A mentira é um vício que faz parte da educação ou cultura em que determinada pessoa está inserida. E, em geral, começa a ser praticada na vida pessoal, sendo transferida, na sequência, para a vida profissional - e é justamente aí que mora o perigo.
O candidato a uma vaga de emprego quer, de todas as formas, aumentar as chances de sua contratação para determinado cargo e, então, mente ou omite a idade, local de moradia, grau de instrução, cursos que nunca passou nem perto de fazer, entre tantas outras informações.
São várias as formas de mentir e de convencer o selecionador de que aqueles dados são fiéis à realidade. Mas, do outro lado da mesa, os profissionais de recursos humanos são enfáticos: toda mentira, uma hora ou outra, será descoberta.
''A mentira pode acontecer em qualquer fase do processo, mas não adianta. Temos meios de descobrir, pois somos treinados para fazer o candidato cair em contradição'', afirma a psicóloga Luciana Boschi, diretora de uma empresa de soluções em grafologia e RH de São Paulo.
Há situações que se tornam realmente insustentáveis. Passada a mentira no momento da seleção, se o candidato ingressa na empresa, muitas vezes cai em contradição ou deixa transparecer a falta de preparação para o cargo por não conseguir segurar a máscara durante muito tempo.
Para a psicóloga, o tempo de validade de uma mentira dessas geralmente não ultrapassa os três meses de experiência. ''Muitas são as razões que levam alguém a mentir, e já peguei várias delas. Alguns mentem porque acham que não vamos descobrir e querem levar vantagem. Outros mentem por medo de perder a oportunidade. É comum, porque o mercado está muito competitivo e os candidatos fazem qualquer coisa para se recolocarem, mas em geral, se a pessoa mente, uma hora ou outra ela acaba se traindo. E todos descobrem que não era bem do jeito que ela se vendeu. Por sorte isso costuma acontecer antes dos três meses, e a pessoa perde a confiança da empresa'', explica.
Luciana lembra que uma vez ela chegou a pedir ao candidato que escrevesse uma redação de próprio punho e a entregasse na fase posterior. Ele teria dado a redação para a esposa fazer e caiu em contradição na hora dos comentários. A mentira foi, então, desmascarada.
O executivo de São Paulo Luciano Amato também relata caso que envolve mentira. Há sete anos, ele comenta que, terminado todo o processo de seleção para uma vaga, flagrou a mentira na hora do candidato entregar a documentação.
''A vaga exigia formação superior e no currículo indicava que havia concluído o 3º grau. Como a entrevista não prevê a apresentação de documentação, mas sim a identificação da competência alinhada aos objetivos organizacionais - e o candidato as tinha - ele foi aprovado. Porém, ao ser solicitado os documentos para a admissão, ele não apresentou no prazo previsto. E como a empresa só procedia à admissão e registro com os documentos à mão, o processo foi adiado. Foi uma surpresa para nós quando ele informou que não tinha concluído o curso. Depois de algumas reuniões internas, e de tentar entender o contexto da atitude do candidato, decidimos cancelar a contratação, baseados na ética e quebra de confiança'', ressalta.
Confiança, aliás, é a palavra chave da relação funcionário-empresa. E quando ela é perdida logo no momento da contratação, dificilmente o processo é revertido a favor do colaborador. ''Qualquer relação que começa sem transparência, está fadada ao insucesso'', confirma Amato.

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