Será que não pensamos demais? Isso faz bem? Se sim, por que tantas decisões que tomamos resultam em perdas e desgastes em lugar de satisfação e realização?
A neurociência demonstra que, de muito raciocinar, sobrecarregamos a capacidade de atenção do nosso cérebro, e isso compromete a saúde da mente. O efeito disso não é bom. De cara, isso pode causar ansiedade e depressão.
Pensar demais e saber demais podem ser um problema, "afinal", como dizia o rei Salomão, "quanto maior o saber, maior o sofrimento; e quanto maior o entendimento maior o desgosto."
Durante uma viagem à Itália, a musicista Abbie Conant foi convidada a fazer um teste para a Filarmônica de Munique. Os 33 candidatos tiveram que tocar atrás de uma tela, que os tornava invisíveis ao comitê de seleção. Conant se concentrou para fazer uma apresentação perfeita, mas errou uma nota. Ela pensou que seria desclassificada. Porém, todos do comitê estavam estarrecidos com o que tinham ouvido. O diretor da Filarmônica ficou tão excitado que despediu os candidatos que ainda não tinham se apresentado.
E então, quando chamaram Conant, ficaram surpresos – e decepcionados. Ela era uma mulher.
Mulher e trombone não combinavam para o diretor da Filarmônica. E, apesar de ter vencido todas as rodadas de audições, ela entrou para a orquestra contra a vontade do diretor que, um ano depois, a rebaixou para segundo trombone. Conant ficou tão indignada que levou o caso para os tribunais. Como provas, fez uma batelada de exames: soprou em máquinas especiais e teve até o sangue examinado para comprovar sua capacidade de absorção de oxigênio. Todos os resultados foram acima da média. Só depois de oito anos, por determinação da justiça, é que ela foi reintegrada à posição de primeiro trombone.
Essa história é contada no livro "Blink – A Decisão num Piscar de Olhos", do americano Malcolm Gladwell. Ela mostra que, se tivessem levado em consideração apenas a primeira impressão da audição de Conant, os membros da Filarmônica teriam uma grande artista como primeiro trombone desde o começo. "Mas, por acharem que ela poderia ser frágil para um instrumento tão masculino, resolveram dar crédito ao pensamento racional, que indica que as mulheres são menos aptas a instrumentos que exigem maior fôlego, e não ao que tinham ouvido", escreve Gladwell.
Agora pare e perceba quanto isso também acontece com muitos de nós em tantas situações da vida.
Pensar assídua e objetivamente nas razões de cada problema pode nos induzir a decisões que produzem mais tensão e insatisfação do que paz e ordem. Esta pode não ser a melhor tática para um processo decisório eficaz.
Empregar mais intuição e menos raciocínio lógico talvez seja a receita que, afinal, nos liberta de pressupostos não comprovados e crenças que juntamos facilmente, e que mais confundem do que cooperam pelo nosso bem e o bem de todos.

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