Conectados no trabalho
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segunda-feira, 21 de janeiro de 2019
Isabela Fleischmann <br> Reportagem Local 
Uma pesquisa do Pew Research Center divulgada em junho do ano passado mostrou que 84 milhões de brasileiros adultos têm smartphone, cerca de 54% dessa população. Com os aparelhos, o uso das redes sociais também aumentou: de 36% em 2013 para 53% em 2017, segundo o estudo.

Quando maiores de 18 anos usam mais as redes sociais, consequentemente o dado abrange a população economicamente ativa do País: os trabalhadores. Para José Nascimento, professor e consultor empresarial, o ponto chave é não deixar que o uso das redes sociais atrapalhem a produção do serviço, mas sim que "elas trabalhem a nosso favor". Já Adeildo Nascimento, diretor da ABRH (Associação Brasileira de Recursos Humanos), explica que não há um consenso com relação à proibição do uso de redes sociais em horário de expediente por parte das empresas. "Há algum tempo atrás sim, era proibido. O profissional tinha acesso à Internet por meio da rede corporativa. Mas isso hoje é totalmente questionável porque na verdade as pessoas carregam as mídias e redes sociais com elas no celular. Por mais que as empresas tentem impedir o acesso isso é tecnicamente impossível".
Daniele Maria dos Santos, 22, tem Instagram, Twitter e Facebook. "Tenho, mas não uso tanto", disse. Santos não está no mercado de trabalho atualmente, mas contou que, quando trabalhava, o uso das redes sociais "tirava um pouco foco". "Eram muitas notificações. Houve vezes que para me manter no foco, eu desligava o celular". Bruna Martins Moraes, 31, é empresária. Ela conta que vê que as redes sociais atrapalham na produtividade quando seus funcionários usam. "Na empresa não há a determinação de que não pode usar. A gente vê que atrapalha, mas não tem nada determinado".
Para muitos, o celular é diversão e ferramenta de trabalho, o que demanda tempo e atenção. Escritores como o americano Jonathan Crary e o sul-coreano Byung-chul Han alertaram o modo como as novas tecnologias possuem os indivíduos e como elas atrofiam a atenção, a escuta, a leitura e o espaço, preenchido constantemente pelo uso desenfreado das tecnologias.
O diretor da ABRH lembra que o que é costumeiro é que nos sistemas corporativos existam Firewalls que impeçam acessos a sites de entretenimento e de assuntos que não tem ligação ao trabalho. "O que eu costumo dizer nessa questão é que a temperança e o bom senso são o caminho que faz com que as coisas aconteçam de forma saudável. É praticamente impossível dizer hoje que a pessoa no seu ambiente de trabalho vai ficar completamente isolada das redes sociais ou de acesso à Internet". O especialista faz uma ressalva que isso costuma não valer para os trabalhadores de indústrias e que trabalham em linhas de montagem ou pessoas ligadas à segurança que têm que ter atenção a todo momento naquilo que estão fazendo. "Estamos tratando aqui de casos mais genéricos, de pessoas que trabalham em escritórios em funções administrativas, onde o ambiente e o horário de trabalho não é contínuo. Então você para, toma um café, vai ao banheiro e dá uma espiada no celular. Todo mundo faz isso".
Já o consultor empresarial explica que para não deixar que as redes sociais atrapalhem o rendimento, a primeira questão a ser pensada é se a empresa permite o uso delas, especialmente o WhatsApp, durante o expediente. A segunda pergunta é se o aplicativo de conversas é uma ferramenta de trabalho dentro da empresa ou apenas um canal que a companhia autoriza para a comunicação com amigos ou familiares. "Nos dois casos, temos que pensar o seguinte, da mesma forma que a gente teve de aprender a utilizar o telefone e o celular com equilíbrio e respeito, não só por conta dos recursos da empresa e não só em respeito ao nosso tempo, mas também em respeito à outra pessoa que está se comunicando com a gente, temos que ter esse equilíbrio, zelo e respeito na utilização dessas ferramentas modernas como o Facebook, o Messenger e o próprio WhatsApp", comenta Nascimento.
O especialista ressalta que se for facilitado, as pessoas podem passar o dia inteiro respondendo mensagens. "O pior de tudo, especialmente em relação ao WhatsApp é: qual é o tipo da mensagem que eu passo? Qual é o tamanho da mensagem que eu passo?", aponta.
Caso a plataforma de mensagens seja usada para passar informações profissionais, Nascimento pontua que essa mensagem deve ser objetiva e interessante para o receptor. "Tem gente que passa uma mensagem enorme de texto e mais três vídeos. Ao invés de você fazer um bom trabalho de relacionamento comercial, pessoal, você invade a privacidade da pessoa, enche a caixa e a memória do celular da pessoa e às vezes você fica esperando uma resposta que não tem, porque você passa um material inadequado".
