Empreendedores negros abrem mercado com produtos que conferem identidade

População afrodescendente no Brasil movimenta R$1,7 trilhão ao ano: a demanda por produtos aumenta à medida em que também se valoriza o conceito de orgulho racial

Tamiris Anunciação/ Especial para  a FOLHA
Tamiris Anunciação/ Especial para a FOLHA

Mesmo com a maior parte da população total do Brasil sendo autodeclarada preta ou parda, o mercado de trabalho tem ignorado profissionais negros de alto nível e empresas de diferentes setores, têm ignorado o poder de compra do consumidor negro no Brasil. De acordo com uma pesquisa realizada pela Instituto Locomotiva, ao todo, a população negra brasileira movimenta cerca de R$ 1,7 trilhão ao ano.


Mesmo com um poder de compra que aquece a economia do país em mais de 1 trilhão de reais ao ano, 72% dos consumidores negros consideram que as pessoas que aparecem nas propagandas de produtos são muito diferentes deles e 82% gostariam de ser mais ouvidos pelas marcas.


Dados do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC), também apontam que 10% dos ricos brasileiros são negros. Os números são claros e demonstram que poder de compra e demanda de mercado é o que não faltam para que empresas comecem a desenvolver produtos que atendam essa

parcela da população. Por outro lado, é justamente essa lacuna de mercado que não representa pessoas negras em suas publicidades, nem em seus serviços e produtos que empresários negros enxergaram uma oportunidade de negócio.

 

Neyde Jordão com o marido e os filhos: empreendedorismo com produtos afro
Neyde Jordão com o marido e os filhos: empreendedorismo com produtos afro | Acervo pessoal
 




Neyde Jordão é natural de São Tomé e Príncipe, na África Central, e está no Brasil desde 2004, quando veio para fazer um intercâmbio universitário na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Foi no campus da universidade, que Neyde notou o quanto seu estilo e formas de usar o cabelo eram vistos como diferentes, enquanto em sua terra natal sempre foi algo comum.


Além deste aspecto da novidade, havia os outros alunos intercambistas africanos que procuravam Neyde para trançar os cabelos. A atividade se tornou uma renda extra para o período da graduação.  De renda extra, o trabalho de Neyde com as tranças e cabelos afro, se tornou seu projeto de faculdade no curso de administração de empresas, que não só deu certo, como é um sucesso até hoje.


O Afro Londrina é um salão que além de oferecer serviços para cabelo, vende, por atacado e varejo, a matéria-prima para que outras trancistas possam encontrar a variedade de produtos que precisam para trabalharem e há dois anos, o local também passou a oferecer um espaço com acessórios, itens de decoração e roupas com estampas e elementos africanos.



“Quando eu comecei vendia muito menos e também havia menos pessoas que trançavam cabelos, hoje em dia eu noto uma demanda muito grande. Tenho clientes donas de salão que compram por atacado comigo da região toda. A pandemia fez a demanda cair inicialmente, mas por outro lado abriu um novo mercado de trancistas que atendem à domicílio e de pessoas que se aventuraram elas mesmas a fazerem o cabelo em casa, e para isso precisam dos materiais que encontram aqui”, destaca.



Diferente do segmento de cabelos, a Afro Modas - onde Neyde comercializa desde arte até vestuário - este mercado encontra como principal obstáculo o preconceito e a ignorância, já que muitas roupas e objetos africanos são associadas à religiões de matriz africana que sofrem diariamente com a intolerância e o desrespeito. Além do preconceito, as roupas africanas no Brasil ainda não são vistas por todos como

algo que pode ser usado casualmente. “A discriminação de alguns anos atrás melhorou muito, mas as pessoas ainda usam as roupas africanas como algo esporádico, não como casual. Em outros países, não só na África, é possível ver as pessoas usando roupas como essas no dia a dia”, pontua Neyde Jordão. A pandemia também atrapalhou o mercado de modas, já que a maioria das pessoas usavam as roupas disponíveis na loja em eventos especiais. 




Negócios como o de Neyde Jordão crescem ano após ano com uma demanda que só aumenta, principalmente pela importante atuação de diversos movimentos pelo Brasil que ajudam a resgatar a identidade das pessoas negras. Assim, cresce também o número de pessoas interessadas em trançar ou escolher um modelo diferente para os próprios cabelos, como também surgem oportunidades de novas trancistas poderem trabalhar e começar seu próprio negócio. Para quem quer começar, Neyde aconselha: “São muitos obstáculos que aparecem, mas não desista, persista. Deus vai olhar por nós.”



CABELOS NATURAIS

 

Adailton Pedro abriu um salão especializado em cabelos naturais, cacheados e crespos: questão de identidade
Adailton Pedro abriu um salão especializado em cabelos naturais, cacheados e crespos: questão de identidade | Acervo pessoal
 


Assim como Neyde Jordão, o empresário e especialista em cabelos naturais, Adailton Pedro, encontrou uma lacuna no mercado quando tentou encontrar um profissional que soubesse cuidar dos cabelos da irmã. Há 5 anos atrás, ainda em Paraguaçu (SP). Adailton deu início ao Mandume Natural Hair, um salão totalmente focado em atender cabelos naturais, cacheados e crespos.



