Tarefas monótonas e repetitivas, como processamento da folha de pagamento, gerenciamento de benefícios e triagem de candidatos podem sugar a energia criativa e impactar diretamente na saúde mental e no engajamento dos profissionais que atuam no setor de Recursos Humanos (RH) das empresas. A pesquisa “Transformação digital do RH”, realizada pela Think Work, em parceria com a Flash, em 2024, revelou que, em média, os profissionais de RH gastam 16,9 horas por semana em atividades de baixa complexidade, o que representa 38% da sua semana de trabalho. Mas, a automação de processos e o uso de inteligência artificial (IA) prometem romper com esse ciclo retirando das mãos dos colaboradores da área as tarefas burocráticas para que possam focar em atividades estratégicas do negócio.

O levantamento, realizado com 303 profissionais de RH de todo o Brasil, que atuam em empresas com faturamento que vão de R$ 20 milhões a mais de um R$ 1 bilhão por ano, mostrou que a automação é capaz de reduzir em até 35% o tempo gasto em tarefas repetitivas. O estudo revelou ainda que o ganho médio de produtividade com essas ferramentas tecnológicas poderia chegar a 13%, o que se traduz em um departamento mais eficiente e capaz de influenciar em decisões.

Na percepção dos RHs, a adoção da IA traz benefícios significativos, como a redução de tempo nas tarefas (61%) e a liberação para atividades táticas (59%), permitindo que o setor se concentre mais na formulação de iniciativas que aceleram os resultados do negócio. Além disso, a automação ajuda a reduzir custos operacionais (49%) e melhora a qualidade das entregas (43%), trazendo precisão e consistência.

VALOR ESTRATÉGICO

Nas empresas que veem o RH como uma área estratégica, com alto nível de entrega, 60% já iniciaram a transformação digital, enquanto apenas 9% não deram esse passo. Os números reforçam que, quanto mais o RH evolui digitalmente, maior é a percepção de seu valor estratégico para o negócio. Na Vectra, incorporadora de alto padrão com sede em Londrina, norte do Paraná, a transição para o digital já é realidade no departamento de Gente e Gestão. A empresa utiliza uma ferramenta de Desenvolvimento Humano e Organizacional (DHO) que tem na sua base a inteligência artificial. Entre as funcionalidades, a opção de filtros diversos para a busca de perfis e currículos de candidatos por meio de palavras-chave, além do desenho de perfis de profissionais a partir do mapeamento da necessidade do gestor para selecionar aqueles mais compatíveis.

“Levamos, em média, sete segundos para realizar a triagem de um currículo. Contamos com uma base de 1,5 mil cadastrados e recebemos inúmeros por dia. A ferramenta nos apresenta as aplicações mais aderentes, encurtando o nosso tempo de triagem e nos possibilitando focar na entrevista e nas análises técnicas do candidato”, afirma a analista de Recursos Humanos da construtora, Leticia Gubani.

Leticia Gubani, analista de RH da Vectra: "A IA encurta o tempo de triagem de currículos e possibilita focar na entrevista e análise técnica dos candidatos"
Leticia Gubani, analista de RH da Vectra: "A IA encurta o tempo de triagem de currículos e possibilita focar na entrevista e análise técnica dos candidatos" | Foto: Divulgação

Ela lembra que, antes da ferramenta, o departamento recebia currículos por e-mail, WhatsApp e impressos, por isso, era necessário separar espaço físico e digital, no servidor da empresa, para armazenar todos os documentos. O trabalho de triagem era mais difícil, pois demandava verificar o e-mail e a caixa de spam todos os dias. Além disso, havia a dificuldade em lidar com arquivos corrompidos ou que não abriam. Era necessário dedicar tempo para responder a mensagem e pedir o reenvio do currículo, um retrabalho. Segundo a analista, também não havia uma forma simples de puxar palavras-chave ou de ter o currículo do candidato com um simples toque no computador.

“Mas é importante ressaltar que, por mais que a IA nos ajude muito no processo de seleção de pessoas, não deixamos de ter o olhar e o toque humano. Diariamente, fazemos a triagem dos candidatos que cadastram seus currículos em nossa plataforma, garantindo que nenhum talento passe despercebido”, observa Leticia.

Na visão dela, a transformação digital é um processo desafiador, que exige uma mudança de mindset e a disposição dos profissionais de RH de estarem abertos a aprender e entender como podem usar a IA a seu favor, criando parâmetros e aperfeiçoando a ferramenta de acordo com as necessidades da empresa. Ela conta que, na Vectra, a IA está presente em todas as etapas de DHO, da triagem de currículos, admissão digital, armazenamento na nuvem, aplicação de testes comportamentais e provas técnicas, a avaliações de experiência e desempenho. No ciclo de gestão estratégica de performance, a tecnologia oferece um roteiro para apoiar o feedback e o Plano de Desenvolvimento Individual (PDI) com base na avaliação e histórico do colaborador.

