criaram umas leis e a minha aposentadoria diminuiu. Hoje recebo só um salário mínimo'', reclama. Por isso, há dois anos ele resolveu procurar emprego. Atualmente trabalha na portaria de um supermercado. Diariamente, das 7 às 15 horas, Santos entrega os cartões de acesso ao estacionamento do local.
A rotina mudou a vida do aposentado e também a dos clientes. Com um largo sorriso no rosto e sempre uma boa história para contar, Santos cativa e alegra quem passa pelo supermercado. ''Tenho muito prazer em trabalhar'', conta.
A empresa em que Santos trabalha, a rede de supermercados Condor, acredita no potencial das pessoas mais velhas. A marca paranaense tem hoje 119 funcionários com idades entre 60 e 79 anos. Eles representam 2% de todos os empregados e trabalham como porteiros, recepcionistas, empacotadores ou no atendimento direto ao cliente. Segundo o diretor administrativo e financeiro da empresa, Wanclei Benedito Said, a troca de informações entre jovens e idosos também conta. ''A produtividade dos funcionários jovens é melhor. Porém, as pessoas com mais idade são muito simpáticas e têm maior experiência. Os novos acabam aprendendo muito com isso'', opina.
Nos anúncios de emprego, a empresa sempre procura colocar a existência de vagas para pessoas mais velhas. Isso tem atraído a atenção dos interessados. ''Algumas vezes essas pessoas se sentem sozinhas, pois os filhos casaram, ou perderam o parceiro ou amigos, então é um período caracterizado pela perda. O fato de se sentiram produtivas afasta a depressão'', explica a psicóloga da empresa, Annelise Marcengo.
Quem está aposentado e quer continuar a trabalhar tem vários desafios pela frente. O primeiro deles é superar o preconceito e provar que pode realizar determinado trabalho. Para isso, a psicóloga Anelise Mira dá a dica mais importante: nunca desistir.

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