Aprendendo a fazer cinema no trabalho
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segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Mie Fracine Chiba<br> Especial para a Folha 
Já imaginou funcionários de uma empresa participando de uma oficina de cinema no trabalho? Mesmo que a atividade não tenha nada a ver com o trabalho da empresa, as pessoas que participassem iriam aprender muito mais do que o processo de produção de um filme. Empresas de Londrina já utilizam esse recurso como forma de treinamento vivencial de seus colaboradores para temas como liderança, planejamento, trabalho em equipe, improvisação, criatividade e disciplina, por exemplo.
''(Com a oficina) você pode ter os benefícios tanto no filme que vai ser obtido, que pode ser utilizado pela empresa em outros treinamentos, quanto na dinâmica da atividade em si. Por exemplo, se estou abordando trabalho em equipe com o grupo, o ato de fazer o filme é um trabalho em equipe, e no filme eu falo sobre o trabalho em equipe. É quase uma metalinguagem'', explica um dos sócios da Presença, empresa que realiza oficinas de cinema em organizações da cidade, Wagner Munhê.
As oficinas duram apenas um dia, e nesse espaço de tempo os funcionários da empresa precisam pôr a mão na massa em todas as etapas da produção de um filme, desde o desenvolvimento do roteiro, que é proposto pela direção da empresa junto com a Presença, até a atuação e a produção do filme. Anderson Evangelista Pereira, funcionário da fábrica de baterias Rondopar, nunca havia se envolvido com a produção de um filme. No fechamento das atividades da empresa no ano passado, o encarregado do almoxerifado se viu na posição de um dos diretores do curta-metragem que produziram através da oficina de cinema. ''Foi uma experiência única. Eu nunca tinha imaginado que um dia faria isso'', diz. Além de dirigir, Pereira também assumiu a câmera em um dos takes do filme.
A recepcionista da empresa, Isabel Berbel, só lembra de ter atuado na época de escola, mas no curta produzido na oficina ela foi uma das atrizes principais e se sentiu muito à vontade na frente das câmeras. ''Quando a gente tem vontade, consegue fazer. Eu gosto de participar dessas coisas'', pontua. No enredo do filme, ela era a esposa grávida que se vê em uma situação complicada quando começa a sentir as contrações do parto e o carro do marido não pega por causa de uma bateria de má qualidade. As funções de cada funcionário na produção do filme são escolhidas por eles próprios, de acordo com suas afinidades.
Segundo a psicóloga da Rondopar, Joseane Kohler, que ajudou a coordenar a oficina, a atividade era parte de um programa de excelência que havia acabado de ser implantado na fábrica. ''A gente achou (a oficina) uma maneira bem bacana de fechar o ano dentro daquilo que já estávamos trabalhando, que é o programa de excelência, e envolvendo os colaboradores.'' Para ela, a ocasião contribuiu para que os funcionários descobrissem novas habilidades. ''Eles entraram em contato com o potencial de desenvolver algo novo. Era um auxiliar de produção operando a câmera, sendo ator, trabalhando com a expressão corporal, percebendo o quanto é capaz de trabalhar com isso''.
Cerca de 40 funcionários se inscreveram, e um sorteio teve que ser feito para preencher as vinte vagas da oficina. Pelo menos um representante de cada setor participou da atividade. De acordo com Joseana, a oficina ajudou a aprimorar o espírito de integração da equipe da empresa. ''Principalmente em uma indústria, o administrativo e a produção acabam ficando afastados, e no filme todos trabalharam juntos, independente do setor.''
Mesmo o tema do filme tinha relação com a mensagem que a empresa queria passar aos seus colaboradores. No curta, o fato de a bateria do carro ter deixado o personagem principal na mão quando a esposa estava para dar à luz era apenas um sonho, mas foi suficiente para ele voltar ao trabalho na fábrica de baterias no dia seguinte com a idéia de levar conselhos aos amigos sobre excelência no ambiente de trabalho, pois uma bateria mal-fabricada poderia ter sérias implicações.
Meios justificam os fins A empresa de elevadores Atlas Schindler não estava preocupada com o filme em si quando solicitou que Wagner e Vilma fossem desenvolver a oficina na empresa. O tema abordado no curta poderia ser qualquer um, o que importava era o processo. ''Nossa necessidade era fazer um trabalho vivencial com o grupo de gestores da diretoria industrial. Além deles planejarem uma ação, eles deveriam executar e ver o resultado dessa ação'', afirma a analista de Recursos Humanos da empresa, Ana Lígia Cecere. A oficina foi desenvolvida em um evento com os gestores da empresa no ano passado.
Segundo a analista de RH, os gestores foram muito receptivos com a novidade, principalmente considerando que a linguagem do cinema é mais acessível a todos. ''A linguagem do cinema contribui porque todo mundo se interessa, gosta, ou pelo menos gosta de assistir ou tem curiosidade de saber como funciona. Então, eles se identificaram muito.''


