Patrícia Estima, gerente de RH da Atos em Londrina, afirma que a companhia tem dificuldades de encontrar profissionais com conhecimento técnico e de língua para preencher as vagas
Patrícia Estima, gerente de RH da Atos em Londrina, afirma que a companhia tem dificuldades de encontrar profissionais com conhecimento técnico e de língua para preencher as vagas

Com o índice de desemprego chegando a números alarmantes no Brasil, uma empresa de Curitiba do setor de TI está com dificuldades de preencher as dez vagas que possui em aberto. Até o final do ano, a previsão é de oferta de 70 vagas. O motivo é velho conhecido: falta de profissionais qualificados no mercado. Lucas Ribeiro, sócio-fundador da empresa, a ROIT Contabilidade e Consultoria Tributária, conta que teve até mesmo que “importar” profissionais do exterior para suprir a falta de profissionais e a demanda de uma de suas clientes, por software de contabilidade com IA (Inteligência Artificial). O aumento da demanda por funcionários também tem relação com a abertura de uma unidade da empresa em São Paulo.

“A área de IA tem muita demanda e pouco profissional. As universidades acabaram acordando para o mercado tarde e não prepararam profissionais a tempo”, comenta Ribeiro. “Profissionais capacitados são poucos. Trouxemos um da Alemanha e estamos buscando um indiano.” O salário para essas vagas chegam a R$ 7 mil.

O Paraná foi o quarto estado com maior saldo de vagas no ramo de serviços de TI (Tecnologia da Informação) e o quinto na área de serviços de TI em fevereiro de 2019. No mês, o ramo de serviços de TI teve 1.153 mil admissões e 904 demissões, terminando com um saldo positivo de 249 vagas. Com o resultado, o Paraná ficou atrás somente de São Paulo (535), Santa Catarina (307) e Rio Grande do Sul (293). Já a área de serviços de TI teve no mês de fevereiro 902 admissões contra 835 demissões, com saldo positivo de 67 vagas. O número colocou o Estado atrás apenas de São Paulo (666), Minas Gerais (347), Santa Catarina (218) e Rio Grande do Sul (165).

O ramo de TI engloba atividades como desenvolvimento de programas de computador sob encomenda; desenvolvimento e licenciamento de programas de computador customizáveis ou não; consultoria em tecnologia da informação; etc. A área de TI diz respeito aos cargos de diretores de serviço de informática; gerentes de tecnologia da informação; engenheiros em computação; etc.

Os dados são do relatório “Insights Report: Panorama do Setor de Tecnologia da Informação e Comunicação 2019”, realizado mensalmente pela Assespro-PR (Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação) em parceria com o Departamento de Economia da UFPR (Universidade Federal do Paraná).

De acordo com Adriano Krzyuy, diretor presidente da Assespro-PR, o Paraná sempre apresentou altas taxas de emprego nos setores relacionados à TI. Mas os números poderiam ser maiores, não fosse a defasagem na qualificação dos profissionais. “As admissões poderiam ser maiores. Temos empresas com 40, 50 vagas abertas. Eu mesmo estou com 15 na empresa.”

Em 2017, o Paraná formou 3.960 profissionais no Ensino Superior, o equivalente a 11% dos formandos de TI no Brasil e a 35% em São Paulo. “Mas essa formação é totalmente admitida no mesmo ano. Quem entra na graduação de TI, depois de seis meses já está fazendo estágio nas empresas.”

Para suprir a necessidade imediata do mercado por mão de obra qualificada, o diretor presidente dá destaque ao ensino técnico profissionalizante, que ao contrário de uma graduação, leva apenas 18 meses para formar profissionais. Na visão de Krzyuy, é preciso aumentar as vagas nesse tipo de educação. “Tem alunos que começam e não terminam. Tem que ter adesão, incentivá-los a estudar, mostrar os benefícios (da área).”

