Jovens devem ter paciência e disposição para aprender
Manter-se empregado exige saber usar da criatividade e impulsividade comuns à idade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 20 de maio de 2019
Manter-se empregado exige saber usar da criatividade e impulsividade comuns à idade
Erika Gonçalves - Grupo Folha 
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua Mensal mostrou que no trimestre móvel entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019, foi registrado um crescimento na taxa de desocupados do Brasil, chegando a 13,1 milhões de pessoas. Grande parte desse número compreende os jovens, que por inúmeras razões, como falta de qualificação profissional, não conseguem uma primeira oportunidade no mercado de trabalho.
Neste período, enquanto a taxa de crescimento da ocupação (trabalho formal ou informal) foi de 0,9%, entre as pessoas de 18 a 24 anos não houve crescimento e sim, retração de 1,3%. Mesmo quem consegue passar por esse primeiro desafio e conquista o primeiro emprego precisa estar atento para manter a vaga.

Paulo Sardinha, presidente da ABRH-Brasil, explica que o estágio é a “grande porta” de passagem para o emprego e que as empresas maiores costumam ter, numericamente, mais oportunidades, podendo receber mais jovens.
“Fazendo um recorte por faixa etária, os jovens costumam ser os mais castigados pelo desemprego. Há uma oferta maior de jovens então eles concorrem entre si. Naturalmente são mais inquietos e isso não é um defeito. Eles costumam ser mais inovadores, têm criatividade de sobra e devem fazer uso disso tudo, tendo apenas cuidado na forma de fazer”, alerta.
O especialista recomenda que o jovem observe a cultura, os valores e os princípios da empresa em que estiver, levando em consideração que ela deve ser mais velha do que ele. “Ele precisa saber pegar suas ideias e colocar nas empresas. Via de regra o problema não é essa inquietação, mas a forma como eles colocam. Por exemplo, o jovem fica insatisfeito com determinada situação e vai até a chefia reclamar. A recomendação é que não faça isso na hora, espere um bom momento, quando ele estiver bem, quando a chefia estiver bem. O momento da crise é quando somos impelidos a falar mas é melhor esperar.”
Sardinha aponta também que as empresas não costumam ter um “ouvido organizacional” para os jovens e que o ideal seria criar canais específicos para ouvi-los.
Outra dica para manter a empregabilidade, segundo ele, é aprender a cultivar relacionamentos e equilibrar sonhos e realidade. “As empresas são mais formais, existe uma hierarquia. Ele precisa ter paciência porque está entre senhores, não entre seus amigos de balada. Digo que existem três grupos com quem nos relacionamos: o familiar, o educacional e o profissional. Esse terceiro mundo impõe certas dificuldades, o jovem precisa ter paciência, calma e atenção e estar disposto a aprender. Precisa fazer seu network, que significa cultivar relacionamentos sólidos.”
Qualificação entre os jovens da comunidade
Preocupada em qualificar melhor os jovens, a comunidade Evangélica Deus Vivo do Jardim Acapulco promoveu recentemente uma palestra com a psicóloga, professora universitária e consultora organizacional Filomena Mineto, que falou sobre a “Empregabilidade dos jovens em tempos de crise”. Segundo o pastor Vlademir José da Silva, o objetivo deste tipo de palestra é fazer um trabalho diferenciado com os jovens, capacitando-os para que possam se encaixar no mercado de trabalho.
Em formato de conversa, Mineto explicou como fazer um currículo adequado, como se preparar e se comportar na entrevista e ainda o que fazer enquanto a sonhada vaga não surge. Segundo ela, a maior dúvida dos mais jovens é justamente como conquistar o primeiro emprego, já que muitas empresas pedem experiência. “Uma hora alguém vai dar uma chance. O mercado está aberto ao jovem, as empresas buscam pessoas que queiram se desenvolver com ela, que possam empreender juntos. Enquanto isso, é preciso buscar qualificação, fazer estágio, cursos, se relacionar e fazer network. O jovem não pode perder a motivação”, destaca.
