Inteligência artificial e mercado de trabalho: o que muda?
Para o professor Clayton Santos do Couto, da PUC-PR, o uso da IA no campo jurídico já transformou o modo como o Direito é ensinado e praticado
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de novembro de 2025
Para o professor Clayton Santos do Couto, da PUC-PR, o uso da IA no campo jurídico já transformou o modo como o Direito é ensinado e praticado

Cada vez mais presente no cotidiano, a Inteligência Artificial (IA) também é uma realidade no mercado de trabalho. De acordo com a Pesquisa de Inovação Semestral (Pintec Semestral), publicada recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o uso da inteligência artificial faz parte da rotina de quase metade (41,9%) das empresas com 100 ou mais pessoas, um crescimento de 25% desde 2022.
Levantamento do McKinsey Global Institute, estima que a Inteligência Artificial deverá automatizar cerca de 800 milhões de empregos até 2030. Mas esse número não deve ser compreendido de modo temeroso, pois a IA abre espaço para o surgimento de novas profissões: especialista em cibersegurança de IA, analista de ética em IA, analista de dados avançado, gestor de transformação digital, engenheiro de prompt, são exemplos.
O estudo realizado pela Microsoft lista as profissões com maior índice de aplicabilidade da IA: intérpretes e tradutores, historiadores, representantes de vendas, redatores e autores, atendentes de suporte ao cliente, programadores de CNC, operadores de telefonia, agentes de viagens, locutores e radialistas. Já as menos impactadas são: operador de draga, operador de ponte e eclusa, operador de estação de tratamento de água, fundidor e moldador, operador de máquina de instalação e manutenção de trilhos
TRANSIÇÃO E MATURIDADE
Coordenador Adjunto do Curso de Direito - Núcleo de Prática Jurídica Pontifícia Universidade Católica do Paraná - campus Londrina, Mestre em Direito Econômico e Socioambiental, o advogado e professor Clayton Santos do Couto, compreende que o uso da inteligência artificial no campo jurídico já é uma realidade incontornável. "Mas ainda em estágio de maturação. O que se observa atualmente é um movimento de transição: a IA deixa de ser vista como ameaça e passa a ser encarada como ferramenta de ampliação cognitiva. O profissional que sabe integrar a IA à sua capacidade analítica, ética e interpretativa ganha vantagem", observa.
Segundo Couto, a IA já transformou o modo como o Direito é praticado e ensinado. "Mas a essência do trabalho jurídico continua sendo humana — compreender, interpretar, argumentar e decidir com base em valores, e não apenas em padrões objetivos. Assim, a IA pode oferecer ferramentas valiosas, mas não pode substituir o julgamento humano, pois o Direito é interpretativo, contextual e valorativo. A IA apoia o trabalho dos magistrados, advogados e estudantes, mas não decide — ela organiza e qualifica a gestão da Justiça, preservando o caráter humano das decisões judiciais", afirma.
"Hoje, observamos o uso de IA em diversas atividades jurídicas, como para: apoio técnico-operacional, com ferramentas de automação de tarefas repetitivas, leitura e classificação de documentos, elaboração de minutas contratuais, pesquisa jurisprudencial e geração de petições-modelo, na tomada de decisão e análise preditiva, e, ainda, o Poder Judiciário tem utilizado a inteligência artificial para tornar sua atuação mais rápida, eficiente e transparente, sem substituir o trabalho humano. As principais aplicações estão na triagem e classificação de processos, gestão de precedentes e análise de dados para planejamento institucional".

IA NÃO É AMEAÇA
Longe de ser uma ameaça ao mercado, a IA não vai substituir o advogado. "Mas vai substituir o advogado que não souber usá-la, pois a inteligência artificial tem um enorme potencial de automatizar tarefas repetitivas e operacionais, como a extração de dados, a análise de jurisprudência, a minuta inicial de contratos ou petições padronizadas. Esses são processos que, tradicionalmente, demandavam tempo e esforço humano, mas que não envolvem propriamente atividade intelectual complexa ou interpretação jurídica", pontua.
"Neste sentido, a IA transforma o perfil da advocacia, mas não a extingue. O profissional que compreende a tecnologia e a integra ao seu raciocínio jurídico ganha produtividade e qualidade analítica. Já aquele que permanece apenas executando tarefas mecânicas, sem agregar valor interpretativo, tende a ser substituído — não pela IA, mas por colegas que a dominam".
O que muda, portanto, segundo o professor, e é o tipo de trabalho jurídico valorizado. "As atividades puramente repetitivas tendem a desaparecer; em contrapartida, cresce a demanda por advogados capazes de formular estratégias jurídicas com base em dados processados por IA, interpretar criticamente os resultados gerados por algoritmos, atuar em novas áreas (como direito digital, proteção de dados, regulação de IA e ética tecnológica), e desenvolver soft skills — empatia, comunicação, criatividade, pensamento crítico — que são insubstituíveis por máquinas", ratifica.
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"A inteligência artificial, quando usada com ética, responsabilidade e supervisão humana, pode ser uma poderosa aliada na democratização do acesso à Justiça e na eficiência do sistema jurídico brasileiro. Os benefícios se manifestam em diversas dimensões." É o que sustenta o advogado. E cita: "Ampliação do acesso à Justiça, pois a IA tem potencial para reduzir barreiras de tempo, custo e informação que historicamente dificultam o acesso de pessoas vulneráveis aos seus direitos", destaca.
Com base na legislação existente, explica que é possível, por exemplo, usar IA como ferramenta de apoio para otimizar tarefas administrativas, revisar contratos, organizar jurisprudência, identificar precedentes ou elaborar minutas preliminares. "Por outro lado, não é permitido: delegar à IA a prática de atos privativos da advocacia, pois a elaboração de petições, a consultoria jurídica e a atuação processual são prerrogativas do advogado, nem tampouco utilizar IA para tratamento indevido de dados pessoais — especialmente informações sensíveis, como antecedentes criminais, convicções políticas, religiosas ou dados de saúde, o que violaria a LGPD", aponta.
Entre as perspectivas, Couto explica que na prática os benefícios se manifestam em diversas dimensões como a ampliação do acesso à Justiça por meio de ferramentas de atendimento automatizado (como chatbots jurídicos ou assistentes virtuais) já são usadas em órgãos públicos, defensorias, bem como na otimização dos serviços públicos e do Judiciário, pois a a IA permite ao Poder Judiciário organizar dados processuais, detectar demandas repetitivas e acelerar a tramitação de processos, permitindo que magistrados e servidores se concentrem em questões de maior relevância jurídica, por exemplo.


Walkiria Vieira
Repórter de Cultura, Educação e temas sociais.



