MEU NEGÓCIO -

Empreender exige autoconhecimento

Tirar o próprio negócio do papel faz parte de muitas resoluções de Ano Novo, mas é preciso ter perfil e comportamento alinhados ao mercado

Laís Taine - Grupo Folha
Laís Taine - Grupo Folha

A virada do ano motiva reflexões sobre diversos campos da vida e a carreira não fica de fora. Nesse momento, projetos engavetados e novas ideias começam a sussurrar a vontade de implantação, o que leva muitos a verem no empreendedorismo a oportunidade de alavancar. Apesar da popularidade do termo, é preciso ter perfil para a atividade e analisar bem o mercado, conforme orientações do Sebrae. 


.
. | iStock
 


O aumento do interesse em empreender tem diversos fatores, que vão desde o aumento do desemprego ou insatisfação com a carreira ao conflito entre gerações. “Teve uma mudança muito forte em questão de desemprego, muitas pessoas tinham que aguardar novas vagas pela retomada da economia e acabaram optando por empreender. Uma das soluções foi o empreendedorismo individual”, explica Fabrício Pires Bianchi, gerente regional Norte, do Sebrae.  




Conflito entre gerações também influenciam a busca dos jovens pelo empreendedorismo. “Não é nem de gerações só, mas de eras. Do analógico para o digital, do digital para o colaborativo. Isso traz um impacto muito grandes nas próprias empresas”, afirma. Pires explica que há um desafio grande das empresas em se manterem atualizadas e gerarem desafios para que os jovens se sintam pertencidos à organização e enxerguem um propósito na atividade. 


No entanto, aqueles que optam por empreender também têm desafios a enfrentar, inclusive o de adequar o comportamento ao mercado e ao processo de gerir uma empresa, por isso, autoconhecimento é fundamental para quem quer iniciar nesse caminho. “As pessoas não buscam o autoconhecimento, elas acham que já se conhecem. Hoje existem várias ferramentas para isso. Tem empresa que vai vender só empada e é muito bem-sucedida e pessoas que abrem minimercado em um bairro que necessita disso e não conseguem. Então, antes de desenvolver qualquer habilidade, vem o comportamento”, aponta o gerente. 


Além de autoconhecimento, proatividade, persistência, análise, planejamento, são pontos que devem ser desenvolvidos, de acordo com Bianchi. Em habilidades, cita a liderança e conhecimento em negociação, persuasão e comunicação, que podem fazer diferença. Outras decisões podem interferir no negócio, como valor a ser investido e trabalho em sociedade. Nessa última, o gerente desmistifica alguns pontos. “Muita gente acha que ter sócio é um problema. Não. O problema é escolher um mau sócio. Quando vai por amizade, por indicação, que não tenha uma base ou com base mal construída é que é um problema”, avalia. Caso opte por esse modelo, Bianchi orienta a clareza sobre que tipo de sociedade será formada. 



 FRANQUIAS 

Considerando perfil, a franquia pode ser uma alternativa para quem quer iniciar um próprio negócio. De acordo com Marcelo Maia, diretor da ABF (Associação Brasileira de Franchising) o modelo oferece vantagens para quem nunca empreendeu. “A franquia é um modelo de negócios testado pelo franqueador, tem todos os procedimentos, o manual de administração, rede de fornecedores, administração de fluxo de caixa, então ele passa todo o ‘know-how’ para um franqueado”, explica. 


Dessa forma, as atividades seguem modelo e diretrizes conforme experiências de outros empreendedores. “O risco de ter sucesso em uma operação já testada é muito maior do que abrir o próprio negócio sem o modelo testado. A curva de aprendizagem é menor, então torna a chance de êxito maior”, revela.  


Segundo Maia, existem franquias e modelos de negociação e de negócios para diversos perfis e bolsos. Os critérios para se tornar um franqueado é determinado por cada marca. Além disso, no último dia 26, foi sancionada a lei que dispõe sobre o sistema de franquias empresarial, o que, para o diretor, a tornou mais moderna e traz mais segurança entre as partes envolvidas. 


Com opções diversas, Bianchi defende que empreender hoje é mais fácil e que existem diversos serviços disponíveis para quem quer entender mais sobre o assunto, como o próprio Sebrae, a Sala do Empreendedor e todo o sistema S (Sesc, Sesi, Senai). No entanto, a atividade tem suas demandas e é preciso ir além do conhecimento. “A resposta pronta não existe, com toda base de tecnologia que nós temos que podem facilitar no processo, a decisão ainda vai estar vinculada à pessoa”, afirma. 


 

.
. | i Stock
 


Antes de abrir um negócio, analise as tendências de mercado  

Analisar o mercado é fundamental e, dentro desse estudo, há pesquisas de tendência que vão dizer como será o comportamento social nos anos seguintes. Assim, Fabrício Pires Bianchi, gerente regional Norte, do Sebrae, aponta algumas oportunidades que continuarão em alta em 2020. 


