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Londrina

RELACIONAMENTOS 5m de leitura Atualizado em 25/01/2021, 16:25

Como as empresas encaram o namoro entre colaboradores

Política de namoro baseia-se em princípios básicos como bom senso e discrição; relacionamentos afetivos podem ser benéficos ao ambiente de trabalho

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Walkiria Vieira - Grupo Folha
AUTOR autor do artigo

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 Pessoas que passam tantas horas juntas no trabalho e colaboram para mesma empresa e ideais podem se interessar em ser mais que colegas?  O administrador do ramo de fotografia Claudio Nonaca considera que sim, isso pode acontecer. "Vejo  com bons olhos". No mercado de prestação de serviços há 22 anos, Nonaca expõe: "Creio  que é uma ótima oportunidade dos dois crescerem, principalmente  em empresas de médio porte." Com mais de 30 mil colaboradores em todo o Brasil, a Construtora MRV valoriza a criação de um ambiente de trabalho em que desafios e conquistas sejam compartilhados como em família. Segundo a Gestora Executiva de Desenvolvimento Humano, Teresa Raquel de Rabelo Campos, todo o  trabalho e propósito são pautados por relações humanas. "Por isso, respeitamos profundamente os vínculos entre nossos colaboradores e acreditamos que eles podem, inclusive, nos fortalecer como equipe".

Há limites, explica Teresa,  para que não surjam conflitos. "Nesse sentido, os relacionamentos afetivos são permitidos, desde que não haja qualquer relação hierárquica entre o casal ou influência sobre a análise de desempenho ou remuneração. E dá exemplos. "Temos situações de casais na empresa,  Entre esses casais formados dentro da empresa temos a Franciele Santos Vilas Boas, gestora de crédito imobiliário, e o André Garcia Vilas Boas, que é gerente de uma de nossas lojas. Os dois se conheceram há 10 anos na empresa e estão casados há 4 anos e meio. São nossos funcionários de longa data e conseguiram construir suas carreiras na MRV de maneira independente, o que nos traz enorme satisfação", valoriza. 

Foco nos objetivos corporativos

 Gislayne de Souza Carvalho, professora de psicologia da PUC-PR: "Dada a relevância tanto das relações afetivas quanto de trabalho, os relacionamentos podem ser benéficos para os envolvidos e para o ambiente profissional"
Gislayne de Souza Carvalho, professora de psicologia da PUC-PR: "Dada a relevância tanto das relações afetivas quanto de trabalho, os relacionamentos podem ser benéficos para os envolvidos e para o ambiente profissional" |  Foto: Divulgação
 

Do ponto de vista da professora de Psicologia da PUCPR e Mestra em Análise do Comportamento com ênfase em Programação de Ensino, Gislayne de Souza Carvalho, relacionamentos amorosos fazem parte da vida do ser humano em sociedade e um dos contextos nos quais esse tipo de relação pode emergir é o  de trabalho. "Embora não exista uma fórmula universal e cada organização seja única, a transparência e comunicação da relação são alguns aspectos que podem auxiliar a lidar com a questão", expõe.

Gislayne considera que relacionamentos discretos a ponto de serem escondidos dos demais trabalhadores podem ter efeito colateral no clima da organização, reforçando, por exemplo, um possível sentimento de falta de confiança. "Contudo, para comunicar a relação também são necessários cuidados, como considerar a cultura local.É  importante lembrar que o foco ali são os objetivos organizacionais e tudo o que vier a impactar isso precisa ser considerado cuidadosamente". afirma.   

Especialista em Análise do Comportamento Aplicada, Coach e MBA em Gestão de Pessoas, a psicóloga diz sobre a distinção da relação profissional e amorosa.  "Dada a relevância tanto de relacionamentos afetivos quanto de relações de trabalho na vida do ser humano, quando ambos são vivenciados de forma saudável, unir o “útil ao agradável” pode ser benéfico não só para os envolvidos diretamente, como também contribuir com o ambiente profissional até mesmo inspirando outras pessoas", observa. 

“Quer trabalhar, digo, namorar comigo?”

Mauricio Chiesa: "Deixemos claro que namorar o colega de trabalho é diferente de namorar o colega no trabalho"
Mauricio Chiesa: "Deixemos claro que namorar o colega de trabalho é diferente de namorar o colega no trabalho" |  Foto: Sérgio Ranalli
 

O escritor, administrador e profissional de Recursos Humanos Mauricio Chiesa entende que relacionamento e trabalho sempre foram rodeados de tabus, mitos e controvérsias. "Assim como a sexualidade e assédio foram pontos que só começaram a ser abordados no final dos nos de 1990", recorda.