Trata-se de um código de boas práticas nas redes sociais. Para o especialista, é de bom tom perguntar se a pessoa com quem há uma relação de trabalho autoriza a postagem de uma foto. "Lembrar que todos têm direito à imagem e privacidade. Isso dentro de uma boa prática corporativa. Fomos em um evento na cidade, pergunto se posso tirar foto e publicar. Há pessoas que são invasivas, em uma festa da empresa querem sair tirando fotos e publicando. Se me perguntarem se isso é correto ou adequado, digo que é preciso ter cuidado".
Adeildo, todavia, alega que, pelo lado da empresa, tem que existir esse bom senso de entender que é impossível hoje isolar uma pessoa do contato com mídia social. "Cada vez mais as jornadas são flexíveis, as empresas têm mais noção de que aquela velha história de horário de trabalho, horário de lazer, isso cada vez mais está se perdendo. Hoje as pessoas se divertem trabalhando, trabalham se divertindo, esse é um ambiente interessante".
Contudo, o diretor da ABRH ressalta que não são todas as empresas que adotam a mesma postura. "Eu vejo uma evolução do mercado de trabalho nesse sentido. A única questão que se faz e o cuidado que o RH tem que ter, são com casos extremos, onde o uso de mídias sociais é quase uma patologia. Quando chegam em casos extremos como esse, a empresa pode sim demitir, mas ela não estaria demitindo a pessoa pelo uso do celular, ela estaria demitindo por relaxo e falta de produtividade".
Como fazer um detox de redes sociais
"Já aconteceu de sair do trabalho e ter de responder mensagens no WhatsApp sobre o trabalho. Até em fim de semana mesmo", lembrou Daniele Maria dos Santos, 22, atualmente estudante de psicologia. O trabalho pelo celular fora do horário de expediente foi citado por todos com quem a reportagem conversou. Um homem que preferiu não fornecer nome à reportagem disse que tem Facebook e Instagram e que seu trabalho, com vendas, é favorecido com o uso dessas tecnologias mas que já teve de trabalhar fora do horário. Mesma situação da empresária Bruna Martins Moraes, que é dona de uma empresa de Internet via rádio. "Até de madrugada chega mensagem", contou.
Para Nascimento, há de se ter cautela. "O grande desafio é, principalmente do ponto de vista pessoal e profissional, fazer com que a gente não fique escravo da tecnologia". Ele lembra que isso é um problema da sociedade moderna, uma síndrome de querer saber de tudo o tempo todo e estar conectado 24 horas por dia, sete dias por semana, acreditando que está perdendo alguma notícia.
Nascimento disse que percebeu esse problema nele quando os e-mails o deixaram dependente. "Se a gente facilitar, a gente vai querer estar conectado o tempo todo, em todas as redes sociais".
A dica do profissional é o estabelecimento de horários. Verificar quais redes têm maior importância, quais são usadas para entretenimento, pessoal e profissional e qual a necessidade de usá-las constantemente.
Em suma, "ver a importância, para que usa, e estabelecer cronograma", explica Nascimento. "Por exemplo, eu abro meu WhatsApp pela manhã, umas 8h30, depois eu fecho, abro por volta das 12h, e abro só no final da tarde".
Outra coisa a se pensar é na necessidade de responder todas as mensagens. "A gente tem o hábito de responder tudo. Será que a gente precisa responder tudo?", questiona. Para Nascimento, depois de eleger a rede social, o horário a ser utilizado e o dia em que será aberta, tem de ser pensado o tipo de resposta que será dada para cada mensagem. "Vai ser um joinha? Um texto? Um áudio? Ou tem mensagens que você não precisa responder", disse.
MIGRAÇÃO PARA O DIGITAL
"Eu particularmente sou de uma geração analógica. Agora, como conciliar a migração desse meu lado analógico para um lado digital e como utilizar as ferramentas dos meios digitais de forma correta?", pergunta o mentor. A chave do bom manejo das redes sociais para favorecer o emprego está na dissociação do que é uma rede social de entretenimento para uma rede social profissional.
Para Nascimento, a resposta para colher grandes resultados está na criação de uma persona no digital que gere informação, conteúdo e negócios. "Essa persona digital não pode ser dissociada do que você é no pessoal e no profissional. Nós estamos sendo vigiados e seguidos 24 horas por dia".
