A doença do estresse
PUBLICAÇÃO
domingo, 17 de julho de 2011
Kalinka Amorin <br> Reportagem Local 
Amélia (nome fictício) é professora na rede estadual de ensino há 23 anos. O estresse excessivo, adquirido ao longo de sua vida profissional, começou a causar sérios inconvenientes para sua saúde, exigindo que ela buscasse ajuda médica.
Diagnosticada com a Síndrome de Burnout (termo inglês que traduzido para o português siginifica queimar por completo), ela passou a engrossar as estatísticas demonstradas em pesquisa publicada pelo Internacional Stress Management Association (Isma). A pesquisa revela que sete em cada 10 trabalhadores brasileiros sofrem de algum tipo de estresse e que 30% destes apresentam nível crônico, ou seja, Síndrome de Burnout.
As consequências da síndrome para Amélia foram o esquecimento, insônia e algumas despesas extras. ''Ano passado bati o carro quatro vezes, perdi totalmente a concentração e a vontade de trabalhar, foi quando busquei ajuda médica'', resigna-se. ''Não conseguia mais fazer nada, por conta disso fui readaptada na orientação pedagógica desde o início desse ano letivo.''
Além disso, sentimentos de incapacidade e frustração tomaram conta da vida da professora que enfrentava a sala de aula diariamente. ''Os alunos, por conta, do grande acesso à informação não prestam mais atenção no que o professor fala. Querem ser os autores das aulas e não mais os receptores. Apesar do conhecimento que tenho me sinto totalmente incapaz'', desabafa. ''Eles (alunos) gritam e me desrespeitam o tempo todo'', continua.
Síndrome
A Síndrome de Burnout de acordo com especialistas ouvidos pela FOLHA pode afetar qualquer profissional. Porém, é mais comum em pessoas que desenvolvem atividades de constante contato humano e favorecem o envolvimento emocional como os médicos, enfermeiros, cuidadores de idosos e professores.
''Bancários, controladores de tráfego aéreo e profissionais de segurança também tem sido acometidos pelo Burnout'', afirma o médico do trabalho Ederson Crippa. Profissões como essas lidam com situações que nem sempre podem ser resolvidas por eles próprios, como a morte e as transformações sociais.
Já o médico e perito da Justiça do Trabalho José Marcelo Penteado discorda. Para ele, a síndrome é restrita apenas aos cuidadores e ocorre devido ao contato excessivo com outras pessoas. ''Onde situações comuns de trabalho exigem tensão emocional, atenção constante e grandes responsabilidades'', explica. ''Existe um modismo de diagnósticos que as doenças ocupacionais vêm tomando. Cada vez que aparece um nome novo ou uma novidade num famoso programa televisivo de domingo, em seguida vários profissionais se apressam em diagnosticar um laudo. O esgotamento profissional está virando Síndrome de Burnout. Essa nomenclatura tem sido usada de maneira errada por alguns profissionais da área da Saúde ou do Direito'', afirma.
Para Ederson Crippa, que atua na área há mais de 20 anos, a Síndrome de Burnout não é encarada como uma doença ocupacional pelo fato de se confundir com a depressão e a ansiedade relacionadas ao trabalho. ''Diagnosticar os pacientes como depressão é um diagnóstico mais fácil, por isso não existem tantos pacientes com diagnósticos de Burnout. Para se comprovar a Síndrome de Burnout muitos tópicos precisam ser esclarecidos'', pondera.
O indivíduo que desenvolve essa patologia, de acordo com Crippa, é focado exclusivamente no trabalho, deixando de lado os relacionamentos e o lazer. O relacionamento para esses pacientes é dificultoso e o isolamento é o principal escape. ''O correto é tratar o indíviduo antes de chegar ao quadro de depressão que é a última exaustão do Burnout''. explica.


