O José Flávio Garcia é um amigo de muitos anos. Nós nos vemos no café assiduamente e ele é um homem sábio e vivido. Dia desses sentou-se à minha mesa, e com aquela atitude nobre dos seres humanos que compartilham seu bem, contou-me uma história que assim inicia: "quase sempre as pessoas não valorizam o que já têm, mas condicionam sua alegria ao que talvez jamais terão."
Havia um homem que ganhava a vida como vigia de uma floresta. Desde o topo de um elevado mirante, avistava toda a área a fim de protegê-la contra incêndios.
Lá do alto, ele via uma jovem moça que saia de sua casa todas as manhãs para buscar água numa fonte. Ele acompanhava seus passos e admirava sua beleza a ponto de ter-se apaixonado por ela.
Não contendo o sentimento, certo dia tomou coragem, desceu de seu posto, aproximou-se dela e declarou seu amor, pedindo-a em casamento.
Admirada, a jovem ouviu suas palavras e, após pensar por alguns segundos, disse:
- "Estou honrada com o seu pedido. Mas julgo que a sua felicidade será maior se, em vez de mim, você tomar a minha irmã como esposa, já que ela é muito mais jovem e bela do que eu. Veja que ela vem logo aí, após mim."
Não contendo a curiosidade, o homem virou-se de pronto, surpreendendo-se por não ver ninguém.
Então a moça concluiu:
- "A minha resposta ao seu pedido é ‘não’. Quando você se virou, mostrou que as minhas qualidades não são suficientes, mas interessa-se pelos atributos de uma mulher mais bonita e jovem, que nem sequer existe."
Zé Flávio. Se você me lê, tomarei a liberdade de finalizar a sua bela história com uma linha do livro Pirkei Avot, a Ética dos Pais, uma obra milenar clássica de ética, que diz: "Quem é rico? É aquele que se alegra com o que possui!"

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