Curitiba - O período de férias está em pleno vapor e as oportunidades geradas pelo descanso de muitos trabalhadores podem ir além de uma temporada no crescente, diversificado e valorizado mercado dos serviços relacionados ao ato de cuidar. Quem está na área garante que férias e anos como o atual, repletos de feriados e eventos, aumenta em até 40% a procura pelos chamados cuidadores, que podem direcionar o atendimento para pessoas (crianças ou idosos), passando pelos animais domésticos e plantas.

A variedade de demandas desse setor é tamanha, que justifica a expansão de cursos na área que capacitam sobre conhecimentos bem específicos como por exemplo o de cuidados de feridas oncológicas. Aqueles que investem suas economias ou somente o próprio tempo, já que há muita oferta de capacitação gratuita online e presencial, em qualificação para se profissionalizarem nesse mercado têm retorno garantido na remuneração de cada hora negociada e, dependendo do perfil, podem se tornar empresários do setor. É o caso do enfermeiro graduado pela Uniube (Universidade de Uberaba), supervisor de home care e, agora, empresário e fundador da Domus Saúde, Tiago Moraes de Oliveira. Ele concebeu o próprio negócio baseado na vivência como cuidador e na percepção da lacuna a ser preenchida no chamado mercado de cuidados. Morando em Londrina desde 2013, por conta de compromissos profissionais, ele estruturou uma empresa especializada em oferecer profissionais para o atendimento de pessoas nas diferentes situações (crianças, idosos, pós-cirúrgico, pacientes terminais, etc). "O objetivo é disponibilizar o profissional mais adequado às necessidades de cada situação envolvendo o cuidado de pessoas. Semanalmente fazemos entrevistas de seleção para o nosso banco de dados, a fim de que a cada nova procura, possamos oferecer de forma ágil as opções mais interessantes para determinado atendimento, diminuindo o risco de não haver adaptação e tornar ainda mais desgastante o processo para os envolvidos", explica.

O enfermeiro Tiago Moraes de Oliveira concebeu o próprio negócio baseado na vivência como cuidador
O enfermeiro Tiago Moraes de Oliveira concebeu o próprio negócio baseado na vivência como cuidador | Foto: Gina Mardones



Oliveira conta que na prática profissional observou o quão desgastante é para a família dos envolvidos ter que lidar com várias empresas e profissionais no mesmo ambiente. "Já trabalhei em casas em que havia três profissionais diferentes para cuidar de uma pessoa no mesmo turno, isso aumenta o nível de stress do assistido e da família. Em certos quadros, como um paciente com Alzheimer, isso representa um problema, uma vez que a troca excessiva de profissionais agrava a agressividade de quem desenvolve a doença", comenta. Apesar da visão empreendedora aguçada, o empresário faz uma ressalva para aqueles que estão buscando trabalho ou geração de renda. "Não dá tratar como um comércio de cuidados de uma pessoa fragilizada. Se a motivação for somente o dinheiro, procure outro caminho. Porque é um trabalho que exige entrega e comprometimento. A pessoa que precisa ser cuidada, principalmente nos casos de idosos ou doentes terminais, carece estabelecer uma parceria com o cuidador, do contrário, se o profissional se portar com um robô que está ali apenas para dar comida e limpá-lo, a relação não funciona e não consegue prosseguir por muito tempo", orienta.

Por esta razão que Oliveira diz selecionar desde pessoas no início da vida profissional, a partir de 18 anos e com pouca escolaridade até profissionais graduados nas áreas afins como Enfermagem, Nutrição e Fisioterapia. "Não abro mão de entrevistar pessoalmente cada profissional que irá compor o nosso banco de dados, justamente porque durante a entrevista eu busco perceber a vontade de cada um em fazer a diferença na vida de quem será cuidado por ele, levando alegria e amor com muito respeito pelos costumes de cada família, resiliência, paciência e jogo de cintura para lidar com o assistido e as pessoas do convívio dele", revela. "O foco da atividade de cuidador é preservar a dignidade e o conforto da pessoa. E garanto que a recompensa é o enorme aprendizado que temos com cada vida que temos a oportunidade de conhecer", acrescenta. Interessados em participar do recrutamento devem enviar o currículo para [email protected].

