O advogado Rafael Cielici Pires, de 29 anos, pode surpreender alguns novos clientes com seu braço "fechado" de tatuagens. Os desenhos, que descem do ombro até o pulso, representam sua fé e estilo de vida, e normalmente ficam aparentes, mesmo em seu ambiente de trabalho. "Sou autônomo, tenho meu próprio escritório, e acabo usando a manga da camisa dobrada. Então boa parte do desenho aparece. Só escondo as tatuagens quando tenho novos clientes ou em audiências". E mesmo assim, segundo ele, somente em audiências formais. "Quando é audiência de conciliação, acabo indo assim mesmo", conta.
O jovem começou a tatuar o corpo aos 28 anos, idade avançada em relação à maioria dos apaixonados pela arte. "Primeiro fiz duas tatuagens menores no antebraço, e logo em seguida o projeto para fechar o braço todo. Minha tatuagem fala da morte, na parte de cima, com desenhos de caveiras, e segue mostrando a vida. Ela representa minha fé e, também, tem uma guitarra, porque representa meu estilo". Ele garante que quem não o conhece e o encontra na rua, de camiseta, ou mesmo tocando guitarra em uma banda que é integrante, não imagina que ele é advogado.
Apesar de hoje estar vivendo tranquilo com o estilo que gosta, principalmente por ter o escritório próprio, ele conta que já enfrentou alguns contratempos por conta de adereços. "Antes de ter tatuagem, eu trabalhei em um banco privado, e precisava esconder meu piercing na língua. Também tinha que tirar os cinco brincos que eu usava, todos os dias, para poder trabalhar. Hoje, por uma questão de estilo, abandonei esses adereços. Mas quando vou ao mesmo banco, vejo funcionários com tatuagens menores no braço ou nas pernas, e antes não podia mostrar. As coisas mudam", avalia.
Para o médico Vinícius Menegazzo, de 28, a área da saúde é ainda mais complicada de aceitar o "diferente". "Não podemos ter piercings ou adereços no rosto, por exemplo, por uma questão de orientação da classe. Tatuagens no pescoço, mãos ou lugares onde o jaleco não esconde também não são recomendados", conta ele, que tem tatuagem nos dois braços.
Ele conta que, às vezes, acaba trabalhando sem jaleco na Unidade Básica de Saúde (UBS) onde atende, e alguns pacientes ficam "observando" os desenhos. "Mas já aconteceu de chegar um casal todo tatuado, bem estiloso, que a enfermeira disse que eu ia atender. Nesse caso, me aproximou deles, e eles acharam muito bacana". Já em uma entidade religiosa onde atende, em Apucarana, ele afirma que não pode andar sem cobrir os desenhos. "Um dia esqueci, e as irmãs ficaram um pouco assustadas. Elas ainda acham estranho, e eu tenho que tomar cuidado".
A família, segundo ele, não apoia, mas aceita. "Eles não falam nada, mas eu sei que não gostam. Eles respeitam porque eu gosto, é meu estilo. Mas tomo cuidado porque sei que na minha profissão não é tão simples, não posso tatuar as mãos, por exemplo. E a maioria dos meus colegas também escolhe esconder os desenhos, pensando na tradição da profissão", finaliza. (P.B.O.)

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