Entre elas, o ramo de higiene pessoal e perfumaria, que continua crescendo no Brasil, mas desta vez tem o destaque de nichos pouco explorados, como cosméticos para o público masculino. O perfil do novo homem deve ser considerado por diversos segmentos que antes tinham foco no universo feminino. 


O envelhecimento da população apresenta novas oportunidades de negócio e a escolha dos casais em terem menos ou nenhum filho também. “Eles estão se preocupando em ter um pet e cuidar dele como se fosse filho, considerando todos os cuidados que um filho teria, como carrinho, creche, hotel”, explica. 


A sílaba CO, de colaborar, compartilhar, é tendência que veio para ficar, facilitando as novas formas e empreender. “Hoje em Londrina são mais de 15 coworkings. As pessoas estão buscando esse tipo de local e isso vem influenciando até a própria lógica de empreender. Para quem está iniciando, é uma forma de assumir risco menor”, avalia. 


Os meios digitais oferecem caminhos, considerando que nem todos teriam como investir em loja física. Bianchi afirma que o e-commerce está ultrapassando as vendas, fazendo com que as lojas físicas se renovem. “Não é que vai acabar o varejo nem a loja física deixar de existir, mas vai assumir nova função, como um show-room em que a pessoa tenha acesso a alguns produtos e passa a comprar via e-commerce", explica. 


Em consumo, o fracionamento de produtos está em alta. A remodelagem para pequenas quantidades, evitando desperdícios e economia demonstraram terem força. O novo perfil de consumidores demonstra oportunidade de negócios em clínicas com foco na saúde e bem-estar que propiciem a diminuição do estresse e elevem a autoestima. 



Henrique Ress Chaves e Ana Cláudia Perin abriram uma clínica após perder o emprego e estão otimistas quanto ao futuro
Henrique Ress Chaves e Ana Cláudia Perin abriram uma clínica após perder o emprego e estão otimistas quanto ao futuro | Laís Taine
 


Mudança de rumos inspira empreendedorismo 

Se 2020 será o ano de novos empreendedores, 2019 foi dos sócios Ana Cláudia Perin, 45, e Henrique Ress Chaves, 38, que, após serem demitidos em abril do ano passado, decidiram abrir a própria clínica multiprofissional de saúde com mais duas sócias. A proposta é oferecer serviço de diversas especialidades em um único lugar.  


No entanto, o que era para ser simples e começar em setembro, encontrou desafios e só teve início em novembro. “Tivemos intercorrências por conta da reforma, chegamos a marcar coquetel de inauguração três vezes”, ri o fisioterapeuta. 


Segundo eles, para a área de saúde o final do ano não é o melhor momento, mesmo assim tiveram número de clientes satisfatório nesse primeiro mês de atividade. Resultado que eles devem à experiência que os quatro sócios têm com as atividades propostas. “A gente já conhece o trabalho, a gente sabe da demanda”, afirma Chaves. Mesmo assim, eles fizeram o levantamento com especialista sobre quanto iria custar, apenas uma das partes do planejamento. 


Com planejamento, escolha de bons sócios, e definição do modelo de negócio, foi necessário escolher o local com a estrutura adequada. “Era preciso encontrar um espaço que comportasse toda essa nossa ideia, com piscina coberta, aquecedor, entre outras coisas. A casa já estava pronta, mas precisava de algumas readequações para o serviço, então começamos a reforma”, explica a terapeuta ocupacional. 


Outro impasse foi o nome. Após darem início na documentação da empresa, descobriram que já havia outra clínica, do mesmo segmento, com o nome escolhido. “Tivemos que refazer a documentação, definir um novo nome que identificasse o nosso negócio”, conta o sócio. O registro final, Sinergia – Centro de Reabilitação Multiprofissional, ganhou desenhos para formar a marca e está estampado nas camisetas dos sócios e colaboradores. 


Os sócios estão animados com o projeto e, apesar de trabalharem por mais horas, e ainda acumular atividades fora da área de formação, como administração e finanças, contam que estão gostando da experiência. Ainda muito recente, esperam que 2020 seja o ano de alavancar a empresa e mantê-la em crescimento. “Esperamos coisas boas, ter mais funcionários, expandir para mais especialidades, atender pacientes do SUS e particular, e sermos uma clínica completa”, conta Perin, que pretende democratizar o atendimento de saúde com serviço de qualidade e valores acessíveis. 




Investindo tempo e dinheiro no negócio, eles buscaram informações que não tinham sobre a formação de uma empresa e continuam se adaptando à nova forma de trabalho. “Foi muito corrido esse ano, trabalhamos muito, continuamos trabalhando muito, mais do que trabalhávamos antes, mas valeu à pena”, conta a terapeuta. “Nossa meta é comprar essa casa e ampliá-la”, revela Chaves com otimismo. 

Como você avalia o conteúdo que acabou ler?

Pouco satisfeito
Satisfeito
Muito satisfeito

Últimas notícias

Continue lendo