Habilidades ganham destaque entre recrutadores de RH
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domingo, 10 de março de 2019
Pedro Moraes <BR> Reportagem Local 

O diploma de um curso superior e certificados de pós-graduação já não têm o mesmo peso. Agora, os critérios de avaliação por parte dos recrutadores das empresas na hora da contratação vão bem mais além. Características pessoais e emocionais vêm ganhando maior importância e privilegiando determinado profissional em detrimento de outro. Conhecidas pelo termo "soft skills", as habilidades subjetivas estão diretamente relacionadas à inteligência emocional das pessoas e se tornaram fundamentais numa época em que uma verdadeira mudança cultural dominou os mercados. Entre elas estão Comunicação Eficaz, Pensamento Criativo, Resiliência, Empatia e Liderança. "Pode-se perceber que há fatores externos, já que os consumidores estão mais voláteis e tornaram o ambiente de negócios mais flexível; e internos, já que as próprias empresas precisam ter respostas a esses novos anseios. Por isso, as capacidades dos profissionais em se adaptar às mudanças se tornou tão importante", avalia Jorge Matsuoka, diretor acadêmico do ISE Business School e professor de Gestão de Pessoas. Em outro ponto de vista, as "soft skills" valorizam o que só o ser humano pode fazer. "Há um processo grande de automação, de uso de inteligência artificial. No entanto, há habilidades humanas que a tecnologia não pode substituir e valorizar as capacidades individuais é algo imprescindível", aponta Adeildo Nascimento, presidente da ABRH-PR (Associação Brasileira de Recursos Humanos - Paraná).
Reconhecer e desenvolver tais habilidades requer um exercício de autocrítica, mas também depende da oportunidade de ter uma avaliação de outra pessoa. Há uma enorme gama de textos sobre o tema disponível de forma gratuita na internet. O material é capaz de apontar o caminho para desenvolver novas competências, seguindo modelos mentais ou "mindset". O termo em inglês significa uma espécie de capacidade de configurar a mente. O termo ganhou fama e passou a ser divulgado concomitantemente com o surgimento dos "coachs", profissionais que estão em alta e ajudam seus clientes a desenvolver objetivos pessoais. Por mais que grande parte das pessoas não possam contratar tais mentores, os especialistas avaliam que ouvir a opinião de alguém próximo pode ser fundamental para desenvolver novas habilidades. O chamado "feedback" é uma importante ferramenta no caminho do autodesenvolvimento. "Não precisa ser necessariamente o chefe, pode ser de pares de trabalho, amigos, até em último caso de familiares. O importante é notar as observações das pessoas sobre o comportamento. Em especial, no mercado de trabalho", aconselha Nascimento.
O tema é apontado como uma das principais tendências no relacionamento entre funcionários e empregadores nos dias atuais, conforme aponta o estudo do LinkedIn sobre o ano de 2019. A rede social profissional ouviu 5 mil recrutadores em todo o mundo. Os resultados apontam a percepção sobre as habilidades no Brasil - 95% dos profissionais que trabalham com seleção de pessoal no País acreditam que tais características são fundamentais para escolher novos funcionários. A preocupação é maior até do que nos EUA e Alemanha, onde as marcas atingiram respectivamente 90% e 88%. O relatório ainda aponta quais são as principais formas que os profissionais de RH se utilizam para perceber quais habilidades o candidato pode oferecer para a empresa. Em primeiro lugar, são consideradas perguntas sobre o comportamento. Em seguida, é notada a linguagem corporal e, logo depois, questões sobre situações específicas são levantadas. "O mais importante é que o candidato identifique quais são as habilidades necessárias para trabalhar naquela empresa. É preciso que o profissional também avalie se o que é pedido pela companhia converge com suas características. O que acontece é que no mercado de trabalho brasileiro, em meio ao desemprego, as pessoas acabam se submetendo ao que é oferecido. Diante deste cenário, acaba que o profissional deve encarar as diferenças como uma espécie de aprendizagem", aconselha Milton Beck, diretor geral do LinkedIn para a América Latina.
A prática de observar o comportamento dos profissionais é um combate para uma antiga frase dita entre os especialistas de RH: "contrata-se pelo currículo e demite-se pelo comportamento". Algumas empresas, inclusive, já não estão mais analisando o histórico profissional. Mesmo que em novos modelos de apresentação do currículo constem as habilidades desenvolvidas pelos candidato, elas serão colocadas em prova pelos avaliadores. "Cada vez mais as empresas estão apostando nas dinâmicas de grupo e em entrevistas direcionadas para analisar o comportamento dos candidatos", afirma Nascimento. Exatamente por este motivo, quem deseja buscar um emprego deve ficar atento em falar sobre suas capacidades nas entrevistas de emprego, independentemente das competências profissionais conquistadas ao longo da carreira. "Aqui mesmo no LinkedIn, vejo a preocupação das pessoas se apresentando, falando sobre os cursos, as experiências em programação, mas pouco lembram de exaltar as habilidades", lembra Beck. Mais do que especialização técnica, o mercado de trabalho exige o comportamento certo para cada função. Um verdadeiro jogo de quebra-cabeça em que os trabalhadores precisam estar sempre prontos para se adaptar.


