Contrata-se mão de obra qualificada
Abrasel promove curso de capacitação para garçons para suprir a falta de profissionais qualificados no mercado
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de julho de 2019
Abrasel promove curso de capacitação para garçons para suprir a falta de profissionais qualificados no mercado
Aline Machado Parodi - Grupo Folha 

A dificuldade de encontrar mão de obra qualificada faz com que o segmento de bares e restaurantes de Londrina não consiga preencher as vagas abertas. O gargalo está principalmente na linha de frente: garçons e garçonetes. O setor não tem dados sobre a demanda, mas, de acordo com a Abrasel Norte do Paraná (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), a reclamação é grande entre os empresários do ramo. “O problema é que eles [garçons] não se enxergam como profissionais do setor. Não veem o trabalho como uma carreira”, explica Vinícius Donadio, diretor-executivo da Abrasel Norte do Paraná.
Para mudar essa realidade, a Abrasel, em parceira com o APL (Arranjo Produtivo de Londrina) de Gestão, iniciou um curso de capacitação e formação de garçons. As 30 vagas disponíveis foram preenchidas na primeira semana de divulgação. Mais de 90% dos participantes já estão contratados e buscam qualificação. Quem trabalha no ramo, mas está desempregado, vê o curso como um diferencial no currículo.
Com 30 anos de profissão, Marcos Donizete Ramos, 45, foi aprendendo no dia a dia da atividade, mas está buscando qualificação. “Para mim é bom para estar no mercado. É ter uma estrela a mais. Há tanta gente despreparada”, afirmou. Segundo ele, hoje as pessoas pensam que basta “fazer a barba, colocar uma camisa branca, um calça social para ser garçom”. “Não tem mais isso, não. É preciso correr atrás para se destacar”, argumentou.
Ramos passou uma temporada trabalhando em Florianópolis-SC e relata diferenças na forma de atendimento. “Se você trabalha na beira da praia é igual aqui, mas trabalhei também em restaurante etiquetado. Daí é totalmente diferente. E é isso que quem está no meio de garçons precisa entender”, afirmou.
Ele conta que começou na profissão por necessidade, mas ao longo dos anos foi se apaixonando pela atividade e, hoje, ser garçom é uma paixão. “Amo o que faço. Os clientes viram amigos” disse. Atualmente, ele está sem emprego fixo.
A formação está dividida em quatro módulos, com carga horária de quatro horas, às segundas-feiras. O primeiro módulo foi ministrado no dia 8 de julho e enfocou a postura do profissional, abordando aspectos motivacionais, de postura física e comportamento no ambiente de trabalho.
“O trabalho em si é fácil, mas o que se vê nas pessoas é timidez, não saber como falar, como gesticular. O garçom traz o cliente ou espanta”, comentou Rafael Marcolino Castro Silva, 33, dono de duas hamburguerias, em Londrina e Arapongas, que participa do curso com mais dois funcionários. Silva relata que teve dificuldade de encontrar profissionais qualificados, com treinamento para trabalhar em seus estabelecimentos. “Há carência de profissionalismo.”
A psicóloga Tânia Bueno da Silva, especialista em Recursos Humanos, procurou sensibilizar os participantes sobre as motivações que os levam a trabalhar no segmento. “Se você não tiver um propósito na vida você não terá comprometimento e responsabilidade”, comentou a psicóloga.
Ela enfatizou que os propósitos – sejam eles juntar dinheiro para comprar um carro, uma casa, ou uma roupa – serão a base para o profissional superar as situações adversas no dia a dia do restaurante. “Abordamos a motivação, a importância de ter sonhos, desejos e percebo que eles estão desconectados disso”, disse a especialista em RH.
O próximo módulo abordará etiqueta. O módulo será ministrado por um sommelier que mostrará, por exemplo, as formas corretas de abrir uma garrafa de vinho, como servir as bebidas. Também serão enfocados a comunicação: como falar com o cliente, o tom de voz etc, e como entender o comportamento do cliente. “A rotina do restaurante ele aprende no dia a dia. Por isso, estamos focando nas questões de comportamento”, explicou Donadio. A Abrasel prepara novas turmas para agosto. Também deve ser realizada capacitação em Rolândia.
O 'Neymar dos garçons'

Um dos mais experientes garçons de Londrina, Claudir Pedro Sanches Borges, 51, tem no currículo restaurantes tradicionais da cidade. Ele brinca que é o “Neymar dos garçons”. Começou na atividade aos 18 anos, mas cresceu vendo o pai trabalhando no bar da família. Ele aprendeu o ofício na prática e hoje divide com os mais novos o conhecimento de uma vida carregando bandejas.
“É preciso ter metas e objetivos, saber adaptar-se às situações, enxergar as coisas e tomar decisões para resolver os problemas que aparecem”, disse. Para servir mesas, a pessoa precisa ser comunicativa e determinada. “Ser garçom não é fácil. Você não escolhe teu dia de folga. Você precisa saber carregar uma bandeja, abrir uma cerveja na mesa. Na hesitação do cliente, ele tem que saber vender. Mostrar o cardápio, saber sugerir, saber explicar os pratos”, afirma Borges.
Ele relata que a mão de obra chega aos estabelecimentos crua e sem experiência. “Ele vem focado no celular e não aprende. Não está capacitado, então precisa focar”, reclama. Segundo Borges, as pessoas veem a profissão como transitória. “Ele está ali até conseguir outra coisa. Muitos abandonam. De cada 100 contratados menos de 10% continuam”, comenta.
Ele lembra que é o garçom que vai fazer o negócio dar certo ou não. “O cliente vai no lugar que se sente melhor, que é melhor atendido, porque pagar ele vai em qualquer lugar”, ressaltou. Ele será um dos ministrantes do curso de garçons promovido pela Abrasel.