Entre os requisitos mais desejados, além de uma boa qualificação, a especialista elenca pessoas que tenham boa vontade, liderança, habilidade para trabalhar em equipe, boa comunicação, flexibilidade, resiliência, equilíbrio emocional e também proatividade. “A faixa entre 20 e 25 anos com certeza é bastante atingida pelo desemprego, justamente pela baixa qualificação que aliás, afeta todas as faixas etárias. Os mais jovens também sofrem com a falta de foco, de alinhamento profissional e isso é fundamental em uma entrevista. Eles precisam também buscar fazer bem feito aquilo que se propõem a fazer”, ensina.
Realinhando o rumo
Formado em Técnico em Administração, Allyson Vinícius Mainardes Almeida, 20, está há quatro meses buscando uma colocação. Ele conta que já trabalhou durante um tempo como menor aprendiz e tem três experiências anteriores. “Meu primeiro emprego consegui rápido, já os outros dois foram mais complicados, porque eu ainda não tinha terminado o Ensino Médio”, justifica. Bastante participativo durante toda a palestra, ele não perdeu a oportunidade de tirar suas dúvidas e já sabe o que precisa ser revisto.
“Já deixei muitos currículos e fiz duas entrevistas. Sinto um pouco de dificuldade porque as empresas dizem que vão ligar dentro de alguns dias, mas não ligam, você fica esperando, não sabe se liga de volta ou não. Vi que não estava tão bem preparado, agora já vou melhorar meu currículo”, diz.
Em busca de sua primeira oportunidade com a carteira assinada, Juliana Batista de Souza, 20, tem o Ensino Médio completo e trabalhou durante alguns meses sem registro. Ela reclama da dificuldade em conseguir o primeiro emprego, justamente porque não tem experiência. Contudo, a partir da palestra identificou o que precisa melhorar. “Meu currículo estava errado e pelo que ouvi, também me portei errado nas entrevistas. Sei que preciso me esforçar mais, mas fiquei muito motivada”, garante.
É preciso dedicar um tempo para a qualificação, diz especialista
Filomena Mineto diz que de forma geral não falta emprego e sim pessoas qualificadas. Uma das áreas que mais crescem e onde sempre há demanda por profissionais bem treinados é a Tecnologia da Informação. Com empresas multinacionais se instalando em Londrina, quem deseja conquistar uma das vagas precisa estar em constante atualização, dica que serve para todas as áreas.
“Investimento custa tempo e dinheiro, muitas vezes é preciso abrir mão de algumas coisas, não é fácil. Mas há muitos cursos gratuitos na internet, para isso é preciso dedicar tempo. É preciso sempre estar se dedicando, ter disciplina e empenho. Mesmo quem está empregado precisa estar atualizado, buscar um diferencial.”
A consultora também dá dicas de como distribuir o currículo. Além dos sites das empresas contratantes, ter uma conta no Linkedin, uma rede social específica para relacionamento profissional é importante. Embora o Sine (Sistema Nacional do Emprego) seja uma referência, as agências de trabalho particulares também podem ajudar a encontrar uma vaga.
Fazer um currículo simples e direto, não usar decotes, roupas curtas, bonés e bermuda, falar corretamente, não usar gírias, não exagerar no perfume nem na maquiagem. Quem está acostumado a procurar por uma vaga pode dizer que não há nada de novo nessas orientações, mas nunca é demais reforçar quando se trata de quem busca sua primeira vaga.
A consultora deu todas as dicas para quem quer conquistar chance de uma entrevista e ser aprovado nela. “Recebemos muitos currículos e apenas 5% geram entrevistas. Cerca de 80% são descartados. Por isso é importante fazer um bom currículo. Ele deve ser feito em folha branca, tamanho A4, sem desenhos e com no máximo duas páginas”, ensina.
Foto só deve ser anexada se a empresa pedir e neste caso, deve ser uma 3x4, escaneada. A pretensão salarial segue o mesmo critério: só colocar valores caso sejam solicitados, mas atenção, nesse caso é preciso saber a média salarial do mercado. Referência também não é obrigatório, mas caso opte por colocar, indique dois contatos profissionais ou educacionais, com nome completo, cargo e telefone apenas.



