ABRAHAM SHAPIRO
Tudo bem que uma pessoa comum, sem responsabilidades profissionais ou institucionais, se recuse a manter-se informada. Mas não gerentes, líderes, pessoas imbuídas de objetivos numa empresa privada ou pública.
Na verdade, penso que o excesso de informação tem causado avaria em muita gente. Eles passam rentes à tendência global deste século sem ler, ouvir ou assistir a nada do que parece apreensível até por osmose. Assim, vão seguindo seus dias, cada vez mais distantes do padrão da sociedade.
Uma amiga, que é engenheira de uma empresa, me contou ter recebido a ligação de um funcionário pedindo explicações sobre um orçamento que ela lhe havia encaminhado no dia anterior. Tudo o que ele solicitava estava explícito no texto bem à sua frente, porém, insistia em questioná-la, confirmando ignorância. A cada pergunta, a resposta da minha amiga inconformada era a mesma: "Está aí no e-mail!".
Se você julga ser isto um exagero da minha parte, basta observar com algum vagar, e você encontrará uma população que não lê nada, não se informa por meio algum, mas acha-se apta e capacitada a opinar, a tirar conclusões e a votar, o que é mais catastrófico.
Eu vivi um quadro no mínimo bizarro recentemente.
Um desses gerentes, que chegou à função por palpite de um patrão incauto, mas hoje vê-se como "doutor", do tipo que concorda com tudo o que o chefe diz, mas acaba por fazer o que bem entende, tem por sua marca registrada o mau hábito de não ler nada do que chega a sua caixa de e-mails. No entanto, busca incessantemente causar impressão de que está por dentro de tudo.
Nessa ocasião, eu o vejo discutindo calorosamente com seu colega um tema contido num texto que eu mesmo havia redigido junto do diretor e enviado a todos os gestores da companhia. Ele exibia total desinformação, apesar de persistir em fazer críticas sórdidas e infundadas que eram confirmadas como eco pelo colega.
Minha indignação fez-me curioso em avaliar por que razão aquele diálogo tolo perdurava já por tanto tempo. E a conclusão a que cheguei provocou em mim um misto de lamento e graça: o outro também não lia e-mails. O papo, então, não passava de meras suposições idiotas de dois irresponsáveis.
A fabulosa Era da Informação também faz coisas de que até Deus duvida.
Abraham Shapiro é consultor e coach de líderes em Londrina