Segundo ele, a remuneração do profissional varia conforme o regime de contratação, a escala de trabalho e a formação. Em média, um cuidador que trabalha 44 horas semanas recebe por mês entre R$ 1,2 mil e R$ 1,5 mil. Profissionais com o curso técnico de enfermagem conseguem um ganho entre R$ 1,5 mil e R$ 2,5 mil. Já os graduados em Enfermagem ou áreas afins recebem entre R$ 1,8 e R$ 2,6 mil . "Tais ganhos pode ser multiplicados conforme a quantidade de atendimentos de cada profissional", ressalta.

Pet sitter: mercado bom para cachorro, gatos, peixes...

A zootecnista Daiane Regonato Franco deixou o emprego formal e com salário garantido no final do mês, há quase três anos, para empreender em um negócio próprio, a RS Mascotes, que oferece um conjunto de serviços relacionados aos cuidados dos animais domésticos (cachorros, gatos, peixes, tartarugas e outros animais), em Curitiba. "Gatos e cachorros interagem mais, mas é possível estimular até tartarugas. Quem possui esses animais sabe do que estou falando", esclarece. Segundo Daiane, a mudança na forma de conduzir a carreira foi certeira. "Desde a faculdade, sempre me atraiu a parte de trabalhar com o comportamento animal e, com esse conjunto de serviços que ofereço, costumo dizer que faço terapia o ano todo com os meus clientes (bichos)", garante. Ela conta que a satisfação em trabalhar com o que ama vem acompanhada de um controle apurado do custo de cada serviços oferecido. "Cobro por atendimento cuja duração é de 40 minutos, mas no caso de pett sitter (limpeza+alimentação) o preço varia conforme a localização", explica.

A zootecnista Daiane Regonato Franco deixou o emprego formal para se tornar uma pet sitter
A zootecnista Daiane Regonato Franco deixou o emprego formal para se tornar uma pet sitter | Foto: Arquivo pessoal



O adestramento normalmente é comercializado por meio de pacotes com cinco aulas, cada uma de até uma hora de duração. E os passeios dependem da frequência na semana, podendo variar de R$ 110 por mês, para uma vez por semana, até R$ 450 por mês para cinco vezes de segunda a sexta-feira, sempre com a duração de até uma hora. A renda da zootecnista varia de R$ 2,3 mil a R$ 3,5 mil, sendo que férias e feriados impactam sobremaneira nos ganhos da empreendedora. "Triplicou o número de atendimentos nas férias. Particularmente, adoro passar meus feriados com os bichinhos. Os interessados, podem procurar pelos serviços de Daiane na página da RS Mascotes no Facebook (https://www.facebook.com/rsmascotes).

Antídoto para o desemprego

Diante de um cenário com uma insistente taxa de desemprego em dois dígitos para 2018 (projeção do Credit Suisse para o Brasil é uma taxa de 12% para 2018), agravada pelo desaparecimento de várias atividades laborais, serviços relacionados ao ato de cuidar trazem oportunidades e valorização condizentes com o grau de qualificação de cada trabalhador e com perspectiva demanda crescente frente às mudanças da sociedade. "Cada vez mais as pessoas vão ter que se adaptar às novas realidades, ao novo modelo de mercado e os serviços domésticos e de cuidados seguirão bastante procurados. Além disso, basta olhar as projeções sobre o emprego no Brasil, para ter certeza de que há de procurar outros caminhos de geração de renda, já que as vagas geradas pelo emprego formal não serão suficientes", aponta o engenheiro civil, professor de Comportamento do Consumidor da UP (Universidade Positivo) e da Esic Business & Marketing School, Sady Pezzi.

Responsável pela empresa de consultoria Sady Pezzi Soluções Empresariais, ele defende que o mercado de serviços de cuidados é um boa opção, mas quem quer apostar nesse caminho deve ter em mente o objetivo de prover. "Ao invés de resolver apenas o seu problema de renda, você precisa estar comprometido em resolver o problema de alguém. Assim você buscará a preparação adequada para atender a demanda e agregará valor ao serviço oferecido, porque o cliente perceberá o valor da sua solução", resume Pezzi.

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