Emprego -

Cinquentões no mercado de trabalho

Aposentados ou não, trabalhadores acima dos 50 anos não são exceção e conquistam pelo comprometimento

Walkiria Vieira - Grupo Folha
Walkiria Vieira - Grupo Folha

O tom de voz sereno, os fios de cabelos que indicam maturidade e a paciência se destacam no atendimento realizado pelas pessoas com idade acima de 50 anos. Qualidades como essas transformam a simples ida à sessão de hortifruti em um momento agraciado - entre tantas situações, a senhora do departamento pergunta aos clientes como foi o fim de semana, indica os produtos em oferta e mostra o frescor das folhas recém-chegadas do produtor. O sorriso e a boa vontade também são espontâneos e se estendem a caixas de supermercados, profissionais de limpeza, porteiros e também entre tantos vendedores ambulantes que oferecem do cafezinho no ponto à água geladinha. 

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De acordo com o secretário Municipal do Trabalho Elzo Augusto Carreri, existe por parte de empregadores um olhar especial para profissionais nessa faixa etária. "São mais comprometidos, possuem experiência e podem transmitir seus conhecimentos aos que estão iniciando. "A tendência atual é que o público desta faixa etária se mantenha por mais tempo no mercado, tendo em vista o aumento da expectativa e da qualidade de vida. Essa mudança de tendência também é acompanhada pelo olhar do empregador, que vê este público como um tipo de mão de obra experiente e comprometido", pontua o secretário. 



Neocy Scaramal da Cruz, 72 anos: "Apesar de ter me aposentado, eu tenho muita disposição e me dedico a uma das lojas de roupas de minha família"
Neocy Scaramal da Cruz, 72 anos: "Apesar de ter me aposentado, eu tenho muita disposição e me dedico a uma das lojas de roupas de minha família" | Walkiria Vieira
 



Segundo Carreri, o Sine, Sistema Nacional do Emprego Londrina, a procura por vagas por profissionais com mais de 50 anos é constante e cada vez maior. "Cabe lembrar que o Sine - aos maiores de 60, disponibiliza guichê de atendimento prioritário", reforça. Dados do CAGED de 2019 - Cadastro Geral de Empregados e Desempregados - indicam que dos trabalhadores de 50 a 64 anos, foram admitidos 4648, desligados 6045 e o saldo foi de -1397. Números que representam uma melhora em relação a 2018,  ano em que foram admitidos 4503, desligados 6323 e teve saldo negativo 1820. O secretário do trabalho também esclarece por qual motivo os índices de empregabilidade desta faixa etária sejam sempre voltados ao negativo. "Não por rotatividade ou maior índice de demissão, mas por ser mais comum o desligamento por motivo de aposentadoria.



Disposição, experiência na área e renda extra motivam trabalhadores maduros


O filme "Um Senhor Estagiário" traz uma divertida experiência de um viúvo de 70 anos que descobre que a aposentadoria não é tudo aquilo que as pessoas dizem. Na ficção, Robert de Niro consegue voltar à ativa, torna-se estagiário sênior de um site de moda e, mais que a troca do trabalho pelo salário, estende relações e promove reflexões positivas em todos os departamentos da empresa. No cotidiano, não é raro ver o entusiamo e a garra de quem segue na labuta e não só pelo dinheiro, movimenta a economia e brilha. 

Neuza Cardoso de Souza, 68 anos: "Eu não escondo a idade nem a expriência profissional, gosto de conversar com os clientes e acredito num trabalho personalizado"
Neuza Cardoso de Souza, 68 anos: "Eu não escondo a idade nem a expriência profissional, gosto de conversar com os clientes e acredito num trabalho personalizado" | Walkiria Vieira
 



Presentes em diferentes áreas, os experientes também são solícitos na hora de contar a própria trajetória. Aposentada e  comerciante, Neocy Scaramal da Cruz, 72 anos, avisa que tem mais que três minutos para narrar à repórter, sua alegria de permanecer no mercado. "Fui vendedora, bancária e quando me casei, parei de trabalhar. Retornei quando meus filhos estavam mais independentes, foi quando montei um salão de beleza e fazia de tudo. Apesar de ter me aposentado, eu tenho muita disposição e me dedico a uma das lojas de roupas, que é um negócio de família." Disciplinada com os horários e no atendimentos a todos os clientes, dona Neocy confirma que o dinheirinho extra é importante. "Mais do que isso, gosto do contato com as pessoas, de colocar a cabeça para funcionar e não me enxergo como exclusividade, há muitas pessoas no mercado como eu e, nossa família, como empregadora, valoriza muito as pessoas mais experientes - temos uma resposta muito positiva dos clientes", expõe.

 

João Moreira, 52 anos:""Claro que eu não vou parar de trabalhar porque o dinheiro da aposentadoria não é suficiente"
João Moreira, 52 anos:""Claro que eu não vou parar de trabalhar porque o dinheiro da aposentadoria não é suficiente" | Walkiria Vieira
 




Um exemplo próximo é a vendedora Neuza Cardoso de Souza, 68 anos, que atua em uma das lojas da família de dona Neocy. "Não é porque estou na frente dela não, ela faz mais do que pedimos. Tem proatividade, faz marketing ligando para os clientes para avisar das novidades e surpreende", reconhece a patroa. Neuza por sua vez diz que gostar do trabalho é um começo e tanto. "Eu não escondo a idade e nem a experiência profissional. Gosto de conversar, ligar para nossos clientes e acredito em um trabalho personalizado e que faz a diferença". Aposentada há 20 anos, Neuza está na mesma empresa há nove anos. "Já cheguei madura, tinha 59, e não me passa pela cabeça parar porque me realizo no meu ambiente onde trabalho e ainda fico feliz por ajudar minhas filhas e netas", conta. 



Perto de se aposentar no papel, o porteiro João Moreira, 52 anos, dedica-se há 10 anos ao mesmo edifício comercial. "Claro que eu não vou parar de trabalhar porque o dinheiro da aposentadoria não é suficiente. Eu já estou encaminhado, mas não quero parar", ratifica. Com a saúde tinindo de boa, Moreira explica que se cuida. "Tenho uma alimentação balanceada, faço atividade física na academia, isso é sagrado, e estou de bem com a vida para seguir trabalhando direitinho". Atento às câmeras, a quem chega em busca de informação e à portaria que está em reforma, João Moreira é um senhor porteiro e admite que está sempre com um olho no peixe e outro no gato. Passados os  três minutinhos pedidos para entrevista, agradeço, me despeço e com a sabedoria da maturidade, o entrevistado usa de cortesia, bom humor e  confirma porque os mais vividos são bem-vindos ao mercado: "Mas agora que o papo tava ficando bom", brinca. 





 





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