TRANSFORMAÇÃO É LENTA

Embora a tecnologia prometa melhorias significativas na produtividade e satisfação dos profissionais de RH, a transformação digital no setor ainda avança a passos lentos. A pesquisa mostrou que apenas 6% das empresas se consideram maduras digitalmente nesse departamento, enquanto 40% ainda não iniciaram movimentos práticos para a digitalização. Cerca de 40% das organizações não fizeram nenhum movimento concreto nessa direção: 22% sequer consideraram a digitalização do RH, e 19% já pensaram no assunto, mas não tomaram ações práticas.

Os dados mostram que, apesar dos avanços, a maioria das empresas ainda têm um longo caminho a percorrer para adotar plenamente as tecnologias que podem transformar a gestão de pessoas. Além da baixa adesão, outros desafios em relação ao uso da IA no RH estão ligados ao medo da perda de emprego, altos custos de implementação, falta de uma cultura orientada à tecnologia e desconfiança. O CEO da Corelab e especialista em tecnologia, Thiago Zampieri, destaca que ferramentas de IA não eliminam cargos, mas transformam suas funções. Em vez de se dedicarem a tarefas operacionais, os profissionais de RH podem assumir papéis mais estratégicos e consultivos, impulsionando o crescimento organizacional.

O CEO da Corelab, Thiago Zampieri, enxerga a IA como aliada do setor de RH e não concorrente
O CEO da Corelab, Thiago Zampieri, enxerga a IA como aliada do setor de RH e não concorrente | Foto: Divulgação

Zampieri diz que é importante enxergar a IA como uma aliada e não uma concorrente, pois ela ajuda a automatizar tarefas repetitivas, mas não substitui a empatia, o julgamento humano e a habilidade de construir relacionamentos, que são elementos essenciais no departamento de Recursos Humanos. Para o especialista, a adoção da tecnologia é inevitável e quem implementar primeiro terá uma vantagem competitiva significativa. Empresas que resistem à transformação digital correm o risco de ficarem para trás em um mercado cada vez mais dinâmico e competitivo.

“Negócios que já utilizam ferramentas de análise preditiva conseguem antecipar necessidades de contratação e reduzir gargalos no desempenho, enquanto concorrentes mais tradicionais continuam enfrentando desafios com processos manuais”, aponta.

PESSOAS E TECNOLOGIA

O futuro do RH está na integração entre tecnologia e pessoas. A IA não deve ser vista como uma ameaça, mas como uma aliada para potencializar o trabalho humano e promover uma gestão de pessoas mais inteligente e estratégica. Corporações que abraçarem essa transformação estarão não apenas garantindo seu lugar no mercado, mas também criando ambientes mais produtivos e alinhados com as demandas do futuro.

A psicóloga Organizacional do Grupo A.Yoshii, Paola Alvanham de Carvalho, relata que a inteligência artificial (IA) está integrada ao processo de recrutamento e seleção. "Desde abril de 2024, utilizamos o LinkedIn Recruiter, que permite identificar e conectar candidatos de forma mais eficiente, por meio de algoritmos que analisam perfis e experiências relevantes".

Segundo Carvalho, a ferramenta possibilita a busca ativa por candidatos alinhados ao perfil desejado, utilizando filtros booleanos, criação de projetos personalizados e envio de mensagens direcionadas, tornando o processo mais eficaz. "Além disso, adotamos a Job Convo, uma solução que automatiza a triagem de currículos, empregando tecnologias avançadas para analisar objetivamente experiências anteriores, habilidades e critérios de desempenho dos candidatos", explica.

Paola Alvanham de Carvalho, psicóloga do Grupo A. Yoshii: IA integrada ao processo de recrutamento e seleção de candidatos aos empregos
Paola Alvanham de Carvalho, psicóloga do Grupo A. Yoshii: IA integrada ao processo de recrutamento e seleção de candidatos aos empregos | Foto: Divulgação

A psicóloga explica ainda que a adoção de inteligência artificial (IA) no processo de recrutamento e seleção visa assegurar que as decisões sejam fundamentadas em dados objetivos, minimizando vieses relacionados a características pessoais e fatores subjetivos."Uma das etapas mais morosas desse processo é a triagem de currículos; com a implementação de IA, conseguimos reduzir significativamente o tempo dedicado a essa atividade. A tecnologia analisa dados e informações dos candidatos, identificando padrões que podem não ser imediatamente evidentes ao olhar humano".

Além disso, esclarece que a IA permite a automação de tarefas repetitivas, como a classificação de currículos, aumentando a eficiência do recrutamento. Ao aplicar filtros e analisar palavras-chave específicas, é possível concentrar esforços nos candidatos mais alinhados ao perfil desejado. "Essa abordagem não apenas acelera o processo, mas também melhora a precisão na seleção, contribuindo para decisões mais informadas e eficazes", ratifica.

* Com assessoria.

* Colaborou: Walkiria Vieira.
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