O término de uma graduação pode apresentar um dilema: a hora é de buscar colocação e experiência profissional ou começar um novo processo na universidade, visando mestrado, doutorado e uma futura carreira na academia?

A escolha deve ser bem pensada, de acordo com acadêmicos ouvidos pela FOLHA. O caminho até a docência em uma universidade, por exemplo, é longo, e pode ser desgastante para quem não fez a escolha pelos motivos certos.

Vinícius Neves de Cabral, doutorando em Educação pela UEL, sempre teve claro a escolha pela carreira acadêmica
Vinícius Neves de Cabral, doutorando em Educação pela UEL, sempre teve claro a escolha pela carreira acadêmica | Foto: Anderson Coelho



"A busca pelo mestrado nem sempre se é uma opção de quem quer seguir carreira de docente. Muita gente acaba procurando isso como uma forma de ter uma renda por um período e também para não ficar desempregado", conta Samantha de Toledo Boehs, psicóloga e docente da UFPR.

A professora coordena um programa chamado SOS Pós-Graduação na universidade. Trata-se de um grupo de apoio à saúde mental para mestrandos e doutorandos. O socorro tem várias razões de ser: o nível de pressão pode ser bastante alto por diversos fatores - estresse, aperto financeiro, dificuldades para escrever e até problemas de relacionamento com o orientador.

Quando a opção por continuar os estudos é feita apenas como uma forma de contornar dificuldades de inserção no mercado de trabalho, essas questões se tornam ainda mais desafiadoras. "Nem sempre a pessoa escolheu por ser algo que goste de fazer. Muitas vezes foi uma falta de opção. Aí, fica mais pesado ainda", diz Boehs.

Desafios

Vinícius Neves de Cabral, doutorando em Educação pela UEL (Universidade Estadual de Londrina), tinha clara a escolha pela carreira acadêmica desde que entrou no curso de Letras, em 2011. Mesmo assim, ele também se deparou com desafios destas natureza.

"O primeiro deles é ter que lidar com a pressão e a ansiedade durante todo o período (24 meses no mestrado e 48 meses no doutorado). Não existe final de semana, não existe feriado, não existe férias, não existe período do dia em que você não esteja pensando, pelo menos lá no fundo, na sua dissertação ou na sua tese", conta, por email.

O prejuízo desta rotina para as relações pessoais são o segundo desafio, conta Cabral. "É difícil pra quem não é da área acadêmica compreender todo esse processo, então é comum escutarmos 'você não vai parar de estudar nunca?' ou 'quando você vai parar de estudar e vai trabalhar?' (no caso de alunos bolsistas, como eu). A dificuldade das pessoas de reconhecer o processo de formação acadêmica e a dedicação à pesquisa como um trabalho é ainda um desafio a ser vencido", conta.

Perfil

Hoje professor do departamento de Medicina Veterinária Preventiva da UEL, Ulisses de Pádua também foi desses que visaram a vida acadêmica desde cedo. Ele concluiu o doutorado aos 28 anos e logo foi aprovado no concurso para ser docente na instituição. Ele diz que o perfil de cada um precisa ser levado em consideração na hora de fazer uma escolha como essa.

"Você tem de ter um perfil aberto para novos conhecimentos, de correr atrás da informação. E tem de estar ciente que o valor da bolsa é de R$ 1.500 para o mestrado e de R$ 2.200 para o doutorado, que exigem dedicação exclusiva na maioria das vezes. Tem de estar disposto a dedicar a vida àquela atividade", conta.

Para Samantha Boehs, além do gosto pela pesquisa e pela leitura, também é importante se interessar pelo estudo de uma segunda ou terceira língua e, naturalmente, ter um bom perfil em sala de aula. "É preciso que saiba lidar com alunos e, ao mesmo tempo, goste de pesquisa", diz. Assim como os estudantes, mesmo docentes já em atividade com perfis incompatíveis "sofrem mais ainda" em uma área "que já sofrida". "Os níveis de adoecimento e medicalização em professores de graduação e pós-graduação são altos", revela.

O doutorando Vinícius Cabral acrescenta a todos esses atributos o compromisso com a universidade e a produção de conhecimento. "Infelizmente, algumas pessoas encaram a formação na carreira acadêmica apenas como forma de ascensão de carreira, possibilidade de concurso público ou como uma atuação como outra qualquer", critica. "Não compreender todo esse compromisso gera pesquisadores e docentes frustrados", diz.

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