Tudo começou em um quarto pequeno na sua própria casa, mas se expandiu em uma grande velocidade, e o principal motivo da alta procura foi e ainda é o fato de quase não existirem profissionais especializados ou que saibam lidar com as especificidades de um cabelo cacheado ou crespo. Estudantes da UEL, mas que tinham família em Paraguaçu, começaram a procurar o Mandume e a levar amigas e conhecidas de Londrina para cortarem o cabelo na cidade do interior paulista.



Adailton percebeu a demanda que vinha de Londrina e aos poucos se instalou aqui. Os atendimentos em Paraguaçu passaram a acontecer apenas no último domingo e segunda-feira do mês.  Quatro clientes atendidas por dia, hoje se tornaram 20. Com a necessidade de mão-de-obra, Adailton passou a lecionar cursos para quem deseja se especializar em cabelos naturais. “Eu sempre tive a ideia de que precisavam ter Mandumes pelo Brasil inteiro, mas ter salão é uma estrutura cara. Foi aí que minha ideia mudou e eu pensei que poderia treinar profissionais, tanto para trabalhar no meu salão como para trabalhar nas suas próprias cidades e para que se torne comum não só ter especialistas em cabelos naturais, mas cabeleireiros que entendam de cabelos, principalmente os naturais”, destaca.



A procura pelos cursos tem sido grande e a 5ª turma de alunos está aberta. As aulas são em dois dias presenciais, mais 4 encontros online por dois meses. “O retorno financeiro é muito rápido, porque existe uma demanda muito grande. É um mercado novo e o que mais cresceu nos últimos anos. É uma grande oportunidade, principalmente para as pessoas pretas. As pessoas se reconhecem mais quando são atendidas por um profissional preto”, pontua Adailton Pedro. Para saber mais informações basta acessar o Instagram - @mandume_natural.hair



Uma pesquisa divulgada pelo Google BrandLab, em 2017, mostrou que as buscas pelo termo " cabelo cacheado" cresceu 232%. O que pode ser apontado como tendência, é a identidade das pessoas, que estão cada vez mais decididas e confiantes em serem quem são. E o mercado da beleza, assim como todos os outros, precisam voltar os olhos para este movimento que veio para ficar.


Para Adailton, este é um dos pontos que fazem com que seja importante que pessoas pretas estejam à frente desse movimento/mercado, porque mais do que lucros, o trabalho com cabelos naturais envolve posicionamento, já que mexe em um lugar muito particular em cada cliente, que mais do que cortar o cabelo, consegue se reconhecer nos profissinais e no ambiente preparado para atendê-lo.



CAMINHOS DE SUPERAÇÃO DO RACISMO

 


As relações de trabalho no Brasil perpassam diretamente às relações raciais, haja vista que cerca de 56% da população é autodeclarada preta ou parda. Começando pelos salários que são comprovadamente menores entre negros com a mesma formação que brancos. De acordo com a Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2019 a diferença salarial chegou a ser 45% menor para trabalhadores negros. Os dados se agravam quando se trata de mulheres negras que chegam a ganhar 70% menos do que mulheres brancas.

 

James Rios, diretor de cultura da UENP, traz à tona a discussão sobre o negro no mercado de trabalho do Norte Pioneiro
James Rios, diretor de cultura da UENP, traz à tona a discussão sobre o negro no mercado de trabalho do Norte Pioneiro | Tiago Ângelo/ Divulgação
 



Parte da programação da VII Mostra de Arte e Cultura afro-brasileira da Universidade do Norte do Paraná (UENP) é trazer à tona a discussão sobre o negro no mercado de trabalho no Norte Pioneiro do Paraná, já que não existem dados sobre essa questão. Entre a programação da mostra deste ano está a minissérie documental & quot "A cor do trabalho: Norte do Paraná&quot" que apresenta experiências de vida de personagens negras e negros da região.



Para o diretor de cultura da UENP James Rios, é necessário primeiramente compreender onde está a origem do problema. “O racismo é estrutural na sociedade e nas instituições que o acabam perpetuando. As instituições precisam provocar essas discussões dentro das suas próprias estruturas. Para que a gente avance, precisamos encontrar esse caminho e é preciso que as instituições assumam suas próprias responsabilidades.” Para saber mais sobre a mostra da afro da UENP, acesse: https://uenp.edu.br/



Entre as ações realizadas pela Prefeitura de Londrina para o Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, foi realizada a 2ª Feira Afrocriativos de Londrina, na Concha Acústica. O evento reuniu afroempreendedores de toda a região.

“O evento é importante para evidenciar o empreendedorismo negro no município, assim como para mostrar que Londrina é uma cidade que se coloca na luta de combate ao racismo. Além disso, dá oportunidades para empreendedores negras e negros, embora esta edição do evento tenha um foco maior nas mulheres, de mostrar o seu produto, ter seu trabalho reconhecido e começar uma carreira”, afirmou Fátima Beraldo, gestora municipal de Igualdade Racial em Londrina.


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