Chiesa reforça que cada empresa é uma empresa, cada cultura é uma cultura, formada por relações humanas e sociais distintas. "Contudo, não há lei que proíba um relacionamento entre funcionários da mesma empresa, pois a Constituição prevê o direito à intimidade,  é o que prevê o artigo 5º, inciso X da Constituição Federal, quando afirma que ‘são invioláveis a intimidade e a vida privada das pessoas’. Ou seja, a empresa não pode impedir o relacionamento", enfatiza.  Mas  pondera: "A postura e discrição são essenciais para a manutenção do emprego.

Em algumas jurisprudências sobre o tema, o entendimento majoritário é de que, não havendo excessos ou condutas impróprias no ambiente de trabalho não há previsão de justa causa, mas, por outro lado o artigo 482 prevê que incontinência de conduta é passível de justa causa." Entre os cases, cita: "Ouvi de um acionista de uma organização: Se o profissional trai dentro da empresa seu companheiro(a) com um colega de trabalho, trair a empresa é questão de tempo, pois, se a base não foi valorizada, a empresa será? A traição profissional seria vazar um segredo ou deixá-la na mão, seja na saída, ou faltas com atestado. Por isso, a importância de um recrutamento e seleção pautado em propósitos e valores compatíveis entre empresas versus profissionais", reflete. 

O especialista  expõe que além da regulamentação legal e jurisprudencial existente (leia-se leis, tais como CLT, CC, CPC, entre outros), a empresa pode – desde que não abusiva ou assediada – elaborar políticas ou normas internas, que, socializadas e publicitadas, com as pessoas treinadas e orientadas, tem certo peso de lei. "Mas, até que ponto o legal versus moral andarão juntos?", questiona.

 "Tenho comigo que “uma lei ou norma imposta vem em resposta ao bom senso perdido”. Mas qual seria então esse bom senso? Se o casal traz a intimidade para o trabalho (praticando sexo dentro da empresa, por exemplo), dificilmente responderá por crime, mas o direito do trabalho prevê punições e a política da empresa pode também reforçar tal postura. Educação, respeito, profissionalismo e bom senso ajudarão a evitar constrangimentos às partes envolvidas", responde. "Não é possível controlar tudo e todos, muito menos, invadir a privacidade e intimidade. Namorar alguém da empresa é diferente de namorar alguém na empresa. E quem manda no coração, não é verdade? Maturidade e postura são requisitos mínimos de um bom profissional. E aí? Aceita trabalhar comigo? Pois a empresa também quer ser namorada no dia a dia, com trabalho de atenção, compromisso, responsabilidade, zelo, respeito e comprometimento. Tendo tudo isso, namorar alguém da empresa é muito mais tranquilo", conclui. 

Para ajudar na postura seguem algumas dicas 

Para colaboradores:  Manter a discrição; Conter os ânimos durante o ambiente e horário de trabalho, tais como gestos, sinais, mensagens “calorosas e apimentadas” via WhatsAPP; Evitar discussões relacionais (vulgo DR) no ambiente de trabalho; Informar a chefia imediata sobre a questão do relacionamento; Não namore chefes ou pessoas para subir de cargo; Seja realista e vá com calma, principalmente em relação ao ciúme; Evite espalhar para todo mundo. Deixe ser um processo natural.

Para empresas: Cientificar as pessoas do que é permitido ou não; Treinar as lideranças para abordagem do tema, desde conversa, condução e até mesmo repreensão de piadas ou brincadeiras que caracterizem bullying ou assédio; Ser imparcial na tomada de decisão e avaliação; Ter política expressa e explícita para orientação do tema; Ter postura igualitária para todos os casos; Estudar a transferência de setor para evitar a subordinação, quando for o caso e for possível; Para dar feedback quando extrapolar o “costumeiramente adequado”, nunca fazê-lo sozinho. Fazer em um local reservado e sempre ter uma pessoa do sexo oposto participando, para evitar constrangimento ou alegação futura de assédio moral; Assinar o termo de confidencialidade de informações do setor. (Maurício Chiesa - escritor, profissional e administrador de Recursos Humanos)

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