Londrina

Dentre os municípios do Estado, em fevereiro de 2019, Londrina apresentou o quarto maior saldo de empregos no ramo de serviços de TI (33), atrás de Curitiba (109), Maringá (54) e Pato Branco (38). Na área de serviços de TI, no entanto, o saldo foi negativo (-9), colocando a cidade na décima posição atrás de Curitiba (57), Pato Branco (16), Maringá (9), Toledo (4), Ponta Grossa (4), São José dos Pinhais (3), Cascavel (-1), Pinhais (-3) e Foz do Iguaçu (-8).

Segundo Gilmar Machado, presidente da APL de TI (Arranjo Produtivo Local de Tecnologia da Informação) de Londrina e Região, bem servida de universidades, a cidade não encontra dificuldades em encontrar profissionais da área. O problema está nas grandes empresas estrangeiras que vieram para Londrina recentemente, com destaque para Atos e TCS, que não conseguem encontrar profissionais bilíngues. “Em empresas menores o inglês não é tão exigido, mas Londrina sendo um polo tecnológico, traz empresas de fora para cá. A qualificação do funcionário ultrapassa um pouco a programação. O que falta é o extra, tem que aprender uma segunda língua.”

Capacitação para driblar falta de mão de obra

A indiana TCS, que chegou a Londrina no ano passado, está com mais de 100 vagas abertas para posições em TI, BPO (Business Process Outsourcing) e infraestrutura na cidade. Só no ano fiscal de 2019 (que terminou para a TCS em abril), a empresa contratou 300 profissionais. Hoje são 339 trabalhando na cidade na sede localizada próxima ao Calçadão. Quando chegou a Londrina, a empresa tinha a expectativa de chegar aos 700 funcionários até março de 2019, e a 4 mil a depender do seu desempenho no Brasil (leia aqui).

Nos últimos dois anos, a francesa Atos preencheu cerca de 200 vagas na unidade de Londrina, inaugurada em 2013. Atualmente, há cerca de 45 vagas em aberto para técnicos de suporte e desenvolvedores de nível júnior a especialista. As vagas demandam conhecimento em tecnologias java e .net.

Patrícia Estima, gerente de Recursos Humanos da Atos em Londrina, afirma que a companhia tem dificuldades de encontrar profissionais com conhecimento técnico e de língua para preencher as vagas. As dificuldades são maiores à medida que as vagas são mais especializadas, mais seniores e têm exigência de um segundo idioma (inglês ou espanhol).

Para suprir a própria demanda, a Atos promove programas de formação abertos à comunidade dentro da própria empresa ou em parceria com instituições de ensino. Após o programa, a empresa abre processo seletivo para trabalhar na empresa. A companhia também mantém um canal de comunicação aberto com as universidades para manter as instituições de ensino e seus alunos informados sobre as principais tendências do mercado, as necessidades e requisitos do mercado de TI e empregabilidade. “A formação e a parceria com instituições formadores são muito positivas para o preenchimento de vagas”, destaca Estima. Além disso, a Atos oferece aos colaboradores bolsas de estudo para o estudo de línguas.

Dura realidade

A TCS aposta nas parcerias com universidades e escolas técnicas para preparar talentos locais com ferramentas e conhecimento de mercado, afirma Saveeta D’Souza, diretora de RH da companhia indiana. “De acordo com a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o Brasil é um dos países com a menor participação de graduados nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (17%) ante média de 24% entre os 34 países membros da organização”, comenta D´Souza. “Segundo o IDC Brasil, há hoje mais de 100 mil vagas não preenchidas na área de tecnologia. Infelizmente, esta realidade também se aplica a nós e, por esta razão, investimos fortemente em projetos de capacitação profissional.”

Dentre os esforços da companhia para capacitação estão treinamento e desenvolvimento de seus colaboradores. Só no último ano, a empresa realizou 40 mil horas de treinamento para novos associados. “Além disso, oferecemos a todos os colaboradores uma plataforma digital com uma série de cursos on-line, vídeos nano de 1 minuto para aprendizado rápido e treinamentos dinâmicos em metodologias digitais e Agile, recursos cruciais para atuar no segmento de TI atualmente”, finaliza a diretora de RH da TCS.

Imagem ilustrativa da imagem Faltam profissionais qualificados no setor de TI
| Foto: Folha Arte
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