Filme alerta para transformações no ambiente corporativo
"O Diabo Veste Prada 2" instiga análise sobre a gestão de empresas e o trato interpessoal nas relações de trabalho
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 18 de maio de 2026
"O Diabo Veste Prada 2" instiga análise sobre a gestão de empresas e o trato interpessoal nas relações de trabalho
Fabriccio Lucas* 

O aclamado retorno de Miranda Priestly (Meryl Streep), Andy Sachs (Anne Hathaway) e companhia em "O Diabo Veste Prada 2" traz um cenário bem diferente de seu antecessor, 20 anos após os acontecimentos do primeiro filme, que retratava ambientes de trabalho e práticas como pressão extrema, hierarquia rígida e ausência de limites como o cenário padrão da época. A sequência renova o debate e avança para muito além da indústria da moda.
Com mudanças na gestão de empresas e nas relações de trabalho que questionam comportamentos autoritários, exigências fora do horário e comentários "duros", a personagem Miranda Priestly é forçada a se renovar para continuar em evidência em uma indústria em constante transformação.
Para a psicóloga e especialista em carreiras e negócios Sarah Figueiredo, o filme funciona como um retrato atual desse problema enfrentado por muitas organizações: empresas que cresceram, mas não se prepararam para sustentar esse desenvolvimento ao longo do tempo. “O que mudou não foi apenas o comportamento dos profissionais. Mudaram as expectativas, os limites e a forma como o trabalho é percebido. Mas muitas empresas continuam operando como se nada disso tivesse acontecido.”
TROCA DE LIDERANÇA
A narrativa mostra também, como a ausência de um processo estruturado de sucessão, ainda comum no mundo corporativo, faz que empresas antes consolidadas enfrentem problemas para continuar sem o antigo comando. A especialista explica que a saída repentina de uma liderança expõe vulnerabilidades críticas, como falta de preparo interno, insegurança nas equipes, decisões desalinhadas e perda de direção estratégica.
“Empresas não quebram apenas por falta de faturamento. Elas têm dificuldade quando o comando desaparece e ninguém está pronto para assumir. Sucessão não é um evento, é um processo que precisa acontecer com estrutura, organização e antecedência”, ilustra.
A partir da troca de liderança, o filme destaca a troca de perfil que afeta as dinâmicas da empresa. O antigo modelo de Miranda já não se encaixa diante das novas exigências relacionadas à cultura organizacional, saúde mental e compliance.
Advogada da área trabalhista e da saúde, Paola Velloso Marcondes, 39, detalha como essas novas dinâmicas afetaram o ambiente de trabalho. "Hoje, o trabalhador tem muito mais acesso à informação, mais conhecimento sobre seus direitos, sobre os limites que são toleráveis em uma relação de emprego. Comportamentos como os de Miranda, que antes eram muitas vezes tolerados em nome da alta performance, hoje são analisados de forma muito mais crítica, tanto socialmente quanto juridicamente", explica.
A mudança no perfil de liderança é outro ponto chave. O modelo baseado em pressão e controle, antes amplamente aceito, passa a ser questionado diante de novas exigências relacionadas à cultura organizacional, saúde mental e compliance. “O desempenho já não se sustenta pelo medo. Tem relação direta com clareza, estrutura e responsabilidade”, frisa a psicóloga.
O MEDO DE SE RENOVAR
A luta para se manter relevante na indústria é outra problemática evidenciada pelo filme. Após décadas sem alterar o seu modelo, o conglomerado de mídia fictício "Runway", comandado por Miranda Priestly enfrenta as consequências dessa falta de renovação: desconexão com o cliente, perda de relevância e dificuldade de se manter competitivo e atingir as metas necessárias em um mercado em constante transformação. “E aqui algo que vejo muito, o problema não está na mudança em si, mas sim esperar 20 anos para perceber que deveria ter mudado”, pontua Figueiredo.
A dificuldade de conciliar tradição e inovação também é destaque no filme.É importante trazer o equilíbrio entre gerações. Para a advogada Paola Marcondes, as empresas cada vez mais precisam se adaptar rapidamente às mudanças de comportamento do consumidor. "As empresas e até mesmo os profissionais que não acompanham as mudanças da sociedade, acabam ficando para trás, pois o mercado atualmente é muito mais dinâmico."
Essas transformações se reflete no comportamento dos profissionais. Com menor tolerância à sobrecarga de horas de trabalho e melhores definições de limites, o cenário atual visa maior autonomia profissional e uma busca por equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Marcondes explica como as leis trabalhistas se atualizaram, trazendo mais flexibilização nas relações de trabalho.
"Frequentemente temos atualizações em normas regulamentadoras e mudanças no entendimento adotado nos tribunais, para acompanhar a evolução da nossa sociedade, diante das novas demandas relacionadas à saúde mental, qualidade de vida e ao modo como novas gerações se posicionam no ambiente de trabalho", completa.
O filme deixa uma mensagem clara ao final: O maior desafio das empresas não é chegar ao topo, mas sim se estruturar para se manter renovado e continuar onde todos querem chegar. Sarah reforça a reflexão do filme. “Crescer é importante, mas sustentar esse desenvolvimento é o que diferencia empresas que permanecem relevantes daquelas que ficam pelo caminho.”
*Com supervisão de Zilma Santos


