Marcela* começou a sentir dores, no ano de 2000, nas mãos, braços e dedos. Foi medicada com antiinflamatórios, porém não lhe foram exigidos exames e nem o afastamento de suas atividades profissionais. Em 2008, ela, que é funcionária pública há mais de 20 anos, viu seu quadro se agravar, o que a impossibilitou de continuar trabalhando e exercendo suas atividades do dia a dia normalmente.
Marcela sofre de desfiladeiro torácico, doença que enrigesse os músculos e, por consequência, comprime as artérias do supraespinhoso, causa hérnia de disco na cervical, cervical branquealgia, tendinite dos extensores do punho e fibromialgia. Ela engrossa os números do anuário de estatística de acidentes do trabalho da Previdência Social de 2008, que contabiliza mais de 115 mil afastamentos por Distúrbios Osteomuscular Relacionados ao Trabalho (DORT).
Todas essas DORTs foram adquiridas à epoca em que o mobiliário que tinha à disposição era inadequado à profissão que ela exercia e ao tempo excessivo que atendia telefonemas e digitava ao mesmo tempo.''Tenho uma série de limitações, não consigo e nem posso limpar minha casa, não durmo direito, quando estou em crise sequer o cabelo consigo lavar e quando ocorrem mudanças bruscas de temperatura minhas crises aumentam e a dor fica insuportável'', desabafa.
Ela está afastada de seu emprego há dois anos e oito meses. Mas nesse período todo ''fiquei um ano e nove meses sem receber, porque o INSS dizia que eu estava apta ao trabalho e meus médicos não me liberavam para retornar de forma alguma'', lamenta-se. Hoje ela recebe o benefício, mas as sequelas continuam.
''Emocionalmente não estou 100%. É um processo muito humilhante, onde as pessoas e a própria empresa tratam com preconceito quem passa por isso, achando que é frescura. Não sabem o quanto gasto com remédios e fisioterapias, que fazem e farão parte de minha rotina diária pelo resto da vida. Estou tão traumatizada que só de pensar em trabalhar já fico emocionalmente abalada por tantas perícias negadas que tive. Preferia estar trabalhando do que passar por essa situação humilhante'', garante.
Causas
Movimentos repetitivos, excesso de cargas, posturas, mobiliários e iluminação inadequados, ausência de pausas para descanso após horas trabalhadas, de acordo José Marcelo Penteado, perito em ações judiciais do Ministério do Trabalho, são os principais riscos que causam as Doenças Ocupacionais.
Segundo ele, a prevenção através de ações para melhoria das condições no ambiente organizacional melhoraria muito a estatística de afastamentos atual, que conforme o especialista são bem menores que os dados divulgados. ''Existem fatores extralaborais e inerentes às pessoas (doenças congênitas) que são as verdadeiras causas dessas patologias'', afirma.
E o tempo de afastamento, de acordo com Penteado, não deveria se prolongar mais do que 90 dias. ''A tendinite tem cura, porém, por problemas organizacionais, que poderiam ser evitados, acabam afastando por mais tempo. Infelizmente foi difundida na população que a LER/DORT não tem cura. Isto é uma inverdade. As tendinopatias e neuropatias relacionadas ao trabalho não se diferenciam daquelas que são causadas por exemplo por práticas esportivas. São doenças plenamente curáveis com tratamento médico e fisioterápico adequados. Existem casos que podem se tornar crônicos, ocasionando sequelas. Esses geralmente ocorrem pelo retardo no início do tratamento, ou realização de tratamentos médicos insuficientes e inadequados. Pelo número insuficiente ou nulo de sessões de fisioterapia, tratamento de extrema importância e fundamental nos casos de tendinopatias ocupacionais'', afirma Penteado.
''Depois do acidente de trabalho as doenças ocupacionais são as que mais afastam os colaboradores pelo risco ergonômico que trazem'', afirma a fisioterapeuta e técnica de segurança do trabalho Tatiana Maria Safra.
Esse risco, conforme a especialista, se refere à mobília, ruídos, temperatura e organização do local e tudo que esteja relacionado ao conforto do funcionário. ''É muito importante que os empresários façam a prevenção e investimento relacionado a esses fatores. Quando um funcionário trabalha confortavelmente, com cadeiras com encostos reguláveis, ginástica laboral e até fisioterapeutas para ajudar a prevenir lesões pode ser algo muito mais rentável ao empregador do que um processo desencadeado por DORT'', alerta Tatiana.

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