5,5 milhões usam apps de transporte para trabalhar
Número inclui tanto profissionais autônomos quanto aqueles que têm emprego fixo, mas usam plataformas como complemento
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 06 de maio de 2019
Número inclui tanto profissionais autônomos quanto aqueles que têm emprego fixo, mas usam plataformas como complemento
Mie Francine Chiba - Grupo Folha 

Há dois anos, Paulo Sborgi começou a trabalhar como motorista em aplicativos de mobilidade como uma forma de complementar a renda. Mas, após ser desligado de seu emprego no setor administrativo de uma instituição de ensino, o trabalho como motorista de aplicativo se tornou a sua fonte principal de renda. “Não fiquei desamparado”, disse.
Intérprete e tradutor de libras, Erick Vieira começou a trabalhar como motorista de aplicativo porque não conseguia encontrar emprego em sua área. “Tive que procurar um meio de sustentar a família e os aplicativos foram o meio que encontrei”, conta.
As plataformas de mobilidade e de entrega de produtos, como Uber, 99, Cabify e iFood, têm 5,5 milhões de profissionais cadastrados, segundo o Instituto Locomotiva. Esse total inclui profissionais autônomos e os que têm emprego fixo, mas usam apps como complemento, informa o jornal O Estado de S. Paulo.
Uma pesquisa do Fundação Instituto de Administração (FIA) e da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) aponta que 87% dos entregadores passaram a ganhar mais após usarem plataformas como iFood, Rappi e Uber Eats.
Marcos Carvalho, da Associação Brasileira de Online to Offline diz que os aplicativos acompanham as transformações nas relações de trabalho. "É um processo que mira a autonomia do cliente, que escolhe entre vários serviços, e o trabalhador, que atua em diferentes plataformas."
As plataformas permitiram que muitos afetados pela crise voltassem ao mercado, diz Carolinne Iglesias, da Cabify. "De forma geral, os motoristas são autônomos que, com o aplicativo, têm suporte e segurança."
Para o economista Sergio Firpo, do Insper, o trabalho com aplicativos foi potencializado pela crise e deve se consolidar como complemento de renda quando o mercado de trabalho melhorar. "Falar em precarização do trabalho pressupõe que essas pessoas teriam emprego, mas 13 milhões delas não têm."
PERCALÇOS
Mas a vida de motorista de aplicativo não é fácil. Sborgi conta trabalhar até 14 horas por dia para conseguir dinheiro suficiente para as contas da família. Com a disseminação dos aplicativos do gênero, a demanda se pulverizou e o trabalho se tornou menos rentável para os motoristas, ele relata.
Os custos com combustível, com a manutenção do veículo e com eventuais multas aumentam a pressão de conseguir mais corridas para arcar com despesas. O aumento das tarifas cobradas dos motoristas pelos aplicativos também impactam a atividade. “Tem que rodar muito para conseguir pagar todos os custos”, comenta Erick Vieira. Ele conta que foi assaltado dois meses atrás e, por isso, teve que alugar um carro para continuar trabalhando. Vieira também reclama da relação com os aplicativos, que muitas vezes punem os motoristas levando em consideração apenas a queixa dos usuários.
Embora a flexibilidade de horários permita ficar mais tempo com a família, o medo de assaltos faz com que Paulo Sborgi continue procurando outro emprego para deixar a vida de motorista de aplicativos. Já Vieira diz que continuará a trabalhar como motorista de aplicativos, mesmo quando conseguir emprego em sua área de formação. “Pretendo continuar. Acabei gostando do que faço.”
JUSTIÇA
A relação entre motoristas e aplicativos já rendeu brigas na Justiça, tanto no Brasil quanto no exterior. Em março, a Uber teve de pagar US$ 20 milhões a motoristas que moveram uma ação contra a empresa nos Estados Unidos. Os profissionais alegavam que eram empregados da companhia e não contratados independentes.
Em agosto, uma decisão do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo reconheceu o vínculo de emprego entre um motorista e a Uber, mas o mesmo tribunal já havia tomado uma decisão em sentido contrário.
A preocupação com decisões judiciais sobre vínculos trabalhistas constava até no pedido de abertura de capital enviado na semana passada pela empresa à Comissão de Títulos e Câmbios dos Estados Unidos (SEC).(Com Agência Estado)