Mas se abster das redes também não é uma opção interessante, segundo o especialista. "Não podemos abrir mão de que hoje no mundo o Facebook tem 2,4 bilhões de usuários. No Brasil, tem 100 milhões. Na mesma linha, o Instagram tem 1 bilhão de pessoas dentro da plataforma. Uma rede social extremamente profissional, o Linkedin, tem hoje 500 milhões de usuários no mundo", lembrou. O caminho está no equilíbrio do uso. "A gente tem definitivamente nas redes sociais grandes aliadas para a nossa vida pessoal, para a nossa vida profissional e para as nossas empresas. Se a gente souber fazer o uso correto delas".
O uso correto, para Nascimento, está no fugir de atuação com o olhar de "hater" e fugir das notícias falsas. "Só levar para frente em qualquer rede social conteúdo que você consiga verificar e que você confie. Para ter um posicionamento diferenciado dentro de uma rede social, seja gerador de conteúdo".
O especialista cita o Twitter e o YouTube como plataformas com grandes números de influenciadores digitais e potencial para se ter relevância e presença digital. "Eu mesmo sempre fui recluso nas redes por conta das posições que ocupei do ponto de vista profissional como gerente ou diretor de jornalismo de empresas. No mundo moderno, nenhum profissional que precisa e quer ter destaque, relevância, presença, pode estar fora de uma rede social. Por isso que eu sugiro a produção de conteúdo, texto, vídeos, a respeito da sua atividade profissional". Nascimento exemplifica a produção de "diários de reportagem" por jornalistas e médicos e arquitetos que publicam sobre as áreas de atuação com regularidade.
"As pessoas ficam esperando. Essa regularidade vale para todas as redes sociais e nada mais é do que a grade de programação que tínhamos na televisão", lembra. Por outro lado, ao mesmo tempo que as redes sociais são aliadas, elas requerem comportamento correto. "A rede social, pelo próprio nome já diz, é social. Então você tem que ter lá o comportamento como você tem um bom comportamento em uma festa. Você tem que curtir, tem que comentar, tem que compartilhar o conteúdo das outras pessoas. Tem que ter conteúdo próprio para que ganhe relevância e reputação na rede e para que ganhe seguidores".
Contudo, o mais importante para o bom manejo das redes sociais é fazer com que elas obedeçam quem as utiliza, e não o contrário, de acordo com o consultor. "Faça com que elas sejam ferramentas de trabalho e que te ajudem na utilização do seu dia, que você ganhe informação e que gere negócios. Não que tomem todo o seu tempo e que você vire escravo delas. Seu tempo é o bem mais precioso".
Vigiados por todo o tempo
Nas redes sociais, todos indivíduos são monitorados e vigiados constantemente. É o que afirma o professor e consultor empresarial José Nascimento. Por isso, a cautela é de extrema importância. "Um cantor, uma pessoa que faz eventos, não tem problema em ser fotografado em um ambiente com bebidas, festivo. Já se você é um diretor, um CEO de uma empresa não é bem assim", argumenta.
Não é que tais cargos não possam ter uma vida particular. Nascimento orienta, todavia, no cuidado com os gestos e demonstrações em público. "Cuidar desse tipo de publicação nas suas próprias redes sociais e lembrar também que você está sendo constantemente fotografado e vigiado. Para algumas pessoas isso não tem problema nenhum mas para algumas funções e atividades isso pode pegar mal".
Isso porque frequentemente há casos em que vazam vídeos na Internet de geram grande desfavor, conforme lembra o especialista. "O DJ pode ser filmado no intervalo dele tomando uma cerveja. Mas não fica bem para alguns profissionais, mesmo que em lugares propícios, serem vistos bebendo". Nascimento atuou como diretor de empresas jornalísticas e disse que, com tal cargo, vale pensar na mensagem que é passada para os colaboradores e para a coletividade ao publicar uma foto em uma situação que estimule o consumo de bebida alcoólica.
"Fatalmente em alguns momentos da nossa vida pessoal e profissional nesse mundo novo acabam se misturando. É preciso ter cautela", alerta. Nascimento cita jogadores de futebol e figuras extremamente públicas que "vira e mexe têm polêmicas". Segundo o consultor, é relevante quando se tem um ídolo do esporte que é bem orientado do ponto de vista de comunicação e utilização das redes sociais. "Não que ele não faça e não tome tais atitudes, mas ele toma muito cuidado porque a imagem dele transcende o espaço onde ele está inserido. E isso vale para os mais diversos profissionais da área de segurança, policiais, delegados, advogados".
Quando no mercado de trabalho e com tais cargos de liderança, faz-se necessário um zelo pelo que é publicado no Instagram, defende Nascimento. "Você pode fazer seu churrasco de domingo com a família, mas lembre-se que na segunda-feira a pessoa que vai contratar vai pensar no que vazou, no áudio postado, no vídeo que gravou. Isso é muito tênue, antigamente essa coisa estava entre quatro paredes e hoje vazou para o mundo todo".


