ABRAHAM SHAPIRO - Antipatia: a visão de si mesmo no outro
O que foi que eu fiz para essa criatura agir assim comigo? Foi com esta pergunta que a funcionária me abordou a respeito de sua nova chefe. E acrescentou: Nunca a vi antes, mas sei que não gosta de mim; nem eu dela! Antipatia gratuita incomoda. Muito mais quando se trata de alguém com quem vamos trabalhar.
É difícil encarar nosso lado obscuro. Todos nós temos um modo de ser e de reagir que não nos agrada, e por isso negamos. Queremos escondê-lo dos demais e até de nós mesmos. Aí estão impulsos, predisposições e atuações mal vistas pelo grupo social a que pertencemos.
Quando encontramos alguém que tenha atributos semelhantes, sentimos um desconforto, e de pronto o repelimos. Começa com uma sensação de ameaça, seguida de medo e a perda da nossa espontaneidade. Temos receio de ser descobertos, julgados e criticados. Mas o que fazemos depois? Exatamente o que temíamos que acontecesse conosco: julgamos e criticamos o outro. Sim, ele é a nossa cara. E já que sabemos disso, nós o rejeitamos para disfarçar a insatisfação de termos encontrado alguém tão parecido com o que temos de pior.
Há uma saída positiva para isso. Mas ela só se aplica a pessoas conscientes e desejosas de superação. Trata-se de usar todo este colapso de antipatia como meio para promover uma limpeza ou reciclagem do lixo de nossa própria personalidade.
O primeiro passo é mirar naquilo que você mais tiver detestado no outro. É quase 100% de certeza que isso está em você também. Agora, questione-se: Que sentimentos estou tendo em relação a esta pessoa? Do que foi que não gostei nela? A resposta terá muito a ver com o que você precisa encarar em si, e trabalhar para vencer.
No começo poderá ser complicado. Exige sinceridade. Porém a realidade vem à tona.
Cuide muito de sentimentos como a inveja. Ela é algo que quase todo mundo sente, mas nega. Por isso, torna o processo de identificação de pontos negativos muito difícil. Fuja igualmente do ciúme e do orgulho. Eles também escurecem a visão de quem sente antipatia gratuita.
A repulsão entre pessoas semelhantes é um fato corriqueiro nos relacionamentos. Mas é antes de tudo uma oportunidade de refinar a educação e amadurecer.
O comportamento ideal estará acontecendo quando você for capaz de dizer conscientemente: Conheci uma pessoa que é a minha cara. É claro que não gostei dela no primeiro momento, mas já fiz ótimos progressos e somos agora bons colegas de trabalho.
Abraham Shapiro é consultor, coach de líderes e escreve às segundas-feiras
na Folha de Londrina. [email protected]





